Vai ver ainda vestimos
os pássaros noturnos
assim que amanhece.
Nosso ônibus parte sem nós,
enquanto nossos relógios dormem
ignorando os corpos moles.

Depois, só o café avista a manhã
como uma casca solta
.
Nossos olhos perscrutam o motorista:
o nome dele é Jorge, o automóvel é prata
e chega em cinco ou seis minutos.

Não há fumaça no destino
se quem salta (nós e os gatos)
não segura o próprio peito
(este peito que pulsa
sobre os degraus da escada).

Nosso trabalho entra no escritório
com explicações consideradas justas
e alguma garganta que sente sede.
Nossa mesa transpira,
mas até o meio-dia
tudo há de ficar confortável
como o sol através das janelas.
O gerente almoçará com um de nós
(o que fizer menos barulho).

Além do esgotamento da tarde,
partirá o nosso cardume
confuso e cansado:
seguiremos essas roupas e esses passos,
até um ônibus apinhado de gente
e rangidos de quem vai pra casa.
Só então correrá o rio.
Iremos por onde o rio passar.

Talvez as mariposas finalmente
tenham perdido os dentes,
aprendido a cantar.
E talvez esse canto sem boca nos faça dormir
sobre a lama onde encalham
os corpos mais pesados.

(Altair Martins)