Louvação à chuva

 

Crestada pelo sêmen do sol,

A terra paria cardos e espinhos.

Amasiada com os urubus e os espinhos,

O sertão gestava mortos, cruzes e ossos.

 

Eu, grávido de nuvens e sonhos,

Adorava os moucos deuses da chuva.

Os quais, raras e poucas vezes,

Me atendiam; sabiam-me

Pecador provinciano indigno.

 

Quando chovia, eu endoidava sob as bicas,

Na louca, real e festiva louvação à chuva.

 

Mensagem de Dércio Braúna

 

Meu caríssimo Clauder,

Nesta sexta em que tudo se agita (o carnaval já é, antes de mesmo de ser), venho lhe confirmar e agradecer, imensamente, as escrituras que me enviaste: Cancioneiro da terra, de Antonio Fabiano; e o teu Pílulas para o silêncio. O primeiro chegou-me na quarta, o teu chegou-me ontem.

Da poesia de Antonio Fabiano, dedilhei versos esparsos. E me parece, pelo que espreitei, poeta senhor do ofício, de uma talhada, burilada lira. Ou melhor, de uma “lira luminar de três mil sóis” [no poema “Lira e toada”]. Que coisa bela! Mas, como disse, ainda hei de enveredar pelo fiar telúrico do poeta Fabiano.

De tua escrevência, contrariando a prática de certos pretensos sábios, fui além da orelha e das duas primeiras páginas (risos!).

E não poderia deixar aqui de registrar meu assombro com tua voracidade criadora. Impressiona esse labor de escrita. É uma inveja que confesso: quem me dera essa disciplina em enfrentar o deus branco que nos espreita, e, por tantas vezes, nos domina e “humilha, com sua paz vazia” [p. 86]. Mas a isto já deste a resposta: “escrever e (d)escrever é minha sina” [p. 28]. E quando de sina se trata, todo cansaço e toda entrega logo se convertem em novo e renovado empenho, em nova e renovada fé de recomeçar.

Ontem, por toda a noite, tomei de tuas pílulas.

Pílulas da certeira ironia nesse tempo nosso, em que “assim [achincalhante] caminha a municipalidade” (e não só, bem sabemos), os “pretensos sábios” [que nada sabem, que nada leem], os pregadores descarnados [“se você acha que tesão profana o amor, case-se com um eunuco”!, p. 69], e tantos, tantos mais.

Pílulas das confissões que não nos cabe calar: “escrevo para chamar pelos meus fantasmas, conclamar todos os meus medos e advertir da propriedade das minhas faltas” [p. 62]. Confesso que, ante essa confissão tua, detive-me. Na noite que me envolvia, com seu silêncio cortado apenas pelo latido distante de um cão-sentinela, parei a pensar. (E não é isso que deve uma escrita: nos parar, nos interromper o ordinário do dia, do afazer costumeiro, para nos atirar aos pés certas pedras ao caminho?).

Pílulas para dar caminho ao pensamento: “a língua de um povo traz, na sua carne, a marca dos seus mitos, o ferro de suas tragédias e a ferrugem de sua história” [p. 131]. Que dizer diante disto? Um imenso correr de linhas (um longo e erudito ensaio, por exemplo) não bastaria para dizer o que diz esta linha breve na sua beleza contundente. Que dizer destas outras (contundentes linhas)?: “se levares a tua pena ao centro das tragédias humanas, e não desistires da palavra, quem sabe escreverás algo que valha a pena ser vivido.” [p. 144]. Ora se não é isto que há tanto tenho tentado, em minhas escrevências, dizer? Assino em baixo, se assim me permitires, essa pílula, camarada.

Pílulas de pura poesia, arcana, primeva: “há uma cidade talássica na noite dos mares extintos” [p. 96]. Que boa inveja me deu essa pílula-pérola!

Pílulas para nos emaranhar nos mundos alheios que são (porque os fazemos) nossos (e não é mesmo assim que deve ser?!): “E agora, José?…” [p. 100]

E agora, Clauder, que mais dizer?

Digo tão somente que me sinto honrado em poder partilhar esse estar inquieto no mundo que tua escrita lança a ele (vasto mundo).

Muito, muitíssimo obrigado, caro amigo, por essas pílulas lançadas ao coração dos sentintes.

Grande abraço deste escrevente,

Dércio Braúna

 

***

 

Caro amigo e mestre Dércio Braúna:

Acordo sempre cedo, tangido pelos galos de uma telúrica madrugada, leio, rabisco e, ao abrir o computador, esta sua nótula-regalo.

O que dizer, além de agradecer? Agradecer porque vale a pena ser lido por um leitor silente e profundamente lírico. Leitor que, ao nos ler, nos faz crer na esperança de uma nova literatura, de uma nova vida, de um novo mundo. Mundo mais poético e, por conseguinte, mais humano e melhor.

Obrigado, amigo Dércio, que a saúde e a Poesia estejam convosco. Amém.

Deste seu admirador,

Clauder Arcanjo.

 

 

* Contato: clauderarcanjo@gmail.com