Contato

Publicado em 29 de maio de 2013 – 6:01h. Carol Bradley

 

Hoje, Joana deu o último suspiro… Essa frase no Facebook do chefe deixou Júlio indeciso. Deveria dar os pêsames mesmo sem saber se seria uma tia, prima ou irmã? Seria melhor ignorar a informação? Como estava havia um mês no novo trabalho, achou que demonstrar solidariedade seria uma forma de se aproximar do seu diretor.

Sr. Fernando, toda perda é sofrida, dolorosa, mas faz parte da vida. Certamente Joana agora descansa em um local de paz, de luz. Favor informar sobre horário do enterro e missa de sétimo dia. Se precisar de um ombro amigo, pode contar comigo.

Mandou a mensagem e esperou ansioso pela resposta. Acreditava que angariar a simpatia do chefe seria um bom início para subir alguns degraus na carreira. Quem sabe em pouco tempo assumiria um cargo de gerência? Um bom relacionamento com quem detinha poder na empresa era fundamental para os seus planos. Normalmente, fragilizadas, as pessoas ficam mais abertas ao outro, pensou. Meia hora depois chegou a tão esperada resposta.

Obrigado pela preocupação, mas Joana já foi enterrada e não haverá missa, era nossa cachorrinha de estimação.

 

Terapia

Publicado em 20 de dezembro de 2012 – 7:16h. Carol Bradley

 

Julieta foi para a sessão semanal de terapia. Estava especialmente bela. Com um vestido vermelho, justo. Decote generoso, fenda na perna, salto alto. Dr. Pimenta não pôde deixar de reparar. A paciente já se tratava havia mais de um ano com o médico. Nesse período, a mudança interior refletiu no exterior. Emagreceu, clareou os cabelos, descobriu a maquiagem.

Bom dia, julieta, tudo bem? Tudo ótimo. Doutor, essa semana eu conheci um rapaz. Continue. Eu estava na praia com uns amigos e ele chegou. Estava de sunga preta. Sem camisa. Malha, com certeza, pensei. Conversamos bastante. Ele também é servidor público, também é formado em Direito. Muitas coincidências, você não acha? Deve ser o destino. Eu estava de biquíni branco. Percebi ele me olhando. Aquele olhar de quem quer saborear uma fruta da época. O calor estava quase insuportável. Fomos para o mar. Senti a perna dele roçando na minha. Arrepiei. Continue. De repente veio uma onda e me desequilibrou. Quase levo um caldo. Ele me segurou pela cintura. Aquela mão de homem, que segura firme. Ficamos bem próximos. Os corpos colados. Nos beijamos. Um beijo molhado e salgado. Gostoso. Continue. Estávamos no fundo. Sentia sua mão alisando meu corpo. O relógio tocou. Doutor, acabou meu tempo. Não se preocupe, pode continuar.

 

Contemplação

Publicado em 18 de outubro de 2012 – 6:37h. Carol Bradley

 

O verão começou. O sol brilha no céu de Porto de Galinhas. Caminhando na praia, o mar lambe meus pés. Arrepio. Azul e verde misturados pelas ondas fortes. A criança pula amarelinha. O sorriso estampado na pele morena. Deito na canga. Sinto o sol penetrando meu corpo. Os gringos têm que comprar vitamina D na farmácia. Sorte minha.

Um homem se aproxima. Galego, pele clara, forte. Olá, você sabe onde é a Pousada Jurubeba? Pelo sotaque percebo que não é conterrâneo. Pode seguir caminhando, é depois daquela curva. Duas barrocas surgem no canto da boca. Ele comenta, eu adoro o jeito que vocês falam: podi, oxi, vixe. Você é carioca? Da gema. Conversamos mais um pouco. Disse que era a primeira vez em Pernambuco e estava de férias do banco. Nunca imaginei que o Nordeste tivesse tantas belezas. Sorri. Quer ir na pousada tomar uma cerveja? Fica para outro dia. Vou encontrar umas amigas agora. Me despedi do menino do Rio. Voltei admirando aquele dia colorido. Caminhava e agradecia a Deus pelo espetáculo da natureza. Ao lado de conchas brancas, marrom, rosa, havia uma água viva. Quase imperceptível repousando na areia. Levantei o pé antes de completar a pisada. No belo, também há perigo.

 

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* Extraídos de Um conto por dia, Carol Bradley. Recife: Editora Bagaço, 2014

Contatos: www.umcontopordia.com.br e carolbradley@uol.com.br