Rumeur des Ages

La Rouchele, França, 2008

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão***

 

(A seguinte tradução foi parcialmente e em outra ordem apresentada no

V FESTLATINO – Recife/PE – Novembro 2011, sob o título

Uma janela para a arte:

Um olhar de Marcel Proust sobre a obra de Gustave Moreau)

 

 

 

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            Marcel Proust descobriu a casa de Gustave Moreau, destinada a transformar-se em museu (número 14, rua La Rochefoucauld, em Paris), provavelmente[1] em outubro de 1898, alguns meses após a morte do pintor (18 de abril).

            As notas que apresentamos foram escritas após essa visita. Elas permaneceram inéditas durante a vida do escritor, cujo manuscrito se encontra na Bibliothèque Nationale de France (ms 45). Elas foram publicadas pela primeira vez em 1954, por Bernard de Fallois, nos Nouveaux Mélanges, em seguida a Contre Sainte-Beuve (Gallimard).

            Propomos uma passagem da crítica do Éblouissements, de Anna de Noialles, publicada no Figaro (suplemento literário, de 15 de junho de 1907), porque o trabalho do pintor é o seu eixo essencial.

            Aconselhamos vivamente ao leitor desejoso de saber mais, consultar a edição publicada por Pierre Clarac e Yves Sandre na Bibliothèque da Pléiade.

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Nem sempre concebemos facilmente como certos pássaros voam numa paisagem, um cisne se eleva do rio em direção ao céu, uma cortesã abre caminho no meio dos pássaros e flores sobre um alto terraço. Essas imagens são a ocupação incessante dos pensamentos de um grande espírito, sendo reencontradas como seu caráter essencial em todos os seus quadros, tornando-se admiradas pela posteridade. O prazer único de tal amador em seu trabalho, que encontra com deleite em A descida da cruz o cisne que há também em O amor e as musas e, por um prazer inverso e idêntico, se alegra de ter o mesmo pássaro azul que ele pintara. Temos de perguntar o que o mestre queria fazer. Mas dificilmente poderemos responder, porque ele mesmo somente pôde fazê-lo com a Cortesã sobre o terraço, à noite, e o voo desse cisne sinalizado pelas musas, imagens as mais exatas possíveis que ele entrevia, e sem explicação, já que dizer o que desejamos fazer não é, em suma, o que realmente podemos fazer a todo minuto enquanto reelaboramos a ideia que nos apareceu. Devemos aguardar a inspiração, tentar revê-la, e, a partir dela, pintar.

Édipo e a Esfinge

Museu Metropolitan, Nova York, EUA

Essas paisagens de Moreau são exatamente o espaço por onde tal deus passa, onde tal visão aparece, e a cor púrpura que tinge o céu ali se revela um se sobre o presságio, e a passagem de um cervo um se de augúrio favorável, e a montanha um lugar tão consagrado que uma paisagem pura parece bem vulgar, como que desintelectualizada, como se as montanhas, o céu, as feras, as flores tivessem sido esvaziadas por um instante de sua preciosa essência de história, como se o céu, as flores, a montanha não trouxessem mais a marca de uma hora trágica, como se a luz não fosse aquela por onde passa o deus, onde aparece a cortesã, como se a natureza desintelectualizada se tornasse demasiado vulgar e vasta; as paisagens de Moureau estão geralmente engasgadas na garganta, fechadas por um lago, em toda parte onde o divino, quem sabe, por vezes se manifestou em uma hora incerta em que a tela se eterniza como a lembrança do herói. E como essa paisagem natural, e que parece, no entanto, consciente, como essas montanhas em cujos nobres picos  vamos orar e onde se elevam os templos que são quase templos, como esses pássaros, talvez escondendo a alma de um deus, com um olhar que lembra o olhar humano através de seu disfarce e cujo voo parece ser guiado por um deus que avisa, a face do herói, ele mesmo, parece participar vagamente do mistério que todo o quadro exprime. Porque a cortesã tem o ar de cortesã, como o pássaro que voa por um destino que não é de maneira alguma de sua escolha ou de sua natureza, mas sua face é triste e bela, e ela observa tecendo seus cabelos por entre as flores; e a musa passa apesar dela, modulando um canto em sua lira, e São João,[2]quando mata o dragão, parece submeter com calma sua própria coragem e de estar no lugar legendário e vagamente sonhador desse ato mitológico, como as montanhas por onde passa, como o cavalo feroz e doce, ornado de pedrarias e lançando olhares irritados, e se acabrunha, quadros antigos que reconhecemos de imediato não serem de um velho, amigos deste homem que, sozinho, quando pintava seus sonhos, cobertos por tapeçarias vermelhas, essas vestimentas verdes enfeitadas de flores e pedrarias, essas cabeças graves que são aquelas das cortesãs, essas cabeças doces que são aquelas dos heróis, esses desfiles que são o país onde se passam todas as coisas que ele pinta, porque a vida não é desligada das coisas, mas fundida a elas, porque a montanha é legendária e a pessoa nada mais é que legendária, porque o misterioso da ação é exprimido por tudo o que reserva a figura da pessoa, o herói que tem o ar doce de uma virgem, a cortesã que tem o ar grave de uma santa, a musa que tem o ar insignificante de uma viajante, não esclarecendo absolutamente a ação que eles parecem não cumprir e por tudo o que reserva a paisagem de cumplicidade, porque os antros escondem os monstros, os pássaros dizem augúrios, as nuvens escorrem sangue e a hora é misteriosa e parece emocionar o Céu sobre o que é cumprido misteriosamente na Terra.

(Continua na próxima semana…)

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(1) Segundo Maïté Vallés-Bled, Proust e seus pintores, Musée des Beaux-Arts de Chartres, 1991.

(2) Mais provavelmente São Jorge.

* Gustave Moreau (1826-1898) nasceu em 6 de abril de 1826, na Rue des Saint-Pères, número 03, Paris. Filho de Louis Moreau, arquiteto e de Pauline Desmontiers. Tornou-se célebre por ser um dos principais impulsionadores da arte simbolista do século XIX. Moreau começou como pintor realista. Posteriormente, sob a influência dos impressionistas e pré-rafaelitas, evoluiu para uma pintura mais romântica e espiritual, que lhe permitiu entrar nas fileiras do simbolismo, junto com Munch, Ensor, Puvis de Chavanes e Redon. Alguns historiadores de arte preferem se referir a eles como pós-impressionistas. Teve aulas com os mestres Chassériau e Picot em seus respectivos ateliês. Suas obras foram expostas pela primeira vez ao público e à crítica no Salão de 1852 tendo o seu trabalho reconhecido apenas no Salão de 1864, com quase quarenta anos, e por duas vezes tentou o prêmio de Roma, prêmio da Escola de Belas Artes, sem obter sucesso.

** Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922) nasceu em 10 de julho de 1871 em Auteuil, França. Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. Foi romancista, ensaísta e crítico. Teve como principais obras:

 – Les Plaisis et les Jours (Calmann-Lévy, 1896)

– La Bible d´Amiens (Mercure de France, 1904)

– La mort des cathédrales (Le Figaro, 1904)

– Sésame et les lys (1906)

– Pastiches et mélanges (NRF, 1919)

– Chroniques (1927)

– Jean Santeuil (1952)

– Contre Sainte-Beuve (1954)

– Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009)

– À la recherche du temps perdu (1913-1927)

 Morreu em 18 de novembro de 1822, de uma bronquite mal curada.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com