ARQUEOLOGIA  FAMILIAR

                                                                                          

Andei arrumando umas papeladas, revendo e recuperando um pouco desse fato consumado que se chama tempo. Velhos sonhos a morrer na gaveta. Entre retratos, objetos,  cartas, encontro um postal sem data, com a minha letra de colegial aplicada: “Volte logo, já sinto saudades.” A quem teria enviado?  Misturadas às miudezas, dentinhos de leite da criançada. Porta-moedas com algumas de 2.000 réis de prata-1888, homenageando Petrus II.  Um dedal de ouro com ele, minha tia avó Sinhá Teté costurava os vestidos das minhas bonecas. Um par de abotoadura de prata do meu pai. Estojo de retrato “Ambrótipo” com grupo de mulheres, de outras eras: Escolástica, Serafina, Triphonia, eternamente jovens com românticos vestidos, em atitude pensativa encostadas a uma coluna, à espera de um amor. Homens de fraque e cartola, com datas antigas. Um lenço de linho com bordados richelieu. Livrinho de 1ª Comunhão de capa perolada.  Um leque com letras gravadas, abrindo-o as libélulas pareciam libertarem-se da longa  imobilidade. Algumas peças preciosas de linho belga dos enxovais de casamentos sonhados pelas tias solteironas, que foram passando de casa em casa, de gaveta em gaveta. Seria possível rasgar cartas e retratos acumulados por várias  gerações? Na verdade, a gente conserva essas tralhas desarrumadas pela vida. Mas, está tudo inteiro. É só sacudir a poeira do tempo.

Febril, com gripe daquelas que derrubam a gente, lembrei-me de quando não se usava termômetro, só a mão carinhosa da mãe, para saber da febre. Remédios indesejáveis tomados em troca de histórias de Trancoso, contos da carochinha contadas por Sá Ana, sempre depois dos trabalhos da cozinha. Meu pai, antes de sair de casa solenemente  perguntava qual seria o melhor presente, para ajudar na convalescença, livro ou lápis de cor ? Eu preferia os dois.  Na sobrecarregada vida de hoje sobra espaço para os amigos e bem-quereres, nesta alinhavada  pesquisa de  arqueologia  familiar.

Aos amigos da União brasileira de Escritores, sessão Rio de janeiro, especialmente à  Presidente Lúcia Regina de Lucena e Stella Leonardos, Secretária  Geral, meus  agradecimentos por  terem dado  o meu modesto nome ao diploma:“Prêmio Poesia  Marly Mota,”concedido a escritora e poeta Patricia Tenório, pernambucana do Recife. À nossa presidente Fátima Quintas, que conduz com eficácia à Academia Pernambucana de Letras fará uma  homenagem à vencedora do Premio.

 

Flor Marly Mota

 

 

CAMINHO   DOS   SONHOS

                                                                     

A vida não caminha sem os sonhos. Deles temos necessidade, para suportar o dia-a-dia.  Deixá-los morrer, confinados na memória e nas gavetas,  por quê ?  Lá estão, cartas, fotos, diários, cartões, desenhos. De um em particular de quando menina de oito anos, segurando uma flor, me fez a caricatura, o meu primo Capiba. Dos sonhos carecem os escritores, poetas, compositores, artistas, arquitetos, políticos, e tantos mais. Guardo  na memória  e nas gavetas, as minhas fantasias como refúgio. Há um provérbio chinês: Nunca ria dos sonhos dos outro. Quem não tem sonhos tem muito pouco.

Muitos afirmam que os sonhos influenciam decisões. Os  milhares de sonhos que a Mega-Sena sugere, os que  se aventuram através do democrático e popular “jogo do bicho:”  Sonhar viajando dá camelo, com ônibus colorido, pavão, com a polícia, dá macaco, com traição, dá cobra.  Sá Ana, nossa ama, jogava dois tostões no “bicho.” Seu sonho: botar um dente de ouro.

Ah! Como sonhei com o cinema e com galãs dos filmes americanos!  Quem  não lembra do tema musical Summertime in Venice, e  Que c´ést  triste Venise,   na voz inconfundivel de Charles Asnavour, que encantada  ouvi  sob as  pontes que cruzam os canais.  Na Praça  que  Napoleão  considerava  a  mais bela do mundo, os cafés, com as suas orquestras  e repertórios  belle-èpoque,  de operetas antigas. Ouve-se Fascinação,  com os pombos, às centenas, voando diante  da Basílica  de São Marcos. Há  um  belo apelo,  no amor que se tem por Veneza.

No livro de Cândido Portinari –1903-1962 – O Menino de Brodosque, ele diz para o filho João Candido: Sabe por que  é que pintei meninos em gangorra e balanço? Para  botá-los  no ar feitos anjos. Balançando-me à sombra da mangueira do quintal da minha casa, só Deus sabe até onde o sonho me levava.

O artista catalão Salvador Dalí afirmava que o sonho foi o seu instrumento de trabalho. O músico Paul Mc Cartney compôs, inspirado num sonho, Yesterday, inscrita no livro Guinness dos Recordes, como a música pop de maior sucesso.

Casualmente, sonho tocando piano, chego até a ouvir o som do teclado. Às vezes, o sonho chega com pesadelo, levando-me, aflita, a lugares nunca dantes visitados.   (…) A ninguém que passava eu poderia / estender a mão, querer falar / Pedir fraternidade e companhia / Era só na paisagem milenar… Fragmento do poema  Perto e Longe, de Ribeiro Couto, guardado na Gaveta dos Sonhos.        

Crônica Marly Mota

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* Marly  Mota é artista plástica, poetisa, cronista e membro da Academia Pernambucana de Letras. Contato:  marlym@hotlink.com.br