Caruaru, 24 de abril de 2020

CARTA ABERTA AO FUTURO

Desde março de 2020, enclausurei-me neste apartamento. Duas luas se passaram e eu continuo nesta liberdade aprisionada, que me deixa refém de um inimigo audacioso que, silentemente, violenta o corpo, causando danos, talvez irreparáveis. Sozinha, durmo, na esperança de que nos mistérios da noite a graça aconteça: a descoberta da cura para os males causados pela COVID-19. Mas, o amanhecer surge, decepcionante. Nada de novo. Então, renovo-me de esperanças para viver mais um dia de expectativas.

Houve aniversários: Maria Clara e Maria Flor, minhas netas. Eu também aniversariei. 70 anos. Uma festa estava planejada. Solitária, não tive os abraços dos filhos, das netas e dos netos. Resignei-me com o frio cumprimento pelos meios tecnológicos. Grata a Deus pela vida, pela saúde. Procuro entreter o pensamento, desviando-o de notícias nefastas. Leio, vejo filmes, escrevo. A música me faz bem. Arrumo gavetas, armários, estantes. Olho fotografias de momentos felizes. Descarto objetos que não uso há tanto tempo. Desnecessários. Para que servem louças, taças, vasos expostos em uma cristaleira à chave, se nenhuma utilidade têm para o dia a dia da casa? Tive vergonha de mim! Revi roupas, guardadas há tanto tempo, de que não mais me lembrava. Separei para doação. Revi os meus conceitos, as vaidades e as futilidades. Fiz uma espécie de assepsia na alma. E assumi comigo um compromisso: o respeito às diferenças. Afinal, eu sou diferente.

Hoje, durante a manhã choveu. Fiquei feliz. Um acontecimento que rompeu a cansada rotina. Da varanda acompanhei a queda dos grossos pingos que explodiam no asfalto. O temporal foi passageiro, mas purificou e deu uma leveza ao ar. Olhei o jardim. As flores lá estavam indiferentes ao meu estado de espírito. Continuam enfeitando e perfumando. Lembrei os versos de Cartola. “AS ROSAS NÃO FALAM”.

E se falassem, o que me diriam?  Talvez me passassem uma lição: “Nós nos despetalamos, na tempestade; mas, na primavera, renascemos mais bonitas”. E, nessas divagações, aprendi.

Quando essas nuvens sombrosas passarem, quero abraçar a todos. Penetrar no coração de cada irmão e dizer: “Eu te amo!” Quero ver a vida em sua plenitude. Descobrir a sua essência e ser feliz!

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AUDIO-2021-02-07-12-27-01 – Cilene

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* Texto publicado na obra TEMPO PARTIDO, organizado pela escritora e professora Ivanilde de Gusmão, a quem sou grata, em meio à pandemia da Covid-19.

** Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com