23/01/2015

 

To see the Summer Sky

Is Poetry, though never in a Book it lie –

True Poems flee 

(Emily Dickinson)

            A dedicatória na primeira página do volume artesalmente confeccionado por Ítalo Dantas e Felipe de Andrade do seu Monocular ID-entidade é muito reveladora. Na língua original, o inglês da poetisa americana Emily Dickinson (1830-1886), com as maiúsculas e travessões de Emily Dickinson, preservando o que ela pensou, conservando o sagrado de sua escritura.

Sabemos que os cadernos da poetisa foram encontrados por sua irmã Lavínia após a sua morte. Lá estavam eles, feitos de papel carta, costurados à mão, guardados a sete chaves os 1.775 poemas escritos entre 1850 até 1886 quando faleceu[1]. Ela escrevia pela necessidade máxima e compulsiva de escrever, pelo ato da escritura que manipula alguma parte escondida do cérebro, acessível de maneira semelhante nas leituras epifânicas de um livro bom.

Esse era o segredo também de Joubert. O escritor-que-nunca-escreveu-um-livro, amigo “de Valéry a Gide”, apresentado pelo escritor e ensaísta francês Maurice Blanchot (1907-2003) em O livro por vir, nos fala da recusa de tornar público o que possuía de mais precioso.

 

Mas, de fato, que arte é a minha? Que fim ela se propõe? O que ela produz? O que faz com que ela nasça e exista? O que pretendo e quero fazer ao exercê-la? Será escrever e assegurar-me de ser lido? Única ambição de tanta gente! será isso o que desejo?… É o que devo examinar atentamente, longamente, e até que eu o saiba.[2]

 

Ítalo/Felipe – e não sabemos qual dos dois, feito quisessem se anonimizar à la artistas do medievo, cavaleiros de Canções de Gesta, cantadores de Canções de Amigo – avisa(m) logo no prefácio do perigo a ser enfrentado:

 

aviso ao leitor atento:

desatente-se

*

[…]

Este é o ponto de virada,

onde o “Eu” assume sua ID

-entidade definitiva.

Eu. […]

Desejo, logo resisto.

*

re-

sign

{i}ficar O(n.m.) sign-o.

 

Trilhando os “longos, perigosos, tortuosos” caminhos da arte, para onde o artista vai, mas não possui garantias de volta, aquilo que Hermann Hesse (1877-1962) avisou que era para “os poucos, os loucos, os bons”[3], ou que Walt Whitman compreende que “Só o que a si mesmo prova a todo homem e mulher existe”[4], estão ali, escancarados, e descobertos, e ferida exposta em Ítalo Dantas e Felipe de Andrade.

 

O medo da dor é mais forte que a própria dor.

I

Assombra-me esta ideia de que um dia

Cessarão os ponteiros da existência,

E não virão os anjos à excrescência

Da mais primordial anatomia

 

De maneira sartriana eles estão sós, e carregam essa mais absoluta solidão em seus peitos juvenis, em seus peitos que ainda têm muito a ver, e sofrer, e chorar, mas também amar, e levantar, e se refazer das cinzas, feito fênix de verso e luz.

 

Poema (?) Cinza

 

O tempo vem e gentilmente nos dobra:

o futuro ao mais forte pertence.

Sozinhos.

Lá se foi a luta

e a guerra…

Só nos resta levantar a cabeça

procurando o sol (será que ele ainda

[está lá?)

e rezar para que alguém nos escute,

para que sejamos iguais, ou sejamos

                        [levados embora.

 

Então nos resta apenas pedir a Ítalo Dantas e Felipe de Andrade, jovens “alunos de poesia” feito eles mesmos se autodenominam, que não desistam, e insistam, e persistam, mesmo se tiverem que continuar costurando seus livros feito Emily Dickinson, mesmo que não publiquem em editoras poderosas, que permaneçam nesse espaço sagrado que Joubert buscava, ansiava avidamente, “Aqui, estou fora das coisas civis e na pura região da Arte”[5]. Ou feito a dedicatória/epígrafe que encabeça Monocular ID-entidade, que eu peço delicadamente a licença a Ítalo/Felipe/Emily de a traduzir.

 

Ver o Céu de Verão

É Poesia, mas nunca em um Livro mentem –

Verdadeiros Poemas fogem 

 

– Continuemos!

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foto 1

foto 2

 

foto 3

 

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Ítalo Dantas e Felipe de Andrade são “jovens estudantes” da Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco e da Graduação em Engenharia da Universidade Federal Rural de Pernambuco respectivamente. Contato: italodantas95@hotmail.com

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

(1) BENDER, Ivo in DICKINSON, Emily.  Poemas escolhidos. Tradução: Ivo Bender. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 9.

(2) JOUBERT in BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. – (Tópicos), p. 75.

(3) HESSE, Hermann. O lobo da estepe. Tradução e prefácio de Ivo Barroso. 29ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2005.

(4) WHITMAN, Walt. Canção de mim mesmo. In Folhas de Relva. Tradução e pósfácio de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008; 2ª reimpressão, p. 85.

(5) JOUBERT in BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. – (Tópicos), p. 76.