25/05/12

 Para Thais e Nilton

    

Entro no Teatro Hermilo Borba Filho. Sento na primeira fila. “Tenho muitos bons motivos para estar nesta platéia”. Me acomodo. Dou a mão a dois amigos que, nervosos como eu, ansiosos como eu, aguardam o espetáculo começar.

Os atores se aquecem à nossa frente. Se jogam em um colchão grosso. Um a um. Retiram o colchão. Se jogam diretamente no piso de madeira. Sem piedade. Sem medo. Se jogam apenas para sentirem a dor.

A dor está presente a cada instante de “Cinema”, de Anderson Aníbal. Ela entra na pele dos atores assim como as lágrimas artificiais que Regina pinga nos olhos dos personagens em criação. Eles nascem diante de nós e conosco. Eles nos convidam “Vamos chorar juntos?”.

Uma das maiores vantagens do cinema é que podemos ir sós, chorar sós, chorar mesmo quando o filme não nos toca de maneira direta, mas nos remete obliquamente àquela ferida que se abre cada vez que ouvimos uma palavra, esporádica talvez, ou vemos uma imagem que se parece conosco.

“REGINA – A gente geralmente acha bonito quando uma coisa fala da gente.” (ANÍBAL, 2010, p. 40)

 A música nos envolve, nos induz como a sequência das imagens a sentir de uma maneira, a vibrar num acorde específico. (Lembro uma cena de “O show de Truman” (WEIR, 1998), quando o diretor do programa, com um gorro de artista, vai pincelando com a música o tom exato da cena, para o efeito justo no espectador.) E ficamos assim, entregues ao que o diretor-autor nos guia, ao que os personagens-atores rememoram em nós.

Sinto mais forte as mãos de meus amigos apertando as minhas, pedindo às minhas o meu calor. Mas como posso dar-lhes calor se ele está lá, no palco, no espaço vazio sendo preenchido pelos personagens e suas histórias?

“JULIANO/ORLANDO – Você precisa acreditar em mim. Acreditar – esta é a ação principal para transformar alguma coisa em realidade. Acreditar no que não vemos. Apenas aceitar o que nos dizem, os nossos sentimentos. Afinal, são os sentimentos que nos fazem dar os primeiros passos.” (ANÍBAL, 2010, pp. 31 e 81)

E passo a passo vamos nos libertando, vamos nos encontrando nas imagens-palavras-músicas de Bernardo, Elisângela, Juliano, Orlando, Regina, Ivan, Ofélia. Nas palavras de “Cinema” que agora carregamos em nós, se transformam em nós e nós nos transformamos.

“BERNARDO – Depois de tudo, vem o mar.” (ANÍBAL, 2010, p. 82)

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* Autora: Patricia Tenório : www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

Referências bibliográficas:

[1] Cinema – A natureza das coisas – Parte III. Anderson Aníbal. Caixa Clara, Belo Horizonte: 2010.

Referências cinematográficas:

[1] O show de Truman. EUA, 1998. 102 minutos. De Peter Weir. Com Jim Carrey, Laura Linney, Natascha McElhone, Ed Harris.