Patricia Tenório*

23/02/13

Em uma carta colocada ao final do seu primeiro romance Amar, verbo intransitivo: idílio (1927), Mário de Andrade (1893-1945) adverte ao redator (e também a nós, leitores) que o “fenômeno biológico provocando a individualidade psicológica de Carlos é a própria essência”[1] do livro. Investigador de sua própria obra na tentativa de melhor exprimir seu pensamento, em primeiro lugar para si, em segundo, para o leitor, Mário Raul de Morais Andrade nos parece caracterizar o seu “idílio” como o primeiro ato de um homem individualizado.

Nascido em São Paulo em 9 de outubro de 1893, o autor participou ativamente do antes, durante e depois do Movimento Modernista Brasileiro. Buscava a “língua original brasileira”, livre do academicismo lusitano e, transitando entre diversas linguagens (crítica de arte, poesia, ficção, história, música, fotografia), imprimiu um tom próprio e ao mesmo tempo “irmão” de escritores brasileiros de diferentes épocas, tais como Guimarães Rosa (1908-1967) e Clarice Lispector (1920-1977). Grande conhecedor da gramática a ponto de poder “quebrá-la” e “desrespeitá-la”, imprime a próprio risco grafias “abrasileiradas” (“milhor”, “si”, entre outras), na tentativa de criação de uma identidade nacional na literatura, demais artes e campos de expressão em que atuou na época.

Seu primeiro romance, Amar, verbo intransitivo, nos parece aglutinar duas vontades. A vontade da identidade que o Amor entrega. A vontade da identidade de uma língua, uma cultura, uma nação. No próprio título vemos a segunda vontade expressa, ao explicitar o verbo, a palavra, o que nos move, o que “se encarnou e habitou entre nós”, mesmo que de maneira colonizada. E quanto ao Amar? E quanto ao Amor?

Joseph Campbell em O poder do mito nos revela no capítulo sobre Histórias de Amor e Matrimônio[2] que o Amor, da maneira como hoje o conhecemos, ou seja, entre duas pessoas, não existiu sempre assim. Nasceu na época dos trovadores, século XII, na Idade Média, a época do amor cortês. Antes, Eros (“impulso biológico”) e Ágape (“ama o teu próximo como a ti mesmo”) dominavam. Não existia um acordo “entre os olhos e o coração” de duas pessoas. Casamentos para cumprir arranjos de poder e política da Igreja impediam que os olhos fossem os “espiões do coração”, que escolhessem o que “agradaria a este possuir”. Com os trovadores, se anuncia um grande perigo à Igreja: o caráter individual e pessoal da experiência do Amor, e não o que era imposto pela tradição.

Encontramos pontos em comum tanto com o romance de Andrade quanto com a essência do Modernismo: a formação de uma identidade. Em Amar, verbo intransitivo, Carlos é o filho primogênito, com três irmãs mais novas, numa família burguesa em ascensão, os Souza Costa, que consideram que tudo é passível de compra. Para proteger e resguardar o jovem de mulheres “oportunistas” e de classe social inferior, Felisberto Souza Costa, o pai, contrata Elza, logo apelidada de Fräulein, para, “mascarada” de governanta, ensinar-lhe a arte do amor. É uma sociedade machista, paternalista, de aparências. O que não sabem, pai, mãe e a própria Fraulëin, é que o amor não escolhe como e em quem pousar, e aos poucos envolve o primogênito e a governanta num profundo caminho sem volta.

Enquanto Carlos vai descobrindo o amor, vai se autodescobrindo, e a coragem, o controle, a tolerância vão tomando conta de si, transformando-o em quem será, no seu “ser-a-vir”, fato somente possível com o alargar das fronteiras da alma que o sofrimento, a dor do amor nos dá. “O amor em si é dor”, porque é a “dor de estar verdadeiramente vivo” .[3]

Mário de Andrade forja com esse texto e, em seguida, com Macunaíma (1928) uma libertação dos grilhões coloniais, ao quebrar com a gramática a forma de estruturar o romance sem capítulos, vozes narrativas diversas, digressões irônicas embebidas em histórias folclóricas nacionais que não pertenciam à tradição, colhidas em suas pesquisas no Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, ou marcações musicais (músico e professor de música que era), com tempo, claves, ritmos, parecendo nos colocar no centro do palco de uma ópera tupiniquim. O verbo intransitivo de que ele nos fala não trata apenas do amor incondicional, do Amor Perfeito, aquele que dá sem querer nada em troca, mas trata também, semanticamente, do corte que o autor pleiteava do complemento direto ou indireto da língua portuguesa.

Na conferência realizada na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1942,[4] Mário de Andrade discorre sobre o Movimento Modernista do qual fez parte, o “antes, durante e depois”, e faz uma dolorosa confissão. Considera que eles, os modernistas, não devem “servir de exemplo a ninguém”. Mas que podem “servir de lição”. Sente-se fracassado no quesito da própria obra ao dar preferência, acolher e defender o “trator” da revolução modernista. Abandonou a si mesmo em favor da revolução, abandonou seu “individualismo”.

Mas o que Mário esquece, Carlos vem nos lembrar. Quando ao fim do idílio. No início do suplício. A grande dor do amor nos abre, nos alarga, e apreendemos todo o mundo agora. A vida pulsa na dor do amor. Ela é maior do que a arte. É maior que a própria vida, porque maior que a morte. Então não nos vemos sós. E tudo vale a pena.

“Os braços dele foram ficando vazios. Os braços dele ficaram compridos no ar. Ficaram compridíssimos. Foram descendo cansadíssimos. Teve uma vaga lembrança de que nem a beijara. Não, só um verbo naturalista: não aproveitara. E agora nunca mais. Porta que fecha. Sonolência. Não chorava. Foi andando. Parou calçando o chinelo. Subia os degraus.” [5]

Mário de Andrade

(1893-1945)

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(1) ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo: idílio.  Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 156.

(2) CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O poder do mito. Organização: Betty Sue Flowers. Tradução: Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 1990, pp. 195-215.

(3) CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O poder do mito. Organização: Betty Sue Flowers. Tradução: Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 1990, p. 215.

(4) Movimento Modernista, Mário de Andrade in Mestres do Modernismo, Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. Textos de Marcelo Mattos Araújo, Paulina Nemirovsky, Fernando Xavier Ferreira e outros. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, p. 254.

(5) ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo: idílio. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 134.

Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br