Patricia Tenório

23/04/07

 

Seguro o pensamento, amarro na ponta da caneta por alguns instantes e ele não é meu, pertence ao outro: o papel.

Quisera realizar o sonho solto de pensar por mim, isenta das elucubrações formadas, livre dos conceitos antigos e permanentes; livre, porém não traidora, consciente de que me formam, me consistem, ao mesmo tempo, não mais deles dependo.

Procuro nas variadas áreas do conhecimento aquele ponto em comum, aquela intersecção, onde brilha uma faísca de verdade, que eu sei que é verdade e ninguém me prova, porque além de mim há o sentimento. Debruço-me sobre a filosofia ruptora de Foucault e o sem cessar do recomeço, a palavra me formando, atravesso de um canto a outro a folha branca e cada letra me modifica inteira, parte minhas células à procura do centro luminoso, eu me entrego ao turbilhão de sensações que deste centro emana.

Utilizo a escrita, esse delimitador do infinito eu, instrumento de construção e desconstrução de minha personalidade, pesca pouca e rara de pedaços reveladores dessa alma, que me atormenta e não permite descanso, uma meditação vazia de sentido, onde eu possa novamente preenchê-la com novas buscas, setas às vezes errôneas, muitas vezes errôneas e que me dão algum sentido, precioso, rápido.

Dou mais um passo nesse mergulho e não entendo o que vejo. Pudera me aquietar um pouco e retornar ao útero materno. Atormenta-me a idéia da loucura; atormenta e seduz, porque vejo nela, emaranhada com a razão, uma espécie de paraíso perdido do meu ser, encontro outros seres errantes a quem chamo de artistas e que não são captados.

Não quero ser captada, ao menos por um instante, mas a idéia não se afasta de mim, dessa ponte da caneta com o que se inscreve, e a ponte do olhar me invade, então me livro do medo e me entrego à conquista. Naquele toque lento e morno do primeiro encontro, o roçar do ombro no meu braço esquerdo afasta todo o pavor de ser vista, e querida, e desejada. No sorriso que reconheço meu, antigo meu e eu nem sabia, o acaso juntando almas de vazio, não esperam nada e buscam o nada, não podem ser enquadradas nem classificadas.

Temi esse encontro há milhões de anos e agora que estou com ele em meus braços não me suporto mais. É tão pleno, alucinante, somente com essas letras desconectas me faço inteira outra vez e rodo e rodo sobre o mesmo círculo da mandala que não conheço. Getzels e Csikzentwihalyi: dêem uma luz nesse caos de amor primeiro. Será amor primeiro? Será profundo e com verdade? Porque senão o que é essa certeza no peito, uma esperança que em mim se acende? Sim, o artista é diferente das outras pessoas, eu os respondo. Ou como seria possível sentir essa dor até o mais profundo das entranhas e sair de lá com vida? Ir de mãos vazias, voltar com pedras preciosas?

Não fora a pele acobreada, nem os cabelos acinzentando sobre as orelhas, nem o modelo pré-fabricado: foi encontrar a diferença essencial, estalou uma diferença outra aqui dentro e eu não me sentia Eva, queria ser boa, bela, plana, santa, uma santa sem altares e circunflexões, mas que me amparasse do perigo de mim mesma e guiasse sem mãos nem cortinamentos na direção dele, o ser que eu elegia amado, querido, desejado.

Quebro paradigmas no que escrevo. Não sei o gênero, se literário ou de confissões, feminino, masculino, não caibo mais nesse pequeno espaço do meu corpo, e não, Foucault: a alma é que está aprisionada nesta porção de ser pensante, vivente, amante.

Quisera espalhar pelo universo, no coração de cada pequenino ser esta imagem que não se desfigura. Mas não a quero maior, nem idealizada, pois perdi a inocência e não acredito mais em fadas, só em desejos que se façam necessários, tão necessários que a todos prescinda e torne-se lei a ser violada, fragmentos, um recomeço se anuncia àquela que duvidou, àquela que perguntava às estrelas e às almas flutuantes se existe essa tal felicidade que por segundos descobri e a vi passar.