Há um abismo entre eles. O mar e o desfiladeiro. O único acesso se dá pelo caminho de chão batido, haverá um não? Pode ser este significado de geração que os separa? O que há no reflexo dos espelhos que miram? O que impregnou em cada um?

Foi desejo à primeira vista. Ele a quis. Deu o primeiro passo. Estavam no Interior, ele expressou desejo de amá-la, com insistência. Queria tê-la em qualquer lugar, um banheiro que fosse. Na lembrança dela, chegou a teimar mesmo. Porque ela queria, mas não tinha pressa, nem medo de perdê-lo de vista. Conseguiu, ao menos, o beijo.

De volta aos lugares de origem, cercados de confiança e atenção, ficavam. Até que numa noite de lua e festa, entrou nela com intensidade.

Penetrou sua abertura de passagem secreta até tornar-se a representação mais completa do ser humano. Pelo menos para ela. Foram incontáveis encontros conjugados, com algo mais que o verbo. As conversas varavam as madrugadas. Velara ausências em descanso. O cansaço passou a ser medido pelos carinhos fixados. Vênus em virgem. Ele era um bicho atirado e quieto, arvorava-se tímido.

Discreto na expressão dos sentimentos, por outro lado, amante completo. Entrega plena. Como um vinho reservado em tensão de indecifrável enigma. Deixa chama acesa nela. Maior a cada encontro. Brasa viva. Queima língua. Mesmo no vento mudo, inseguro, tende retrair porque teme incomodar. Mantinha no rumo. Durável e duro.

Ao lado dele, Górgia sentia como se não houvesse outro mundo. Nada com que comparar. Como estivesse ao lado da melhor pessoa do universo. Talvez pelo senso de convivência dele.

Aquele homem, anos mais novo que ela, provocava estímulos mais poderosos. Fazia do entorno mais intenso e criativo. Ele a admirava pelos melhores motivos. Górgia seguiu seu desejo e instinto, num impulso de natureza. Preservando a saudade da inocência. Foram indo.

Se os vazios se interpuseram? Sim. Sentiram preenchidos, principalmente na fantasia, e não queriam estar na vida um do outro, exceto naqueles momentos. Górgia tinha Vênus em escorpião. Ele em Virgem. Era o que o céu lhes reservara. Nenhum limite entre paixão e amor. Embora soubesse: São diferentes. Amavam e eram livres. Assim seriam até.

O fato é que: depois de conhecê-lo, ninguém interessava mais. Mesmo que não acreditasse em monogamia ou fidelidade. Homem e mulher doavam-se e, ao redor deles, estavam em sentimentos incompletos. Urgências de corpo. Selaram amizade em encontros marcados.

Isso não seria tudo? Não porque quando ditava a casualidade não desgrudavam. Até o dia seguinte. Depois que ficaram, não seriam mais os mesmos. Ele conquistou vida própria, cama e casa. Ela tinha compromisso e disciplina. Menos liberdade. Passou a fazer somente o que sempre quis.

Fez da vida pé na estrada, a contar histórias em euforia indomada. Para além dos limites da cidade natal, que era a capital. Numa noite torrencial de chuva dura e água corrente frouxa por sobre as calçadas. Ambos torpes o suficiente para não esquecer nada. E deixar solto o espírito. Não havia neles autocrítica, ou retração, ou controle sobre o desejo. Solto, pelo que sentiram.

Impulso que veio durante a tempestade. Ambos fora do eixo. Em vontades de beijos e verdade. Tire suas conclusões pela história que começa agora. É narcótica entrega?

 

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* Geórgia Alves é mãe, mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE, jornalista e cineasta. Contato: georgia.alves1@gmail.com

** Extraído de Reflexo dos Górgias, Geórgia Alves. Recife: Grupo Paés, 2012.