17 de agosto de 2014

“Quem vive mais do que uma vida, também deve morrer mais que uma morte.” Oscar Wilde (1854-1900)

Isso nos é apresentado a todo instante, desde a mudança de ano até a alternância de governos, ou ainda ovos quebrados para se fazer omeletes. Não há renascer sem antes haver uma perda, vista aqui como morte, antes de algo novo acontecer.

A começar pela careta da criança ao comer sua primeira sopinha, ao degustar o sal depois de meses sorvendo o doce leite materno. Adiante largar o peito, seguido do caminhar, do cair, do machucar. Depois chega a consciência da passagem do tempo. “Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer”, e os fogos pipocando e a criança chorando alto, acima do som dos foguetes. “Mas o que foi?” “Estou triste. O ano velho morreu!” Esta é a primeira e inesquecível morte. Depois, mudar de ano letivo e de professora causa insegurança. É preciso paciência para enfrentar os calundus dos pequenos, que vão se adaptando às novas ordens.

Os choros dos adultos podem ser difíceis de entender. Quando têm uma coisa, pretendem avançar para alcançar outra, e sabem que para ter algo é preciso largar a anterior. Assim, mudam de carro, de casa, de emprego, de amigos, de relacionamento. Nem sempre para melhor. E para cada etapa, vem a adaptação, tão dolorosa que pode ser fatal. Há mudanças de cidade que se mostram dramáticas, com sérios desdobramentos. Pessoas que engordam vinte quilos em um ano. Outras melhoram de vida, passam no sonhado concurso, estão ganhando bem, mas se não buscarem ajuda psiquiátrica, entram em combustão, fracassam, morrem. Para quem não se prepara, aposentar-se pode ser se acabar.

As mudanças de estado civil, começando de solteiro para casado, pesam no comportamento. Casar é um verbo tão pesado quanto morrer. É preciso dar uma grande festa, e a cada ano novos itens são acrescentados. Se antes já era quase um circo, hoje tem o picadeiro completo. É preciso mimar os convidados com presentes e bombons. O baque do fato em si pode ser grande, não sendo incomum namorar dez anos e ficar casado três meses. O que é uma nova morte, por ter de recuar, vender, recomeçar. O divórcio é uma catástrofe.

Padres largam a batina, profissionais mudam de ramo, médicos trocam de especialidade. É possível mudar de sexo, religião ou time de futebol. O avançar da vida exige mudanças, e estas passam por pequenas mortes e grandes prejuízos, e outro tanto de ganhos. Nesse vai e vem anda solta a opinião alheia, que, pelo menos da boca pra fora não afeta ninguém, mas que, na conversa com o travesseiro, impinge novos morreres.

Muitos querem mudar de vida, viver a existência de alguém que nem existe. Boa parte dos desaparecidos cujos rostos estão nas contas de luz e água, foi comprar cigarros e nunca mais voltou. O que queria mesmo era uma nova vida e foi atrás dela, levando apenas a vontade. Alguns foram vítimas de crimes, mas outros não querem ser achados e trocaram de face e de nome.

Ex-presidiários, cuja pena tem oficialmente o objetivo de resgate, fazendo a pessoa arrepender-se do crime e não voltar a cometê-lo, podem querer e querem muito, que tudo seja esquecido. As nossas prisões propiciam isso, ou mesmo nós somos capazes desse esquecimento?

Pais nômades, que mudam de estado ou país de tempos em tempos, levando seus filhos, podem fazer das memórias deles, uma colcha de retalhos de lugares e pessoas, num caldo de culturas. Um dia, algum dos filhos pode querer se fixar, passar uma borracha no que traz misturado, e amar um canto só.

Pode-se querer esquecer o passado, ou parte dele, excluindo momentos traumáticos. Há recursos de hipnose para esse fim. Melhor seria desenvolver uma amnésia seletiva, que possibilitasse escolher o que lembrar. O terrível, o que feriu de morte, seria enterrado fundo, e coberto com concreto forte.

A vida pode ser vivida com intensidade de paixão, em todo seu esplendor. Mas antes da mudança, o preço é deixar ir o que já passou, envolvendo uma interessante dinâmica.

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Enviado por Mara Narciso:  yanmar@terra.com.br