Andares 

 

Dos desertos, trouxeste a aridez das pretensas certezas, a vacuidade das horas, a quentura tórrida dos infinitos medos. E, na algibeira, a algaravia do intrépido vazio, inteiro.

Das campinas, no fundo dos teus olhos verdes, a esperança de outrora, postagem de eternos nuncas; sensação de abstinência, mesmo diante do néctar do cigano mundo. E, no bornal de esmeraldas, a baça luz dos exangues proscritos, estrangeiros.

Da caatinga, na sertanidade do teu compasso, em passos cambiantes, o cantar do assum preto, cegueira a tudo; o sol como morada, a lua como degredo. E, no bisaco de guarda, arremedo de paz, alforje ensanguentado de desprezo.

Dos riachos, das águas estivais, o banho na roça, carrapicho na alma, esticada no arame dos altares ateus. E, para cada passo, nova botija de andares. Em cada uma dessas oferendas, um cordel travado, viola estiolada. Enfim, tu, eterno provinciano. Sertanejo, altaneiro.

 

Cantares

 

Na flauta, como em silvos breves; uníssono e terno acalanto. Anúncio de tua breve chegada.

No pequeno tarol, o ruflar inquieto dos tambores, em festivo e colorido rito; ritmo, expansivo, da tua entrada.

Nos violinos, a harmonia de cordas faceiras; orquestrações de tua permanência azul nos meus braços cinza.

Nos teus cantares, o chorinho da despedida. Deixando-me a sós, apenas com a lembrança terna do teu acalanto, do teu ritmo, da tua faceirice… Eu, tristonho e sozinho, a tentar, canhestramente, imitar a pungência dos teus cantares.

Not to be reproduced, René Magritte,

1937, Oil on cavas, 81.3 x 65 cm 

_______________________

Textos enviados por Clauder Arcanjoclauderarcanjo@gmail.com e autorizados pelo autor para serem publicados no blog de Patricia Tenório.