Não existem fatos, só interpretações.

Friedrich Nietzsche

A cor púrpura dos cabelos caíam em cachos por sobre meus ombros. Saía do coiffeur, na Île de St Louis, os livros de francês debaixo do braço, ao encontro de mamãe.

– Almoçamos no Deux Magots?

No céu formavam-se nuvens espessas, não vai dar tempo de chegar, e os meus cabelos arrumados?

– Onde se pega o ônibus para a Rive Droite?

O menino me apontava a estação. Um menino negro, boina vermelha, vendia jornais antigos. Tive a impressão de ver uma foto minha nas páginas policiais.

– O ônibus, mademoisele! O ônibus para a Rive Droite!

Perdera-o. O menino não estava mais lá, desapareceu por entre a bruma do quai. A Notre-Dame cantava os sinos me lembrando do atraso. Desci as escadas na direção do Sena, quem sabe ainda pegue o Bateau Mouche?

– Quer uma carona?

Um barco azul. Um rapaz, pele clara, olhos cinza, dirigia as velas, o som alto saía das cabines, duas moças dançavam com outro rapaz louro.

– Para onde vão?

– Para onde você quiser.

– Preciso chegar logo à Rive Droite, no Deux Magots. Marquei com a minha mãe de almoçarmos lá, estou muito atrasada.

– Talvez demore um pouco. A chuva se aproxima… Você tem como avisá-la?

Enviei a mensagem de celular, mãe, vou me atrasar um pouco, peça a champanhe rosé.

Clarice recebe uma mensagem. Acorda Pedro e lhe mostra.

– Você quer beber conosco? Esta é Sofia, Marguerite, Denis.

– Prazer, me chamo Virgínia. E você, como se chama?

– Como quiser me chamar.

Sofia puxou o rapaz sem nome, deu-lhe um beijo olhando em minha direção. A bebida no estômago vazio?, as nuvens balançando o barco?, os ponteiros do relógio que avançavam?, avançavam, na proa do barco azul, via a água sendo cortada em duas, queria mostrar à minha mãe para ela descrever no livro.

O celular de Clarice recebeu uma vídeo-mensagem.

– Por que está aqui sozinha?

– Não estava me sentindo bem na cabine. E você não me diz seu nome.

– Se eu disser, você me dá um beijo?

– Mas… E Sofia?

– Somos apenas amigos. E não se deve perder o momento. Pode ser que nunca mais nos encontremos.

– Minha mãe avisou que isso poderia acontecer.

– De estarmos aqui juntos?

– Eu poderia me apaixonar por alguém proibido.

O vento soprava sobre o meu cabelo, desalinhando o que antes me fora arrumado com zelo.

– O significado das palavras têm muito menos a ver com a razão do que com a causa.

– Por que me diz isso?

– Você entenderá um dia.

Ele me tomou nos braços, levou ao quarto verde, retirando as roupas até me ver nua e indefesa.

As mãos suaves deslizavam cada parte do corpo, girando em círculo os dedos sobre os seios nus, beijando os bicos, o umbigo, o sexo virgem, com a língua morna penetrou o âmago do meu ser retirando estrelas que reluziam no teto da cabine. Sofia fotografava com o meu celular. Ele beijava meus cílios molhados.

– Por que chora?

– Nunca fui tão feliz.

– Não se apegue a nada, minha pequena Virgínia.

O barco está chegando à Rive Droite.

Denis, Marguerite e Sofia abriram a porta sanfonada da cabine. Procurava minhas roupas, o quarto nu, não havia lençóis ou toalhas e ele não estava mais lá.

Clarice e Pedro chegaram ao hospital. Pediram para ver com urgência a filha na UTI. As fotos continuavam chegando ao celular.

– Sua vadia! Eu só precisei fechar os olhos para você roubar meu marido!

– Eu não sabia. Ele disse que você era apenas uma amiga.

– Amigos que se beijam na boca?

– Sofia, você sabe como ele é.

– Não se meta nisso, Marguerite. Cuide do seu homem que eu cuido do meu.

A minha cabeça doía. Tentava cobrir o corpo com os cachos lisos, a cor púrpura escorrendo por entre as pernas, soluçando, soluçando.

– Venha, Virgínia. Emprestarei uma das minhas roupas.

Havia um aquário no quarto de Marguerite. Peixes dourados nadavam suavemente. Por entre eles, vi uma cama de hospital.

– Recebemos estas fotos, doutor. São de hoje.

O médico de olhos cinza, pele clara olhava o celular de Clarice.

– Mas vejam: desde o acidente de barco que o estado da paciente permanece o mesmo.

Meus olhos viram os olhos que me pertenciam.

Eu estava lá, cabeça raspada, corpo nu coberto por um lençol branco, o rosto pálido não se mexendo, como eu poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Se há pouco eu fora desvirginada por alguém que nem sabia o nome? Se os meus cabelos cobriam os ombros e eu sentia o vestido branco de Marguerite colar na minha pele rosa? Se descia do barco azul me despedindo de todos, mas ele não estava lá? Nunca mais o veria?

Entrei na Rue Bonaparte, avistava a Eglise de Saint Germain de Près. Daqui a pouco verei minha mãe, almoçaremos um quiche Loraine com salada verde, beberemos champanhe rosé nas mesinhas de fora do Deux Magots.

httpv://www.youtube.com/watch?v=EAAPVLPxN98

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* Extraído de Diálogos, 2010, Editora Calibán.

** Prisão Perpétua. Curta-metragem adaptado do conto homônimo que faz parte da trilogia Diálogos. Texto e direção: Patricia Tenório. Figurino e produção: Jorge Féo. Com Hermínia Mendes, Renata Phaelante e Juan Guimarães. Diálogos foi vencedor da 4ª Edição do Banquete de Curtas – Cine Banquete – Recife – PE, janeiro de 2011.