48. A IMAGEM COMO UM FURTO
Dentro da imagem,
o mundo não mais desperdiça
e ao contrário: se caixa
onde (quadrado) se alberga.
Dentro da mesma imagem
também se definitiva
o chão onde agora
o mundo pisa.
*
Ali onde o mundo é
excisão de si mesmo ontem:
ponta de unha de unha amputada
que jaz e sem história.
Ali onde os veleiros param
e a água fecha a boca
a fim de que nada seque
do que sedento segue.
Ali onde duas pessoas
são nucas e costas e braços
e pernas eternos.
Ali onde folhas e franjas,
na perpendicular do corte
são indício (talvez poda)
da árvore que não existe.
Ali onde o céu se rebaixa
e até o pecado descansa.
*
Portanto
é sobre o dentro da imagem
que escrevo
como quem sutura
ou cobra uma pensão.
É pra dentro da imagem
que arrasto o furto
(o fundo e as figuras).
Porque é dentro da imagem
que convoco a intervir
o perfume e a voz
do que vivo foi e agora:
múmia de rio e vela e folha
e homem e mulher e muro
confinados ao intervalo
do fio de cabelo
que sempre passa
e silencia.
Dentro da imagem:
tudo que agora se avulsa
e que o mundo não reconhecerá
como filho.
*
A imagem: mundo condensado
e manejável de gaiola.
A imagem: pedaço de mundo
que escapou da execução.

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AUDIO-2021-04-22-11-06-30 – Altair

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* Poemas postados no Jornal Nova Folha, Guaíba, RS. Fotografia: Valmir Michelon. www.novafolha.com.br/altair-martins

*** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar(Porto Alegre: EdiPucrs, 2019) e o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) são suas últimas publicações. Ministrante, em setembro de 2019, da disciplina Oficina de Poesia na primeira turma de especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br