55. PÓS-ESCRITO

Trafegamos tarde pelos pés

e pelas mãos.

Trafegamos tarde pelo rosto,

pela coluna e pelo sexo.

Só tivemos verdadeiramente um corpo

quando ele sofreu lasca

ou mordeu a língua.

*

Consumimos nossa água

e nunca deixamos a sede.

Fomos um rio que não se soube fora

sem o espelho do vidro,

das tecnologias ou do outro.

Tivemos a estrada sempre seca

onde um cavalo e um cão

ainda seguem sem apontar o endereço.

Pesávamos menos assim.

*

Nossos ossos foram se enferrujando

cada vez que enchíamos o peito.

O amor e o trabalho nos iludiram,

fornecendo tréguas entre relógios.

Mas sem a estrada,

esperamos o desmaiar da carne

e dos nervos,

a conversão em formiga e terra

do que conosco nasceu

e serviu à genética

e ao crediário.

*            

Apontamos pra frente e pra trás.

E nossos ouvidos captaram ao lado

os seres que se escondem na lama

e nos superam comungando um planeta

todo coincidência

ou milagre.

*

Trafegamos tarde pelos segredos

das frutas

e pelo suspirar da grama repleta de espigas.

Trafegamos tarde pelos olhos,

que estavam ocupados com coisas fúteis:

as mais velozes,

as mais brilhantes.

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AUDIO-2021-06-08-18-28-37 – Altair

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* Fotografia: Valmir Michelon

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br