38. A RUA ESCREVE ANTES DE DORMIR

A rua escreveu

que o bairro foi se recolher cedo

naquele verão brutamontes

que bebeu todas ao meio-dia

e continuou bebendo com os mosquitos

e os sapos.

A rua anotou

que o sono seria uma nova bênção

mesmo com a noite abafada.

Ela falou sobre a espera paciente

pela umidade do rio

e o cheiro bom de peixe

e que só então escreveu

sobre cada automóvel calado

na leveza de ser esquecido.

Falou da peneira do ar,

dos suspiros das casas

e de um gato

com olhos maiores que ele.

Escreveu sobre o plantão dos postes

e dos fios,

da tinta desgastada no limite das coisas que se atritam, se mordem, se amparam, da dor incessante das lâmpadas elétricas e do medo (que ainda temos) de temporal com granizo.

Mas a rua escreveu também sobre si.

Que o dia lhe pisou tão pesado

quanto um feijão que se come rápido.

Ela disse que o calor estriou sua pele

por onde andam os bichos pequenos

e também os jornalistas, os diretores de escola e os fotógrafos.

Escreveu sobre as próprias feridas

e a convicção de que a terra se cura.

Mas repetiu que lhe incomodava

o suor nos cabelos

e que só o que queria

era deitar-se depois de um banho.

Insone pelo suor das árvores,

a rua não quis café

quando não teve mais o que escrever.

Então fechou apenas um olho

e amanheceu sobre os próprios ombros

— como alguém

que dormiu de pé.

_____________________________________

AUDIO-2021-02-10-18-22-44 – Altair

_____________________________________

* Poemas postados no Jornal Nova Folha, Guaíba, RS. Fotografia: Valmir Michelon. www.novafolha.com.br/altair-martins

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar(Porto Alegre: EdiPucrs, 2019) e o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) são suas últimas publicações. Ministrante, em setembro de 2019, da disciplina Oficina de Poesia na primeira turma de especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br