Patricia Tenório

19/04/2011

Estou no meio da savana.

Acalmo o coração, nenhum barulho ao meu redor.

Reflito sobre o mergulhar da viagem e o fazer artístico, algo que penso perdido na geração das festas espetáculo-literárias em que nos encontramos.

Quanto a mim, Daniel, senti minha alma desfalecer dentro de mim, e fiquei perturbado por essas visões de meu espírito. ([1])

A meu ver, o poeta, poeta no sentido de criador, aquieta-se na busca da mais fina beleza, no afã de roçá-la, se embeber no doce amargo da sua essência.

Fosse eu imóvel como tu, estrela brilhante!

Não suspenso da noite com uma voz deserta,

A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,

Monge da natureza, insone e paciente

As águas móveis na missão sacerdotal

De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,

Ou vendo a nova máscara – caída leve

Sobre as montanhas, sobre os pântanos da neve,

Não! Mas firme e imutável sempre, a descansar

No seio que amadura de meu belo amor,

Para sentir, e sempre, o seu tranqüilo arfar,

Desperto, e sempre, numa inquietação – dulçor,

Para seu meigo respirar ouvir em sorte,

E sempre assim viver, ou desmaiar na morte. ([2])

([3])

O viajante segue o poeta ao se desarmar do que se indica nos guias de viagem, cidades turísticas, nas obrigações de cumprir o que em si não há.

Perdido! Essa palavra é como um sino

Que dobra para que de ti eu volte à minha solidão([4])

Não devemos nunca, jamais esquecermos ao que viemos, a casca do orgulho e da prepotência deve ser arrancada (dolorosamente) a cada dia, a cada instante. A cada ato.

O poeta é o mais impoético de tudo o que existe, porque não tem identidade, continuamente adentra e enche outro corpo. ([5])

Então nos revoltemos abracemos o suicidado da sociedade([6]), o que não se expõe e põe em si mesmo a necessidade de se fazer escutar quando não é ouvido, de se fazer enxergar quando não é olhado, e pela fresta de seu quadro-acorde-poesia-viagem deixar-se derramar inteiro, sem nenhum retorno.

Quanto a ti, vai até o fim. Tu repousarás e te levantarás para (receber) tua parte de herança, no fim dos tempos. ([7])

Libertado de todas as paixões terrenas que o tumulto da vida social produz, minha alma várias vezes se lançaria acima dessa atmosfera e se ligaria, antes da hora, a inteligências celestes a cujo número espera somar-se em pouco tempo. ([8])

No entanto, não é fácil manter-se aberto à alteridade que nos interroga, uma vez que as obras, como emblemas do sensível estão sempre a exigir de nós criação para delas podermos ter experiência, como diz o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) em “O visível e o invisível”. ([9])

Toda a linguagem verdadeira é incompreensível

Tal como o bater

Do bater de dentes([10])

Mas…

Não dá para ficar se lamentando quando se está ocupado com coisas construtivas. ([11])

([12])

____________________________________

Estudos & Referências:

(1) Daniel 7, 15.

(2) Estrela brilhante, John Keats. Tomei a liberdade de alterar para “estrela brilhante” ao invés de “astro fulgente” a tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Keats – Ode sobre a melancolia e outros poemas, Ed. Hedra.

(3) Bright Star. Jane Champion, 2009. Com Abbie Cornish, Ben Whishaw e Paul Schneider.

(4) Trecho de Ode ao rouxinol – VIII, John Keats, Keats – Ode sobre a melancolia e outros poemas, organização e tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Ed. Hedra.

(5) John Keats, em Keats – Ode sobre a melancolia e outros poemas, organização e tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Ed. Hedra.

(6) Referência a Van Gogh, o suicidado da sociedade, Antonin Artaud, Hiena Editora.

(7) Daniel 12, 13.

(8) Trecho de Os devaneios do caminhante solitário, Jean-Jacques Rousseau, Ed. L&PM.

(9) Trecho de A psicanálise implicada, João A, Frayze, Revista Mente & Cérebro, V. 9, “Diálogos e fronteiras – a psicanálise e outros campos”.

(10) Trecho de Van Gogh, o suicidado da sociedade, Antonin Artaud, Hiena Editora.

(11) Nelson Mandela.

(12) Patricia Tenório asks: is here (Out of Africa?). Join this discovery of South Africa through the eyes of an artist… Music: “Homeless”, Ladysmith Black Mambazo. Images & Edition: Patricia Tenório.