Patricia Tenório

27/03/2011

Termino de ler O Paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa. Trata-se da biografia romanceada da revolucionária francesa Flora Tristán em paralelo com a de seu neto, o artista plástico Paul Gauguin.

Com ritmo lento, próximo ao monótono, Llosa, com uma linguagem na maior parte de confidências, desvela a história da mulher Flora e do homem Gauguin, suas fraquezas e virtudes, a força propulsora que os move, apesar dos caminhos (aparentemente) diversos que tomam. Sinto como se Gauguin tivesse sido privilegiado pelo escritor peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. O escritor que, por ser ele mesmo engajado nas lutas sociais de seu país, até mesmo tendo concorrido à presidência, poderia ter emprestado à personagem Flora Tristán a mesma poesia, a mesma delicadeza com que envolve e nos seduz em Paul Gauguin. O espírito revolucionário de Flora é sobrepujado pela liberdade selvagem de Gauguin, que nos apresenta as cores vivas e vibrantes especialmente do Taiti e nos convida a despir das camadas civilizatórias que nos embotam e fazem seguir um comportamento massivo e repetitivo dos seres considerados normais.

Mas o que é ser normal? Nos tortuosos caminhos percorridos tanto por Flora quanto por Gauguin, procuraram sempre estar de acordo com suas próprias consciências, com suas próprias paixões.

Existe um livro, honesto (ele não se propõe a mais do que isso) de Daniel Pennac, que nos apresenta os direitos do leitor:

“1 – O direito de não ler.

  2 – O direito de pular páginas.

  3 – O direito de não terminar um livro.

  4 – O direito de reler.

  5 – O direito de ler qualquer coisa.

  6 – O direito ao bovarismo.

  7 – O direito de ler em qualquer lugar.

  8 – O direito de ler em voz alta.

  9 – O direito de calar.” ([1])

Llosa chegou a me desestimular da leitura até quase o final do livro quando, então sim, através do encadeamento de tempos narrativos diversos, de me pôr numa espécie de bruma entre o que é sonho e o que é real, induz a uma dinâmica e empatia com os personagens, acelerando o ritmo percebido, me fazendo sair de uma maneira positiva da leitura.

A meu ver, a história de Flora Tristán poderia ter sido mais aprofundada e dada ênfase a liberdade dessa mulher que, para aquele tempo, escolheu o seu destino. Sinto uma espécie de caricatura no momento em que o romance com Olympia Maleszewska, o grande (e talvez único) amor da vida de Flora, é pincelado e tolhido de maiores detalhes (míseras cinco páginas).

Flora escolheu um caminho que mesmo hoje é repreendido pelas mulheres ditas modernas: a solidão. É certo que existiam outros elementos em cena (“A união operária”, etc), e concordo que ela se doou ao extremo por uma causa, excluindo de viver de maneira plena com alguém que amava para poder lutar por todas as outras mulheres e trabalhadores desvalidos semelhantes a si. Mas qual o problema de estar só? De ser só?

Lembro de uma discussão que tive com colegas de minha filha de dezesseis anos. Elas me chocaram ao afirmar que seu maior desejo era casar com um homem rico que as sustentasse. Não por precisarem financeiramente, mas para não trabalharem, não lutarem por um ideal. O que está acontecendo com essas meninas? E o que me apavora é conhecer mulheres adultas que pensam exatamente da mesma maneira. Para onde foi a luta de Flora Tristán, Simone de Beauvoir, Simone Weil, Isadora Duncan… e tantas e tantas outras mulheres que, juntamente com homens também especiais, revolucionaram o mundo em favor dos excluídos – leiam-se mulheres, negros, índios, homossexuais, judeus, mulçumanos, árabes… e todos os rótulos que tentaram pregar em nossas caras feito máscaras impossíveis de arrancar?

Não estou aqui para julgar a vida dos outros nem para ser feminista ou machista, mas por ter sido contaminada pela luta libertária de uma Flora tão incompreendida – inclusive por mim no início da leitura –, quando na busca incessante da dignidade, plenitude, do olhar no espelho e poder ver um ser humano.       

Mas não entrei neste livro totalmente desarmada quanto aos personagens – e talvez por isso a fluidez da leitura não tenha chegado à sua potência máxima. Principalmente em relação a Paul Gauguin. Após ler de maneira apaixonada Cartas a Théo([2]), de Vincent Van Gogh, percebo que Van Gogh me induziu a ficar ao menos cismada com seu amigo-inimigo de Arles. Mario Vargas Llosa teve como grande trunfo, para mim, apresentar um Paul Gauguin nu e verdadeiro, mostrar o outro lado das Cartas de Vincent Van Gogh a seu irmão Théo, o lado mais humano de dois seres geniais, Vincent e Paul, e que dificilmente poderiam permanecer juntos sem abocanharem e/ou reprimirem o talento um do outro.

Termino de ler O Paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa. Como escritora, leitora e pessoa saio maior, apesar e principalmente por causa das divergências, por aprender até mesmo com o que não gosto, com o diferente, com uma possibilidade de mim mesma que, em alguma encruzilhada da vida, me foi perguntado se “O Paraíso é aqui?” e o tentei encontrar na “outra esquina”.

__________________________________________ 

(1) Como um romance, Daniel Pennac, L&PM, pág. 126.

(2) Cartas a Théo, de Vincent Van Gogh, L&PM, especialmente da página 308 à página 318, onde trata do acidente de automutilação de Van Gogh.