O jogo das contas de vidro[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            No último sábado, 06 de novembro de 2021, participei de um evento do Traço Freudiano Veredas Lacanianas, intitulado Literatura & Psicanálise, juntamente com a psicanalista Elizabete Siqueira. Foi um convite de Lourdes Rodrigues e Luciane Batista. No encontro, apresentei a minha tese de doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS, 12 horas: o mito individual em uma autobioficção,[3] defendida em outubro de 2018, há três anos.

            A tese é formada por uma parte ficcional e outra teórica. Na parte teórica, analisei os conceitos de autobiografia e autoficção de Philippe Lejeune[4] e do mito individual do neurótico de Jacques Lacan,[5] aplicando na parte ficcional a técnica freudiana da transferência como cura.

            O que me saltou à vista, e que vem ao encontro deste breve ensaio, são os ciclos da vida anunciados por uma espécie de “despertar”, palavra utilizada pelo escritor e pintor alemão, radicado em Montagnolo, Suíça, Hermann Hesse, no romance de mais de quinhentas páginas, e que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, O jogo das contas de vidro.

            No romance de Hesse, conhecemos a história do Mestre do Jogo de Avelórios José Servo, história que o narrador esclarece que é parte real, parte lenda ou ficção. Em um futuro distante e utópico, uma sociedade à parte do mundo chamada Castália gera e nutre mestres e jogadores do Jogo de Avelórios. Servo vem de uma origem humilde, mas vai crescendo em beleza e sabedoria e atinge o ápice dessa sociedade erudita, que elabora jogos refinadíssimos a partir da música, astronomia, matemática e outras áreas de conhecimento e de arte.

            Tive o privilégio (e risco), ainda em plenos tempos pandêmicos, agora em outubro de 2021, de visitar a casa de Hermann Hesse em Montagnolo, à margem do lago Lugano, sul da Suíça. E o cenário de O jogo é bem próximo a esse país neutro na vida real, que não se intromete em guerras nem questões políticas, não possuindo até mesmo um exército. No romance de Hesse, parece que vemos a casinha de três andares, com uma máquina datilográfica no quarto de vista para o lago, onde Hesse escreveu suas maiores obras.

            O jogo trata da educação como base e consequência para a criação. A teoria provocando a poesia. A crítica instigando a ficção. Contrapondo o Yang e o Yin da filosofia oriental, principalmente no I Ching ou o Livro das Mutações, Hesse nos revela, através de seu personagem José Servo, momentos de quebra de paradigmas, mudanças radicais de vida, a partir do que ele chama “despertar”. Partindo de um simples aluno das escolas preparatórias, passando pela Elite, pelo refúgio com um eremita, pela aprendizagem com o beneditino Padre Jacobus, ou mesmo no cargo de Mestre do Jogo de Avelórios, Servo vai tomando posse do próprio desejo, da mais íntima essência, e desperta o mais profundo mistério da única certeza que temos em vida: a morte. Isso tudo em forma de bíblia, ou seja, unindo gêneros tão diversos quanto cartas, poemas, história, ensaio, ficção.

            Essa fome de realidade de José Servo/Hermann Hesse reverbera em minha vida e me faz lembrar de tantos ciclos que se abriram e se fecharam em minha trajetória, coincidentemente (ou não) de cinco em cinco anos: divórcio, fechamento da Livraria Domenico, saída da Editora Calibán, saída da UFPE após o mestrado, fim do ciclo do doutorado na PUCRS, tendo como consequências cursos de especialização Unicap/PUCRS, extensão, presenciais e on-line dos Estudos em Escrita Criativa, que encerra no próximo mês, com o lançamento do livro de coletânea de artigos e depoimentos de escritores do Brasil inteiro, uma viagem para a casa de sete (talvez oito) dos doze escritores estudados no curso on-line de 2021, e a live em 15 de dezembro em Porto Alegre com Gisela Rodriguez.            

E depois? O que farei de minha vida profissional? Não sei. Só sei que atingi aquele ponto que nosso José Servo/Hermann Hesse, de maneira brilhante e sublime feito estrela cadente, riscou o céu de um lado ao outro, foi parar no mais profundo de um lago (Lugano?), mas deixou rastros, marcas, com certeza nesta três vezes leitora apaixonada (2011, 2016, 2021) que vos escreve.

________________________________________________

Fotografias: Angeli Soares

________________________________________________

[1] Sobre O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse. Tradução: Lavínia A. Viotti e Flávio Vieira de Souza. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.    

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] A tese foi publicada na íntegra em novembro de 2019 no livro 12 horas, de Patricia Gonçalves Tenório. Apresentação: Luiz Antonio de Assis Brasil. Recife, PE: Raio de Sol, 2019.    

[4] LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização: Jovita Maria Gerheim Noronha. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

[5] LACAN, Jacques. O mito individual do neurótico. In O mito individual do neurótico.Tradução: Brigitte Cardoso e Cunha, Fernanda Bernardo, Margarida Medeiros, Tito Cardoso e Cunha. Prefácio: Tito Cardoso e Cunha. Lisboa: Assírio & Alvin. Edição 124, 1987.