O cheiro triste das bergamotas

Quando a mãe disse que andava de onda com um cara, e que ele se chamava Bebeto, logo imaginei um homem gordo. Que nem o Bud Spencer. Por causa da letra bê de Bebeto, acho.

Mas não.

Esse homem que um dia apareceu lá em casa, bigode fininho, voz arranhada por causa do cigarro e dizendo “eis o famoso Carlos”, era um magricelo. Aí, nessa hora, o homem imaginado não se encaixou no de verdade, mas por algum tipo de mágica já me fez esquecer do imaginado.

Era assim. Pronto. Era assim.

O Bebeto.

Mas por que seria famoso eu? Aí eu disse:

– Não sou famoso.

E ele:

– Ah, és… Muito famoso.

Disse isso afagando minha cabeça enquanto entrava no chalé, que é minha casa e de onde eu vi meu pai ir embora num dia calorento: saiu levando nosso carro e eu ali, sentadinho na varanda, os olhos baixos, matando formigas com os chinelos. O motor de repente desapareceu na BR e nunca mais.

Pois aqui ele chegou, o Bebeto, dizendo que eu era famoso.

***

________________________________

Abertura do primeiro conto de O amor que não sentimos e outros contos. Guilherme Azambuja Castro. Recife: Cepe, 2016.

** Guilherme Azambuja Castro (Santa Vitória do Palmar/RS, 1979) é formado em Direito e Mestre em Escrita Criativa pela PUCRS. Atualmente cursa doutorado em Escrita Criativa, também pela PUCRS. Publicou em coletâneas de contos e em revistas literárias digitais. Foi vencedor do 21º Concurso de Contos Luiz Vilela em 2011. Em 2014 foi finalista do Prêmio SESC de Literatura na categoria Contos. Foi vencedor do Prêmio CEPE de Literatura, categoria Contos, em 2015. Seu primeiro livro, O amor que não sentimos e outros contos, foi publicado pela editora CEPE em abril de 2016. Contatos: guilherme.castro.001@acad.pucrs.br