A questão da identidade do sujeito enunciador para Maingueneau (1996) está relacionada às três categorias que coincidem no enunciado que por sua vez tem uma única fonte. As três categorias são: o produtor físico, o “eu” enunciador, origem da referência dos embreantes e, um terceiro, responsável pelos “atos ilocutórios”. Ele nos aponta ainda a diferença entre “sujeito falante” e “locutor” de acordo com os conceitos de Ducrot. Segundo Ducrot (apud MAINGUENEAU), o sujeito falante” é o produtor do enunciado, resultado de um trabalho físico e mental, já o “locutor” é aquele que assume a responsabilidade pelos atos de linguagem. Segundo Maingueneau, numa narração, o autor é o “sujeito falante”, enquanto o narrador é o “locutor”, sujeito existente apenas na e pela instituição literária (1996, p. 87).

            Desta forma, o autor é o que trabalha a palavra através de um labor físico e mental. Tal conceito se aproxima do que encontramos em Roland Barthes (apud REIS & LOPES, 1988, p. 14), para ele o escritor (aqui como sinônimo de autor) é o que trabalha a palavra, obedecendo normas técnicas e artesanais.

            Michel Foucault (2000) analisa de forma mais detida a relação do texto com o autor. Para tanto, se refere a dois grandes temas relacionados a escrita: o primeiro trata da escrita como forma autônoma, “só se refere a si própria”, enquanto jogo ordenado de signos com os quais o sujeito tende a desaparecer; o segundo se refere ao parentesco da escrita com a morte. Citando as Mil e uma noites, Foucault afirma que a obra tinha o dever de conferir imortalidade, mas que a mesma “passou a ter o direito de matar”. Assim, o autor tende a desaparecer, mas sua existência é preservada pela noção de escrita, sobre a qual Foucault se pergunta se a mesma não transpõe os caracteres empíricos do autor para um anonimato transcendental.

            Acreditando que o desaparecimento do autor é um acontecimento incessante desde de Mallarmé, Foucault desenvolve o conceito de “função autor”, que é a “característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade” (2000, p. 46). Aponta quatro características dessa função: a primeira refere-se a autoria do discurso, enquanto ato bipolar (sagrado/profano, lícito/ilícito): o discurso, à medida que se tornou transgressor e seu autor passível de punição, passou a apresentar autoria; a segunda refere-se ao anonimato, que não é suportável, a não ser quando o aceitamos como enigma, configura-se como um certo apagamento da função autor; a terceira refere-se a atribuição de um discurso a um indivíduo, “resultado de uma operação complexa” (2000, p. 50) variável de acordo com “as espécies e tipos de discurso”, aqui o autor é o centro da unidade do discurso; a quarta característica refere-se aos signos (embreantes) que reenviam o texto para o autor empírico. No caso do romance, a função autor efetua-se na cisão entre o escritor real e o locutor fictício. Sobre esta característica, Foucault afirma que a função autor “não reenvia pura e simplesmente para um indivíduo real, podendo dar lugar a vários ‘eus’ em simultâneo, a várias posições-sujeitos que classes diferentes de indivíduos podem ocupar” (2000, p. 56-7).

            Para Goldman[1], duas linhas de pensamento opostas recusam a ideia do sujeito individual na noção de autor: a que o substitui por estruturas, reduzindo a um papel ou a uma função (estruturalismo não-genético) do qual, segundo ele, M. Foucault, faz parte, e a que o substitui por um sujeito trans-individual, dentro de uma dimensão histórica e cultural (estruturalismo genético) a qual Goldman defende.

            Na verdade, o grande problema deve ser ainda aquele relacionado a refração do autor dentro da instituição literária, pois o leitor empírico comum costuma apresentar uma certa dificuldade em diferenciar o autor (empírico) do narrador.

            Um pouco diferenciada dessas opiniões está a de Wayne C. Booth (citado por MORAES LEITE, 1987) que estabelece um meio termo entre autor e narrador, o autor implícito. Booth é contra o mito do desaparecimento do autor (sic), defendida por Barthes, no rastro das pesquisas de Freud, pois o autor não desaparece, ele se mascara constantemente atrás de uma personagem ou de uma voz narrativa que o representa. Na narrativa há um eterno recuo do narrador e um jogo de máscaras que se trava entre os vários níveis da narração. O autor implícito é uma imagem do autor real criada pela escrita, e é ele quem comanda os movimentos do narrador, das personagens (MORAES LEITE, 1987, p. 17-8).

            Para Tacca (1983) toda obra pertence a um autor (homo scriptor). É este quem primeiramente “dá a cara” (sic), assume a palavra. No século XVIII e em alguns autores do século XIX, foi usual o autor se exibir na narrativa com fins humorísticos [2]. A partir do século XVIII a omissão do autor no romance ocorre progressivamente. Principalmente a partir do Realismo que visava a parcialidade e a objetividade.

            Tacca acrescenta ainda que o afã de eliminar o autor correspondeu ao surgimento do recurso da transcrição. “Recurso por detrás do qual se esconde um outro afã de maior alcance e implicação estética: a despersonalização, a objetividade, a verossimilhança” (1983, p. 38). O autor-transcritor ou autor-editor é encontrado normalmente em narrativas epistolares, nas quais “o autor se apresenta como um mero ‘editor’ de uns papéis” (1983, p. 39) e também nas narrativas em que o autor as apresenta como “cópia fiel e cuidadosa”. Tacca acredita que esse recurso visa a objetividade, enquanto imparcialidade do autor, e a verossimilhança, “credibilidade do que é narrado” (p. 39). Ambas com o intuito de calcificar a ‘história’. Esta provando a realidade através de documentos e aquelas “subtraindo a figura do rapsodo”, do narrador.

             Nesta classificação do autor em relator e transcritor, Tacca apresenta (a nosso ver) uma certa confusão teórica, pois ora ele trata o autor como ser empírico, ora trata como parte de um recurso de narração, mais precisamente um tipo de narrador (grifo nosso). É certo que algumas estratégias que ele aponta são extremamente válidas para o processo de criação narrativa literária romanesca conforme a concebemos, no entanto um leitor mais desavisado poderia ficar embaralhado em meio aos conceitos apresentados.

             No que tange ao autor-editor, Carlos Reis & Ana Cristina Lopes (1988) conferem-lhe um tratamento (com base em Oscar Tacca) meramente funcional, estabelecendo inclusive uma categoria semiológica da narrativa que é o editor, delineadamente diferenciado do editor comercial. Para Reis, o editor é “um intermediário entre autor e narrador, intermediário que mantém com qualquer dos dois relações muito estreitas […], as relações do editor com o autor e com o narrador deixam perceber que, tal como acontece com o último, aquele corresponde ao exercício de uma função, no processo de comunicação narrativa” (grifo do autor – 1988, p. 30-1).

             Bakthin (1993, p. 188-9) apresenta-nos um ponto de vista singular e que, segundo acreditamos, melhor exprime a problemática do autor e do narrador:

             “O autor se realiza e realiza o seu ponto de vista não só no narrador, no seu discurso e na sua linguagem (que, num grau mais ou menos elevado, são objetivos e evidenciados), mas também no objeto da narração, e também realiza o ponto de vista do narrador. Por trás do relato do narrador nós lemos um segundo, o relato do autor sobre o que narra o narrador, e, além disso, sobre o próprio narrador. Percebemos nitidamente cada momento da narração em dois planos: no plano do narrador, na sua perspectiva expressiva e semântico-objetal, e no plano do autor que fala de modo refratado nessa narração e através dela. Nós advinhamos os acentos do autor que se encontram tanto no objeto da narração como nela própria e na representação do narrador, que se revela no seu processo. Não perceber esse segundo plano intencionalmente acentuado do autor significa não compreender a obra (grifo nosso).”

             Para Bakhtin (1993), todo o jogo dialógico existente na narrativa, como a inclusão das palavras de outrem, o discurso do narrador, as falas das personagens, correspondem a tentativa de refração do autor e de suas intenções. Na convergência com as proposições de Bakhtin, Tacca (1983) afirma que nós muitas vezes não nos damos conta da “tensão da corda” entre autor e narrador.

             Na sua Estética da criação verbal, tratando da relação entre autor e herói[3], Bakhtin (1992) afirma que, quando o autor converte seu herói em porta-voz de suas próprias ideias, o “princípio estético” não é respeitado. Partindo dessa proposição, lançamos a hipótese de que tal afirmação também valha para a relação autor/narrador, assim como uma outra afirmação de que o herói depois de criado pelo autor fica totalmente independente deste e este daquele. Assim, o narrador inscreve no romance a sua autonomia. Trata-se de uma refração do autor ao máximo possível, em nome do ethos estético a fim de que a obra possa inscrever-se dentro das imparcialidade e verossimilhança sugeridas por Tacca (1983), bem como possibilitar à obra, existência própria e autônoma.

             Acreditamos, entretanto, que deve haver um meio termo entre autor e narrador que não compromete esse ethos. Talvez como o conceito formulado por W. C. Booth de autor implícito (implied author). Renart prefere chamar de Autor inferido, para esse conceito, que

             “Consiste en la imagen del autor (o, em ciertos textos, autores) que el lector infiere del conjunto de indicios autoriales que emite el texto – o también que el lector transfiere al texto.

             Nótase que tales indícios autoriales del texto pueden pertenecer verdaderamente al autor real o a su cultura (por ej., ciertas ideas sobre la sociedad o sobre el cosmos), o pueden ser puramente imaginarios (por ej., una lucidez o una magnanimidad para juzgar al ser humano que el autor real no practica em su vida cotidiana). Y entre todo ello […] puede haber no sólo indicios que constituyan propriedades objetivas del texto, sino puede también haber elemento que el lector transfiere al texto desde su propria cultura o desde su proprio, relativo, repertorio de datos sobre la cultura em cuestión (por ej., atribuyendo al autor o autores implícitos de la  Ilíada ideas o sentimientos sobre la esclavitud que no son próprios de la cultura griega de la época de producción de esa epopeya). Todo ello, pues, interviene em la gestación de la imgen del autor o autores implícitos por el lector concreto.”

             Segundo Reis (1988), o conceito de Booth “decorre da necessidade de escapar a dois extremos”: o biografismo que remete para o autor empírico e o formalismo imanente que apreende o narrador apenas como função.

             Voltando ao pensamento de Bakhtin, o autor é “o depositário da tensão exercida pela unidade de um todo acabado”, é ainda “a consciência de uma consciência no processo de criação estética verbal” (1992). Segundo o caráter dialógico, a relação corresponde à síntese de: “um ponto a vista de um ponto de vista, uma apreciação de uma apreciação, um acento a um acento” (1993, p. 119), o narrador é a consciência da consciência do autor.

             Sob uma ótica mais relacionada à psicologia, Bakhtin (1993) rejeita a oposição sujeito-objeto e, com preocupações éticas e estéticas, tratou do processo de formação do “eu” através de três categorias: o eu-para-mim, o eu-para-os-outros e o outro-para-mim. [4]

             É também alvo de sua preocupação o “excedente de visão estética”. Para Bakhtin, toda posição de contemplação é única e singular. Por isso não há duas contemplações iguais. Dois indivíduos postos frente a frente detêm, um em relação ao outro, um excedente de visão singular, que não coincide com o excedente do outro. Somente uma justaposição de um ao outro poderia possibilitar uma visão única. Assim, o ato estético de um consiste em proporcionar o acabamento do outro, só podendo aquele sentir o que este sente em sua própria categoria (BAKHTIN, 1993).

            Esses valores, extraídos de um excedente de visão estética, que constituem a imagem do outro.

            Diante de tudo o que observamos, acreditamos que o autor, enquanto entidade física e psíquica, detentor de uma consciência no mundo, de uma criatividade estética e responsável por seus atos de linguagem, seja o detentor primeiro de um excedente de visão estética que é transposta para um “ser de papel”[5], o narrador, fonte de origem dos dêiticos narratológicos, do qual o autor, em virtude de um ethos estético, tenta esconder o rosto, camuflar a presença, omitir-se de modo refratado deixando, por vezes, certos vestígios de sua presença ou de sua voz.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance. 3 ed. São Paulo: UNESP, 1993.

___________. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Trad: Antonio Fernando Cascais e Edmundo Cordeiro. Lisboa: Vega, 2000.

MAINGUENEAU, Dominique.  Elementos de Lingüística para o Texto Literário. Trad.: Maria Augusta Bastos de Matos. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

MORAES LEITE, Lígia Chiappini. O foco narrativo. São Paulo, Ática. 1987.

REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de Teoria Narrativa. São Paulo: Ática, 1988 (Série Fundamentos)

RENART. J. Guilhermo. El narratario, lo narrante y lo narrado. [on line] In: Relaciones. [on line] Disponível na Internet via www. url: http://www.chasque.net. nº 184. Extraído em Janeiro de 2001.

___________. La polemica. [on line] In: Relaciones. [on line] Disponível na Internet via www. url: http://www.chasque.net. nº 186. Extraído em Janeiro de 2001.

TACCA, Oscar. As Vozes do Romance. Coimbra: Almedina, 1983.

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* Extraído de Riscos no barro: ensaios literários, 2009.

** Texto enviado por Abílio Pacheco (abilioescritor@uol.com.br) e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

(1) Trata-se de uma observação de Goldman apresentada durante a entrevista sobre as colocações de Foucault. Conferir O que é o autor. Foucault, Michel. Trad: Antonio Fernando Cascais e Edmundo Cordeiro. Lisboa: Vega, 2000.

(2) Este autor Tacca chama de autor-relator em oposição ao autor-transcritor.

(3) Para Mikhail Bakhtin o herói é o personagem de forma genérica.

(4) Veja o terceiro ensaio presente neste livro.

(5) Expressão cunhada por Roland Barthes.