A forma não interessa, o que interessa é a essência, é entregar-se com a força e a coragem – principalmente com a coragem – de substituir esse objeto do amor quando chegar a hora.
Lygia Fagundes Telles

Em O livro da metaficção (2010), o ensaísta, romancista, escritor de literatura infantil e juvenil Gustavo Bernardo (1955) afirma que a metaficção seria um texto no qual os mecanismos da produção literária estariam expostos claramente ao leitor, como se este estivesse em uma queda contínua sobre si mesmo, e não soubesse mais se se encontra na “vida real” ou na “ficcional”.

É o meu sentimento ao começar a leitura de Verão no aquário, da escritora paulista Lygia Fagundes Telles. E é o segundo livro postergado ao máximo o início da leitura que trago para a coluna “Mulheres que correm com os lobos” do mês de abril de 2022 no meu blog.

Confesso que a partida recente para um outro espaço da escritora que tão gentilmente autografou para mim um exemplar de Verão em 2006 fez toda a diferença. Mas por que a demora? A procrastinação para o início da leitura?

Livro com autógrafo da autora respondendo ao envio de “As joaninhas não mentem”, de minha autoria, em 2006

Sinto a mesma paralisia ao começar a escrever um texto novo: Não conseguirei. Não sou boa o suficiente. Não tenho mais nada a dizer. Então vem, sabe lá Deus de onde, uma vontade, um desejo tão insuportável que não há nada mais a ser feito do que tomar papel e caneta, teclado e tela de computador, e verter toda uma urgência pela palavra justa, aquela que me salvará por todos os tempos. Ou, ao menos, me salvará até a próxima paralisia, e a próxima insegurança, e a próxima escrita.

E essa é a história de Raíza, a personagem principal em primeira pessoa do singular da/o novela/romance de Lygia. Uma jovem, vinte e poucos anos, vida desenfreada da São Paulo pré-Revolução de 1964, tradutora esporádica, filha de uma escritora chamada… Patrícia. Sim. As coincidências não param – para quem me leu o suficiente, sabe que não acredito nelas – e Patrícia está prestes a concluir um novo livro. Acabei de escrever, no final das águas de março fechando o verão escaldante pernambucano, em uma praia do litoral sul, a novela Preta, que narra a paralisia de uma escritora que… não consegue mais escrever.

Mas voltemos para o Verão de Lygia. As técnicas são profusas. As metáforas, brilhantes. Então que elas venham e nos inundem para o melhor escrever.

Comecemos com os diálogos. O livro de Lygia, premiado com o Camões em 2005, é permeado, do início ao fim, por diálogos, quer seja de maneira direta e tradicional com o uso dos travessões, quer seja de maneira indireta, muitas vezes no mesmo parágrafo, diferenciando, por exemplo, Raíza de Patrícia com aquela falando sem aspas e esta falando entre aspas. Ou mesmo, a fala da prima de Raíza, Marfa, sempre acompanhada da expressão “compreende?”.

Outra técnica interessante usada por Lygia, são as citações na fala dos personagens. André, o quase padre e objeto de amor tanto de Raíza quanto de Patrícia, cita Rilke, Shakespeare, Bergson, Spinoza, de uma maneira tão natural que absorvemos sem grandes sustos, trazendo quem lê para mais perto de quem escreve sem pedantismo, para atingir o que mais interessa: a catarse literária.

A relação conturbada entre a filha pianista fracassada Raíza e a mãe consagrada escritora Patrícia é transformada em belíssimas metáforas, como, por exemplo, o cravo e o violoncelo. Ou mesmo, o calor daquele verão pré-ditadura, que vai nos envolvendo e sufocando até desaguarmos no título do livro:

“– Eu li num jornal que de vez em quando é bom mudar o aquário de lugar.”
Lygia Fagundes Telles

O mais importante, e que se encontra na epígrafe desta (tão) breve resenha, é se entregar de corpo, alma e coração ao que se escreve, ao que se lê, como se fossem “pessoas que nos são endereçadas como cartas”.7

E você, tão querida, saudosa e bruxa Lygia, no finalzinho do verão de 2022, foi para mim endereçada como se fosse uma bíblia inteira.

“O verão terminara.”
Lygia Fagundes Telles