Mas hoje as dúvidas vão brotando do chão em muitas cores, povoam todo o espaço até onde meus olhos enxergam e além, e eu me surpreendo achando que preciso duvidar até mesmo delas, das dúvidas, por não serem um bem que eu possa contabilizar.

Adriana Lisboa em Um beijo de Colombina, p. 15-16

A dúvida é a tônica e o centro de Um beijo de Colombina, da escritora carioca Adriana
Lisboa. Partindo de outro artigo da coluna “Mulheres que correm com os lobos”, sobre Verão no aquário, de Lygia Fagundes Telles, encontramos, nesta penúltima resenha da coluna, o mesmo conceito que Gustavo Bernardo esmiuça em O livro da metaficção: o conceito de uma história dentro de uma história dentro de uma história… Como se fossem aquelas bonecas russas, as mamuskas.

Adriana narra a história de Teresa, ou melhor, um narrador sem nome, professor de latim,
trinta e três anos, nos conta a história da ex-amante, supostamente falecida em um afogamento. Sim, Teresa nos lembra aquela de Milan Kundera em A insustentável leveza do ser. E Teresa é personagem do poeta nascido em Recife, Manuel Bandeira, e que fez parte do curso “Os mundos de dentro”, no qual investiguei as casas e as obras de doze escritores brasileiros – no decorrer do romance de Adriana, também encontraremos uma das casas de Bandeira no Rio de Janeiro.

Notamos, em Um beijo, a intersecção delicada entre as artes (literatura, poesia, artes
plásticas, cinema, música), de maneira não pedante – Adriana nos ensina como se não nos ensinasse. E vamos percorrendo os poemas de Bandeira, na tentativa do narrador de resgatar o que aconteceu nos oito meses de romance com a escritora recém-premiada, recém-desaparecida Teresa.

Percorremos as ruas da cidade maravilhosa, nos encantando com seus bairros, mesmo
desgastados, mesmo melancólicos de uma época que não volta mais. O presente e o passado se misturam de forma fluida e poética.

“E o que é mesmo isso, o amor? Uma mancha escura no sol.” (p. 24)

Percorremos a obra de Bandeira, através do narrador, através dos estudos de Teresa para
compor o próximo romance a ser escrito, um romance tão real, que eu, você, e quem mais vier, pensa que narra a nós mesmos.

“Eu abro o livro de poesia, acho os versos, quase todos cabem em mim.” (p. 24)

“Teresa me contou isso, porque o meu maior sonho também sempre fora poder realizá-lo.
E a minha grande ambição de felicidade, ser feliz sem sabê-lo.” (p. 39)

“Um resto de sol vindo de algum lugar bordava uma franja mais clara no canto da mesa.”
(p. 49)

Lembramos dos ensinamentos de Luiz Antonio de Assis Brasil em Escrever ficção e em
suas aulas de Oficinas Literárias na PUCRS: nós, escribas, não podemos mais ler de maneira inocente. Ou como afirmo em meus cursos: devemos ler observando as técnicas de Escrita Criativa nos próprios textos de ficção e poesia. Por exemplo:

“Tereza bebendo uísque. (…) Teresa bebendo cerveja. (…) Teresa bebendo vodka. (…)
Teresa vomitando no banheiro (…).” (p. 15)

Adriana não diz, mostra. Da mesma forma que, através da repetição, vai construindo e
nos pintando a imagem de um raio de sol.

“A poça d’água estava dourada. A poça d’água era dourada.” (p. 100)

A construção do romance dentro do romance permeia todo o livro, em especial, no último
e surpreendente capítulo, intitulado “Unidade”, quando Teresa/Adriana apresenta a escrita do próprio Um beijo de Colombina. A necessidade premente da criação, vai nos convidando a também necessitar, de letras, palavras, páginas que deem sentido a uma vida muitas vezes desnorteada.

“Quando comecei a me fingir de escritor diante do computador de Teresa, tive a nítida impressão de que ela não ia me querer como personagem. Quase podia ouvi-la dizer escolha as suas armas, rabisque um sim nesta droga desta vida, com as unhas, de arrancar sangue. (…) Se espremerem o seu texto, caro personagem autor, sei lá se vai sair sangue, perfume ou água mineral. Nada disso importa. Só te peço uma coisa: diga sim, caramba!” (p. 83)


E a dúvida, a mesma dúvida que abre a presente resenha e permeia o livro inteiro, se
parece com o nascimento do mito de André Jolles em Formas simples: na coincidência do instante em que a pergunta é formulada e a resposta realizada, quando ter “todas as dúvidas” é, “na verdade, ter uma certeza” (p. 112)

Então, perguntemos, escrevamos, até atingirmos a partícula da nossa essência e
aliviarmos, e descansarmos para o próximo vazio, a próxima angústia. A próxima escrita.