Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

(Mateus 7)

Na mesma linha das Mulheres que (escrevem) correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés e que apliquei ao livro de uma escritora brasileira contemporânea (não tão) iniciante (assim), Lauren, de Irka Barrios, travo uma relação com outro livro de uma escritora contemporânea, mas norte-americana, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1938, Pearl S. Buck, Pavilhão de mulheres.

O livro narra a história de Madame Wu, nobre matriarca de uma família chinesa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Aos quarenta anos, Wu decide renunciar à parte sexual do casamento, para se dedicar ao maior sonho do ser humano: a liberdade.

“Quando ela assim pensava, a angústia vaga se dissipava, sentia-se relaxada e calma. Sentia-se, na verdade, restaurada, quase como fora na juventude. Seria estranho e agradável deitar à noite e saber que poderia dormir até de manhã. Ou, se estivesse insone, poderia permanecer acordada, sem o temor de despertar outra pessoa. Seu corpo lhe fora devolvido.”

A liberdade para criar, para se transformar no que a personagem principal do livro de Pearl almejava desde a juventude, dedicando-se somente ao cultivo da alma, para se transformar em quem realmente é. Mas existe um preço a ser pago. Um preço muito alto, é verdade.

“– Isto é, sou perfeitamente feliz, a não ser pelo fato de precisar de mais conhecimento. Mas não sei exatamente de que tipo.

– Talvez não seja tanto conhecimento, e sim mais compreensão do que já sabe.”

Madame Wu, além da concubina Ch’iuming para o marido, contrata Irmão André (Willem Defoe na adaptação para o cinema) para instruir a mente de seu terceiro filho, Fengmo, e prepará-lo para se casar com a jovem moderna e ousada Linyi. Mas Madame Wu termina instruindo e libertando a si mesma. Termina se apaixonando pela própria alma (gêmea) que é Irmão André.

Por que um livro nos fala mais do que outros? Por que a saga de uma personagem principal nos parece tão semelhante à nossa própria vida? Porque eu também fugi de um casamento arrumando uma outra pessoa para o pai dos meus filhos se apaixonar. Porque busquei nos estudos, na leitura, na escrita, a liberdade que a minha alma tanto necessitava e me apaixonei por mim mesma.

“Deixarei esta casa assim que estiver livre”, pensou Madame Wu. “E subirei, até saber de que são feitas as estrelas.”

O preço é muito alto para se pagar, como disse antes, como Pearl me revelou e eu identifiquei nas entranhas mais profundas do meu ser. Meus filhos, assim como os de Madame Wu, pagaram o preço alto de não crescerem com o pai. O que os marcou profundamente para a vida inteira.

“Assim, todos os dias ela se sentava na cadeira mais alta na biblioteca, com a bengala de cabeça de dragão que mantinha entre as mãos, agora que a Velha Senhora morrera. Escutava tudo que Irmão André ensinava a Linyi. Mas enquanto a moça avançava penosamente, a contragosto, pelo caminho mais difícil do aprendizado, a mente de Madame Wu voava na frente e se embrenhava por uma centena de veredas de espanto.”

O que é certo? O que é errado? Só o tempo dirá. Ou mesmo a sentença de um processo, divisor de águas de uma pequena vida, e que pode ajudar essa pequena vida a trilhar veredas puras de espanto, bem-aventurança de justiça, como já profetizou e escreveu Mateus, em seu Evangelho, na epígrafe deste breve texto.

“Uma vida

Se ganha

No dia-a-dia

Se sonha

No canto

Mais profundo

De um ser

Onde

Se faz justiça

Bem

No centro

Dos meus

Olhos

Para sempre

E para sempre

Amém”