“Era isso que eu estava procurando e não sabia.”
(Ana Maria Machado em Para sempre, p. 9)

O amor começa? O amor acaba? Estas são as perguntas essenciais que a escritora carioca,
vencedora da Medalha Andersen em 2000, Ana Maria Machado, tenta nos responder em Para sempre: amor e tempo (Rio de Janeiro: Record, 2001 – Coleção Amores extremos).

Conhecida por seus livros infantojuvenis, Ana nos brinda nessa ficção com rastros das
profissões que exerceu grande parte da vida e que abandonou para se dedicar exclusivamente à literatura: professora e jornalista. Através do alter ego de Antônia, professora de ensino médio, vamos percorrendo a temática do amor eterno pelos tempos e constatando o que todos sabem, mas não querem admitir:

– Sim, o amor é eterno enquanto dura, feito dizia Vinicius (de Moraes), visto começar
algum dia e terminar, ou com a morte, ou com a separação dos amantes.
Mas Ana, além de não nos deixar sós, sem esperança em um amor que ultrapasse
fronteiras de tempo e espaço, nos brinda com lições de Escrita Criativa. E das boas.

Comecemos pelas fronteiras literárias.


“Pode chamar de amor eterno.
Com muito mais frequência em poemas, novelas e romances do que em ensaios. E
isto não é um ensaio. A rigor, também não é uma novela. Mas numa época que vem
abolindo cada vez mais as distinções entre os gêneros masculino e feminino, também
é natural que as fronteiras entre os gêneros literários deixem de existir. Chamemos,
portanto, de amor eterno.”

(Ana Maria Machado em Para sempre, p. 7)

Navegando por referências literárias, musicais, mitológicas, e notícias de época, Ana nos
ensina a amar, de inúmeras formas, sem medo do amanhã e da inevitável partida, do objeto de amor, da vida. Somos brindados com Fernando Pessoa e “Todas as cartas de amor são ridículas”,

Shakespeare e seu “Romeu e Julieta”, canções de John Lennon e Paul McCartney, Carlos Drummond de Andrade e a “Balada do amor através das idades” … em uma intertextualidade sem fim, em uma relação da literatura com outras artes, outras áreas de conhecimento, a intersemiose oferecida pelo mundo imagético e sem fronteiras de conteúdo e sentimentos que é a contemporaneidade.

Outra técnica apuradíssima é a da simultaneidade. Lá para as tantas, feito popularmente
falamos, Ana para a narrativa do início do romance entre Antônia e Daniel – os personagens
exercendo duas das profissões de Ana, magistério e jornalismo –, a autora entremeia o “Enquanto isso” das histórias em quadrinhos, com a narrativa sobre Zezé, a empregada doméstica que trabalha para a família de Antônia.

“Pode vir inserida no canto esquerdo superior do novo quadrinho, ou mostrada como
uma espécie de tabuleta retangular na vertical, entre duas molduras distintas com
cenários diferentes. Serve para indicar um corte que ao mesmo tempo é a retomada
de um tempo anterior, que já foi narrado para aquela linha de acontecimentos e agora
volta, mas mudando o foco e lançando luz sobre o que se passa em outro cenário”.

(Ana Maria Machado em Para sempre, p. 54)

Utilizando os recursos de flashback e flash-foward, Ana Maria vai tecendo uma delicada
narrativa em costura, com direito, inclusive, à escritura de um livro dentro de um livro (sobre os pais de Antônia), como se fossem aquelas bonecas russas, as mamuskas, e que tanto gosto de mencionar nos cursos on-line e presenciais de Escrita Criativa. E mais: isso tudo Ana faz em forma de diálogo.

“– Então por que se separaram?
– Bom, é até difícil entender. Sabe que às vezes eu mesmo me pergunto isso e não
sei responder? Acho que foi porque a gente não sabe lidar com essas situações, nunca
ninguém nos ensinou, e então faz bobagem. Aliás, é só por essa razão que estou lhe
contando tudo isso. Porque você me disse que vai trocar nossos nomes e contar tudo
num livro, e que assim talvez possa ajudar outras pessoas”.

(Ana Maria Machado em Para sempre, p. 93)

E, nós, escribas, vamos lendo, vamos escrevendo, até que, de repente, surgem palavras
cintilantes que valem por um livro inteiro, para o tempo, congela o espaço…

“Ciúme e saudade não são mortais”

(Ana Maria Machado em Para sempre, p. 119)

… e lembramos do início desta breve resenha, do começo ou do fim do amor, que está,
inexoravelmente, ligado ao tempo, à incapacidade de capturar, cercear de liberdade o tempo, ou como dizia Santo Agostinho, bispo de Hipona, nas suas Confissões:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá
apreendê-lo, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o
seu conceito? […] Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me
fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação,
que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e, se agora nada houvesse, não
existia o tempo presente”.

(Santo Agostinho em Confissões, p. 274)

Então que o amor de Antônia e Daniel, Nelson e Suzana, Zezé e Ewerton, Manuela e Bruno,
você, eu, seja eterno enquanto dure o tempo, aquela fração de segundo quando a canção de Vinícius arranha nossa garganta, ecoa pelas cordas vocais, e emitimos a nota musical de surpresa:

– Era isso que eu estava procurando e não sabia!