Estou com medo de ficar de mãos vazias, depois de me revelar. Tenho dúvidas quanto ao conteúdo do livro, e se vai ser entendido pelos leitores. Mas não.

A frase acima foi proferida pela escritora, atriz e diretora de cinema norueguesa Liv Ullmann em seu livro autobiográfico Mutações (1976). Ullmann nos presenteia com técnicas literárias refinadíssimas na primeira das duas autobiografias que escreveu (a segunda é Opções (1985)). Logo no início do livro encontramos repetições – o famoso refrão de Edgar Alan Poe em “A filosofia da composição”[5]:

Houve alguém que, certa vez, subiu um lance de escadas, carregando-me, e me depôs, cuidadosamente, numa cama. Minha cabeça repousava na concavidade do seu pescoço.
Deve ter sido papai.
Um homem caminhando comigo por uma estrada rural. Ele era alto e usava casaco de couro marrom e nada dizia, mas, apertando nossas mãos, fazíamos sinais secretos um para o outro.
Deve ter sido papai, também.

… as frases sem verbo, como se fossem manchetes de jornal:

A caminhada de volta para a escola. As meninas amontoavam-se ao longo de um velho muro de tijolos. Árvores altas nos permitiam fantasiar que vivíamos num castelo encantado, do qual talvez ninguém jamais viesse libertar-nos. […]

A primeira anêmona azul. Uma encosta de repente coberta de cores, onde na véspera víamos apenas grama. Escalar até o topo e lá sentar, escondida do resto do mundo, mas me sentindo uma jubilosa parte dele.[7]

… ou colocar a narradora em terceira pessoa do singular, para se afastar mais de si mesma e poder escrever melhor:

É uma curta história de amor, que se parece com tantas outras.
Durou cinco anos.
Depois de viver com ele durante alguns anos, ela começou a observá-lo. Ficava
sentada, em silêncio, e o experimentava como um indivíduo.[8]

Mas o que Liv Ullmann em Mutações, ao menos para mim, ensina, é procurar uma voz
própria, individual, única, da mesma forma que tentei ensinar para meus alunos dos cursos de Estudos em Escrita Criativa, desde 2016: “Tudo já foi escrito, mas não sob o nosso olhar, não sob nossa bagagem de mundo, de leitura”.

São esses meus pensamentos enquanto tento escrever como é bom ter uma vida que dá tanta liberdade, permite tantas escolhas.

“Posso ser livre por vontade própria, ser meu próprio criador e guia. Meu amadurecimento e meu desenvolvimento dependem do que escolho ou rejeito na vida. Estão em mim as sementes de minha vida futura”.9

É este o ponto de intersecção (ou de mutação)[10] de Liv Ullmann com Patricia (Gonçalves) Tenório. Ullmann me recorda a dificuldade no início de minha carreira literária. A dificuldade (dela) de se impor, mesmo sendo bela, inteligente e casada com o diretor de gênio que foi Ingmar Bergman. A dificuldade em encontrar, na minha cidade (na qual nasci e escolhi morar saindo aos 17 anos de Maceió), lugar ao sol no meio literário, meio blindado em algumas cartas marcadas, sem ou com pouco espaço para abrir as asas e alçar o próprio voo.

Mamãe, minha boca está cheia de beijos.”[11]

Utilizando-se de imagens altamente poéticas, Liv vai nos ensinando que, vestir a pele dos personagens no teatro, no cinema, é também uma forma de vestir, de dentro para fora, a si mesma, e descobrir o caminho próprio, e encontrar a bagagem que nos pertence, e olhar o mundo como se fosse a primeira vez de quem escreve.

Escrevo um papel, um personagem. Tento dizer tudo que sei a seu respeito no palco.
Naquele momento, a atriz está próxima do autor. O que eu faço no palco não pode
ser baseado apenas em meus sentimentos, pois assim eu posso estar fantasticamente
bem uma noite, mas como tudo era minha emoção, não saberei o que me fez rir e
chorar e não conseguiria reproduzir isso no próprio desempenho.12


[1] Sobre Mutações. Liv Ullmann. Tradução: Sonia Coutinho. 10ª edição. Rio de Janeiro, RJ: Editorial Nórdica, (1976 in) 1978.

[2] Escritora, vinte e dois livros publicados, entre eles, Rio a quatro mãos (2021), novela policial escrita com Adriano Portela, e As filhas do adeus (2021), contos-crônicas sobre mulheres especiais em sua vida. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS) e ministrante dos Estudos em Escrita Criativa. Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] ULLMANN, Liv, Op. cit., (1976 in) 1978, p. 50.

[4] Em 2020, durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19, lancei, com Poemas de cárcere e a novela Setembro, a não ficção Exílio ou Diário depois do fim do mundo, Recife, PE: Editora Raio de Sol, na Coleção Quarentena.

[5] Em “A filosofia da composição”, in Poemas e ensaios, tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, revisão e notas de Carmen Vera Cirne Lima, 3ª ed. revista, São Paulo: Globo, 1999, Edgar Allan Poe nos ensina, no seu poema mais conhecido “O corvo”, de maneira premeditada, a utilizar um refrão (“Never more”), para quem escreve ir aumentando a intensidade do poema até quem lê chegar ao clímax e atingir a catarse.

[6] ULLMANN, Liv, Op. cit., (1976 in) 1978, p. 18, sublinhado nosso.

[11] ULLMANN, Liv, Op. cit., (1976 in) 1978, p. 47.