Voltaríamos com descobertas, nem que isso nos custasse a vida.
(Irka Barrios em “Verão de 85” em Júpiter Marte Saturno, p. 27)

Chegamos ao final da coluna “Mulheres que correm com os lobos”. E chegamos com
nada mais nada menos que o segundo livro, desta vez contendo quatorze contos, de Irka Barrios, Júpiter Marte Saturno, 2022 (Ed.Uboro Lopes, 2022).

Abrimos esta coluna que homenageia escritoras contemporâneas do Brasil e do mundo
com o primeiro livro, o romance Lauren, e notamos que o insólito perpassa a escrita de Irka/Bibiana, a começar pelo próprio nome. Então permitam-me colocá-las no plural. Elas vieram para nos desestabilizar, para nos retirar do centro, da zona de conforto, para repensarmos a literatura, e para sacarmos do próprio texto técnicas que podem ser apreendidas por leitores não mais inocentes que somos nós escribas.

Elas nos ensinam a escrever de maneira circular, começando com “O coelho branco” e
terminando com uma referência ao mesmo coelho, à mesma Alice, no conto que dá nome ao livro “Júpiter Marte Saturno”. Ensinam-nos a passar “o resto da tarde” de um domingo, quando escrevo esta resenha, “conversando sem palavras” (p. 21) com os amigos salvadores de nós mesmos e do mundo absurdo que vivemos que são os livros, em “Damião sob a pirâmide”.

Recordam-nos de um conto inquietante que as (Irka/Bibiana) escutamos ler em alguma
disciplina de criação literária da Pós-graduação em Escrita Criativa da PUCRS em 2018, “Verão de 85”, e que abre a presente resenha. Lembram-nos, exercendo o que apreendemos no mestrado em Teoria da Literatura da UFPE, a fazermos literatura comparada entre o conto “Drosophila” e “Um mundo de moscas”, no livro O homem despedaçado do também querido colega e amigo gaúcho Gustavo Melo Czekster.

Fazem criaturas gosmentas rastejarem por nossos corpos, por dentro e por fora em “O
bicho”, “Parte de dentro” e “Flores domesticadas”, e nos perguntarmos se existe (ainda) alguma
certeza no mundo. Escondem o gênero e a idade dos personagens nos detalhes das palavras, às vezes nos vocativos, outras vezes nas concordâncias nominais, em, por exemplo, “Horizonte alaranjado” e no próprio “Júpiter Marte Saturno”.

Mas o que nos assusta, nos assombra mesmo, no melhor sentido que essas palavras podem
conter, é a mudança de paradigma que somente a boa literatura nos dá quando lemos, experimentamos, degustamos a narrativa preciosamente (e genialmente) escrita de “Conceito comida semelhante” que, assim como a personagem Guilhermina provoca em sua amiga (que não tem nome, todos os personagens narradores do livro não os têm), eu, Irka e Bibiana deixamos para quem nos lê, nesta última e fantástica resenha da coluna das “Mulheres que correm com os lobos”, o sabor do impacto desconcertante da descoberta, nem que isso nos custe a vida, como toda literatura salvadora deveria ser.