Enfiou a serpente na agulha. E começou a costurar.

Marina Colasanti

Ela sai de casa pela primeira após a cirurgia que a impedirá de ter mais filhos. Vai ao Café Christal e senta-se em uma das duas cadeiras da mesa pequena, próxima ao palco, onde acontecerá o show de jazz.

Olha no cardápio, pede um cappuccino e um tost de mussarela de búfala, pesto e tomate cereja. Terminaria de ler o livro da escritora nascida na Eritréia, Itália, e vinda para o Brasil em 1948, Marina Colasanti: Hora de alimentar serpentes (Editora Global, 2013).

Com 207 contos, incluindo o Prólogo, de tamanhos variados – de uma frase a três páginas –, Marina a ensina técnicas refinadíssimas de Escrita Criativa, sem precisar sair do próprio livro, sem precisar fugir da ficção para descobrir a teoria.

Parece que Marina constrói os contos sobre cinco pilares:

  1. 13 histórias de insônia, com lobos, carneirinhos pulando cerca e o sonhador;
  2. 8 histórias através do tempo – fatos reais ou mitos;
  3. Aforismos;
  4. Fábulas;
  5. Roteiros para filmes, peças de teatro ou HQ.

O pianista olha para ela, balança a cabeça e ri. Falei alto? – ela se pergunta. Sim, devo ter falado. Mas não se importa, volta à terceira pessoa do singular, retira os travessões do início das falas e continua investigando a escrita de Marina.

Ela não dá nome aos personagens, com exceção às referências históricas e mitológicas – dessa vez procura costurar os lábios com fios de silêncio para não provocar nova risada do pianista de jazz. Onde estava com a cabeça para vir justamente para ali, lugar onde se encontrara tantas vezes com o ex-namorado e ficavam horas e horas apreciando vinhos, queijos e jazz? Mas, agora, era ela e Marina apenas, e o olhar desconfiado do pianista pedindo perdão.

Sim, porque ele atrapalhou a primeira faísca de escrita de um conto, após tantos meses de aridez, tantos dias sem conseguir escrever ao menos uma frase ficcional em forma de histórias curtas, e que Marina, sim, Marina havia a provocado escritura, e daquelas do tipo mananciais e altamente poéticas, como, por exemplo:

“Bateu sua juventude contra as pedras como as lavadeiras no rio batem suas roupas.”

Ou mesmo:

“Só a existência de portos justifica os navios.”

Ou ainda:

“Os olhos que do espelho a encaram nada conseguem ver do tanto que está contido atrás dos olhos.”

Mas de onde viria aquela estranheza na leitura de Hora de alimentar serpentes, a sensação de que tudo pode acontecer na última palavra? Ela se perguntou e se lembrou do Unheimlich de Sigmund Freud4 quando, ao analisar o conto do escritor alemão E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816), afirma a mesma estranheza que ela sentia na leitura dos contos de Marina, como se os textos pudessem ocupar dois lugares ao mesmo tempo: realidade e ficção.

Termina de ler o livro de Marina Colasanti como sempre acontece na leitura dos textos bons: alongando ao máximo possível as últimas páginas. Mas tudo termina para tudo poder começar: o namoro, a leitura do livro, o show de jazz, a agonia por estar desacostumada a sair, a vontade incomensurável de pedir a conta, se levantar, ir para casa e desaguar rios de palavra escrita após a leitura das quatrocentas e quarenta e cinco páginas de Hora de alimentar serpentes, apesar

do show de jazz haver começado e bem, apesar do pianista olhar assustado em sua direção, apesar do saxofonista solfejar os primeiros acordes de Your Latest Trick, do Dire Straits.