“Será que envelhecer é abrir mão de toda a cor?
Alexandra Lopes da Cunha

Na coluna de abril de 2022, Mulheres que correm com os lobos, deste blog, apresento a procrastinação para o início da leitura e também da escrita de dois livros monstruosos: Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf e Verão no aquário, de Lígia Fagundes Telles. Demorei quinze anos para ler por inteiro esses dois livros basilares na literatura mundial e brasileira.

Em maio de 2022, volto-me para o livro da escritora gaúcho-portuguesa – sim, ela habita hoje em dia além-mares – Alexandra Lopes da Cunha, seu primeiro romance Demorei a gostar da Elis.

Conheci Alexandra (Lopes da Cunha) ao mesmo tempo que (o apresentador do romance) Gustavo (Melo Czekster), em 2016, nos intervalos das aulas do professor Luiz Antonio de Assis Brasil, na disciplina Oficina de Narrativa – Romance, no doutorado em Escrita Criativa da PUCRS, que eu (ainda) assistia como ouvinte. Mas o que eu não sabia, ao sair do lançamento do seu primeiro romance, era o quanto de mim Alexandra adivinhava, e Alexandra nos preparava ao mesmo tempo para o que iria vir. Mas vamos por partes.

No romance de Alexandra, uma fisioterapeuta de nome Libertad Dias da Costa conhece um desenhista de histórias em quadrinhos José Brasil Bataglia Vergueiro no hospital após o pai deste sofrer um AVC. Alternando primeira e terceira pessoas do singular e nomeando a cada vez que mudava a voz narrativa dos personagens para que não nos perdêssemos na leitura, Alexandra vai nos guiando pelos caminhos sombrios da memória, pelas passagens árduas da doença, o que não nos preparamos, ao mesmo tempo que nossa única certeza, desde que desembarcamos nessa paragem provisória chamada vida: a morte.

E nos guia com palavras fortes, com reflexões duras, com os pés no chão. Mas não deixamos de nos embevecer com frases altamente poéticas, tais como:

“O que somos na essência é o que nos define, pensava.”

Ou mesmo:

“Qualquer caixa que permanece fechada durante muito tempo tem algo de assustador, pensou Libertad (…).”

Mas quais os motivos da minha procrastinação para o início da leitura de Demorei a gostar da Elis somente quase cinco anos após o seu lançamento na Porto Alegre de Alexandra, Gustavo, e, por que não, eu? O primeiro motivo é a semelhança da história de Libertad com a minha: mãe precoce, realização profissional tardia, dificuldade nos relacionamentos amorosos. A própria Alexandra se narra no primeiro romance, ao admitir que Libertad possuía dificuldade para as pessoas pronunciarem seu nome – Alexandra também possuía.

Talvez Alexandra tenha impresso no seu romance de estreia a base do conceito de Figura que o filólogo alemão Erich Auerbach tomou emprestado dos primeiros Padres da Igreja Cristã quando estes, usando figuras do Antigo Testamento, tais como Elias, Josué, Davi, Moisés, prefiguravam o preenchimento completo com a vinda do Cristo no Novo Testamento. Em Mimesis, Auerbach aplica o conceito de Figura em textos basilares da literatura universal, de Homero a Virgínia Woolf, um texto apontando e prefigurando o outro, até chegar ao romance moderno com O farol.

Porque Alexandra me adivinhou, adivinhou acontecimentos na própria vida, e foi além: na do planeta, com o imaginário do personagem de José Brasil Bataglia, o Garoto-Ouriço, indo curar a ferida original na cidade de nascença tomada por um vírus letal que atingiu todo o planeta – três anos após o lançamento do livro de Alexandra nos acontece a Covid-19.