“Me busco em músicas que dão ritmo ao que sinto de forma silenciosa, e me busco em trechos de livros que revelam ideias que mantenho ainda embaralhadas.”

(Martha Medeiros, Coisas da vida, p.41)

Na outra resenha do mês de março da coluna “Mulheres que correm com os lobos”, analisei Mutações, de Liv Ullmann, livro que terminei de ler quando ainda estava em um sítio em Alagoas com a nossa cachorrinha labrador Preta e, então, adivinhava seu fim próximo no texto ficcional “Preta pretinha”. Era 26 de fevereiro de 2022, Pretinha nos deixou em 06 de março de 2022, após cinco meses de tratamento de câncer em casa e oito dias dolorosos – principalmente para ela –, em um hospital veterinário.

Tudo perde o sentido, especialmente para quem não era nem tão apaixonada assim por
animais. E se procura um álibi, e se descobre uma fuga, e se busca a si mesma na leitura do livro da escritora gaúcha Martha Medeiros, Coisas da vida, que eu havia guardado nas estantes da minha biblioteca por quase quinze anos.

Ao iniciar a leitura do livro de Martha – ela que eu conhecia dos poemas eróticos –, me transporto para os meus trinta anos, fase que penso ter sido a mais livre de minha vida. Recém-divorciada, recém-fechada uma livraria, eu buscava um caminho que me trouxe até aqui, escrevendo esta breve resenha, em um domingo à noite, quando terminei de ler as quase duzentos e quarenta páginas do livro de crônicas que Martha publicou nos jornais Zero Hora e O Globo, de setembro de 2003 a setembro de 2005.

Como se fosse uma amiga de longas datas, Martha me empresta o ombro para chorar a
morte de Pretinha, entende a preocupação com meus filhos jovens-adultos procurando um caminho profissional e pessoal, eu que também ainda procuro, às vezes canso, mas a palavra está sempre lá, me esperando por trás de escritoras-amigas feito Martha Medeiros e seus conselhos filosóficos-literários.

“Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim.”

(Martha Medeiros, Coisas da vida, p.52)

Martha cita filmes, livros, notícias de jornal e vai nos ajudando a atravessar os obstáculos da vida, a receber as pancadas da vida que nos deixam anestesiadas no momento em que acontecem, mas que precisamos ser frias e aliviar o sofrimento da cachorrinha de seus filhos, ligar para o crematório, pagar as contas do hospital veterinário, conter as lágrimas. Suportar a dor.

“‘A surpresa é o melhor analgésico’, já escrevia V. S. Naipaul no livro Uma casa para o Sr. Biswas. Na hora do susto, quando a pancada vem, não se sente dor alguma. O choque anestesia a brutalidade do gesto.”

(Martha Medeiros, Coisas da vida, p.77)

Viajamos no tempo com Medeiros, descobrimos a beleza nos mínimos detalhes com Martha, reaprendemos a sorrir apesar da filha em prantos, nos surpreendemos com o outro que nos habita e toma as rédeas de nossa vida nos momentos menos esperados.

“Na cama de um hospital, há em nós alguém saudável. Ao vencermos um campeonato, há em nós um fracassado. Apaixonados, há em nós um cético. Ao saltar de paraquedas, há em nós alguém que teme. No êxtase, há em nós um melancólico. Ao nos desresponsabilizarmos sobre nosso destino, outro lá dentro de nós assume a direção. Não estamos sós.”

(Martha Medeiros, Coisas da vida, p.111)

É exatamente ao sentimento de não estarmos sós que Martha nos convida (e nos convoca)
para sairmos ao mundo, nos expormos, sentirmos todas as dores, sem medos, vergonhas, pudores, pois assim estamos vivas, então estamos lúcidas.

Ora, toda vez que estou com a cabeça emaranhada de pensamentos inúteis, que estou
encardida mentalmente, que estou com dificuldade de clarear as ideias. Nessas horas,
pego esponja e detergente e começo a lavar todos os copos e pratos empilhados na
bancada da cozinha, e de repente é como se eu desaguasse ralo abaixo todas as
minhas dúvidas e inquietações. Lavo louça e vou lavando junto os neurônios.


(Martha Medeiros, Coisas da vida, p.199-200)

Lavo louça, saio à caça, de mundo, pessoas, sorrisos, histórias. Tudo o que faz uma pessoa
que escreve e transforma em arte o mais simples dia a dia, e empresta encanto à mais simples palavra, porque, esta sim, é a mais pura companheira, aquela que lhe entende na alegria e na tristeza, dá sentido à vida, alivia a dor das perdas, nos faz felizes.

Desaprendi
A escrever
Estrelas
Como se
Desaprende
A mergulhar
No mar
Beber cachoeiras
Fazer nuvens
De algodão
No céu azul
Fininho, fininho
Que posso ver
Os anjos de
Nossas vidas
A nos cuidar
A nos curar
A nos amar

(“Hoje eu vi anjos”, Patricia Gonçalves Tenório, 13/03/2022, 07h27)