Na maioria das vezes, contamos histórias quando somos convocadas por elas, não ao contrário.
(Clarissa Pinkola Estés)

Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022. 21h30. A chuva começou por volta das 19h30. Mas aqui em Boa Viagem, bairro praieiro de Recife, somente às 21h30 me atingiu. E atingiu como um raio, com trovões, chuva intensa, e vento de 30 a 60 quilômetros por hora. Eu segurava a tampa de madeira da caixa do ar-condicionado para não voar pelo meu quarto e destruir o santuário que eu habito desde a última segunda-feira, 24 de janeiro, quando descobri estar com Covid.

Foram dois anos de luta, como escrevi no poema “Oh, Ômicron!” e a Covid me venceu. Mas eu não estava só. Além das mensagens carinhosas de amigos e amigas, alunos e alunas, estava lendo pela terceira vez as 570 páginas de Mulheres que correm com os lobos, da psicóloga junguiana, poeta e escritora norte-americana, nascida em 27 de janeiro de 1945, Indiana, Clarissa Pinkola Estés.

 As coincidências não param por aí (e eu não acredito em coincidências). Em 29 de janeiro de 2016, um vendaval parecido com o da noite passada, porém mais intenso, atingiu o país inteiro, de Recife a Porto Alegre, a cidade aonde me dirigia para cursar como ouvinte/aluna especial o doutorado em Escrita Criativa da PUCRS, sob a orientação do queridíssimo Prof. Luiz Antonio de Assis Brasil.

Havia sido desclassificada na seleção de projeto no doutorado da UFPE, mesmo tendo nota máxima na prova de conhecimentos. Como disse antes, não acredito em coincidências, e Clarissa confirma a minha teoria. Era preciso uma perda grande para que o ciclo de vida-morte-vida da Mulher Selvagem viesse ao centro de minha vida e o Río Abajo Río da criação fluísse intensamente pelo meu sangue, redirecionando os próximos passos.

Em dezembro de 2021, encerrei um ciclo grandioso que iniciou no final de 2011, ano que terminei a segunda leitura do Mulheres e estava redirecionando a vida com a saída tumultuada da editora Calibán, o pedido para ser aluna ouvinte em 2012 da (também) queridíssima Profa. Maria do Carmo Nino na Pós-graduação em Letras da UFPE e um mundo inteiro de conhecimentos novos pela frente, eu que era Analista de Sistemas de Computação, formada pela Unicap (1991).

Em dezembro de 2021, encerrei um ciclo grandioso, com a conclusão do curso on-line “Os mundos de dentro” dos Estudos em Escrita Criativa, a passagem para Adriano Portela da coordenação da especialização em Escrita Criativa Unicap/PUCRS trazida por mim de Porto Alegre para Recife, vinte e dois livros publicados, inclusive um que foi lançado silenciosamente aqui no blog, As filhas do adeus, e que realço no próximo post alguns contos-crônicas.

Clarissa nos ensina a arte de escutar os ciclos internos de vida-morte-vida para bem criar. A arte de nos protegermos dos predadores da psique que tentam impedir a intuição reger o centro de nossas vidas; a arte de direcionar a raiva para os momentos certos, de virada de ciclo; a arte de nos irmanarmos, mulheres de todos os tempos, e descobrirmos que as histórias nos convocam, feito avisa a epígrafe deste breve artigo, e nos curam, e nos fazem alcançar todos os estágios da jornada da heroína de Maureen Murdock *, e atravessarmos o tênue portal que a psiquiatra alagoana (também junguiana) Nise da Silveira nos presenteava na entrada do Museu do Inconsciente, Hospital Pedro II, Rio de Janeiro:

“O louco é aquele que vai e não volta. O artista é aquele que vai e volta.”

Então vou. Preparo-me para um novo mergulho em meu ser. Uma nova busca por palavras essenciais, histórias que me/nos curam. De Covid. De Egoísmo Profundo. De Vazio na Criação. E, em breve, trarei novidades que começam a ser esboçadas com Adriano Portela, Jaíne Cintra, Juliana Aragão, Mariana Guerra. Aguardem. Mergulhem. Corram com suas próprias lobas.

Após dois anos

De luta

A Covid me pegou

E ninguém me

Perguntou

O motivo de estar

O cuidado com o

Irmão-Outro

Que não precisa ser

O de sangue

Mas que forma

O mesmo elo

O carinho com

O mundo inteiro

Que primeiro

Me criou

E nem me perguntou

O motivo de estar

(“Oh, Ômicron!”, Patricia Gonçalves Tenório, 26/01/2022, 02h41)

* Sobre a jornada da heroína de Maureen Murdoc, leiam “As histórias que (não) nos contam”, de María Elena Morán Atencio, em Sobre a escrita criativa, Diversos autores, Organização Patricia Gonçalves Tenório, Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil, Recife-PE, Raio de Sol, 2017, p. 180-194.