Patricia Tenório*

03/03/13

            Antonio Russi, em L´Arte e le Arti,[1] a partir da suposição de que “nas experiências normais, cada sentido contém, através do veículo da memória, todos os outros sentidos”, afirma que “em cada arte, por via da memória, todas as outras artes estão contidas”.

            Se aplicarmos essa equação estética de Russi no movimento artístico denominado modernismo, em especial, no modernismo brasileiro, encontraremos diversos pontos de convergência entre os artistas de diferentes áreas de expressão.

            Tendo como ápice de nascimento e divulgação a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, e como grupo fundador Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfaltti e Menotti Del Picchia (o Grupo dos Cinco), o modernismo brasileiro acolheu, abraçou e divulgou diversos artistas, brasileiros ou estrangeiros radicados no Brasil, ao mesmo tempo em que “omitiu” tantos outros. 

            Vejamos o caso de Cícero Dias (1907-2003) e Vicente do Rego Monteiro (1899-1970). Ambos pernambucanos. Ambos modernistas. Ambos residem na Paris da Belle Époque, a Paris de Hemingway, e Fitzgerald, e Picasso, e Modigliani. A Paris dos estrangeiros em que o que se quer é “que cada um traga contribuição do seu próprio país”.[2] Mas qual a razão desses dois artistas brasileiro-pernambucanos não haverem sido tão reconhecidos nacional e internacionalmente como expoentes do modernismo quanto uma Tarsila do Amaral e um Di Cavalcanti?

            Segundo Jacob Klintowitz, em recente pesquisa sobre Vicente do Rego Monteiro, “primeiro, porque ele (V.R.M.) foi para Paris e ficou distante do meio artístico brasileiro” e, para os modernistas da época, do “eixo Rio-São Paulo, era mais fácil eleger artistas de lá”. [3] Mas vejamos mais de perto a relação entre a obra desses dois artistas e a de Mário de Andrade, um dos fundadores do movimento modernista brasileiro.

            Mário de Andrade (1893-1945), poeta, ensaísta, fotógrafo, historiador, ficcionista. Ele descobre na obra de Cícero Dias “os seres fantásticos e arquétipos da mente humana”. E traduz em “Poemas da negra”, dedicados ao pintor pernambucano, esse lado obscuro da mente, por onde as artes cruzam, se atravessam e se comunicam.

 

Não sei por que espírito antigo

Ficamos assim impossíveis…

 

A Lua chapeia os mangues

Donde sai um favor de silêncio

E de maré

És uma sombra que apalpo

Que nem um cortejo de castas rainhas.

Meus olhos vadiam nas lágrimas.

Te vejo coberta de estrelas,

Coberta de estrelas,

Meu amor!

 

Tua calma agrava o silêncio dos mangues. [4]

 

 

Sem título, Cícero Dias

1929, aquarela sobre papel, 48 x 45,5 cm

 

            Podemos dizer que se trata da semiose, que Lucia Santaella diz ser “justamente aquilo que não pode parar”.[5] As imagens oníricas de Cícero Dias em suas aquarelas penetram o imaginário de Mário de Andrade e ali fazem moradia. Impregnam-se na voz do escritor paulista. Reverberam. Entregam a chave de um código que é o mesmo e é captado, adivinhado pelos dois artistas, feito tivessem sido simultaneamente sussurrados a cada um no momento da criação. O que Antonio Russi formula, Mário de Andrade pratica a partir da obra de Cícero Dias, numa translação entre as artes irmãs, com tradução de estilo, tons e sons, tal fosse a mesma alma em dois corpos, uma arte se espelhando na outra, uma arte se transmutando na outra.

            Em Vicente do Rego Monteiro, a complexidade aumenta à medida que o artista pernambucano, mesmo sendo essencialmente pintor, transita entre as experiências de escultor, desenhista, ilustrador, artista gráfico e poeta. Como se em cada tipo de expressão, Vicente “colhesse” matéria-prima para a sua pintura, alargando seus limites, iluminando nuances que somente ancoradas na pintura não poderia abarcar. Da escultura “colheu” a tridimensionalidade, o volume; da arte gráfica, a geometria, o espelhamento, a simetria; da poesia, a alegoria, a “metáfora continuada como tropo de pensamento”, [6] palavras tão maiores que palavras em Vicente do Rego Monteiro que, na tentativa de se materializar em imagens, passam pela experiência dos caligramas, ou dos poemas postais (1952-1968).

Caligrama, Vicente do Rego Monteiro, 1960

 

            Entre Mário de Andrade e Cícero Dias o diálogo é realizado entre artes, em um mesmo tempo, às vezes coincidindo espaço quando os dois artistas se encontram e se conhecem. Poderia se dizer que houve influência da obra de um no outro. Mas também podemos questionar por que artistas que não possuíam o mesmo contato (Mário e Vicente), ou mesmo nunca se conheceram na época em que viveram, ou viveram em épocas diferentes, países longínquos, línguas diversas, o que os levou a se comunicarem, a se assemelharem, a se traduzirem de maneira tão fiel apesar de todos os entraves de arte, tempo, espaço?

            Talvez seja a teoria de Antonio Russi e a memória servindo de canal e tradutor entre os sentidos e as artes. Talvez os signos, por sua natureza incompleta, busquem sucessivamente, incessantemente, no sentido do signo primeiro, o seu significado original e essa tentativa, essa arqueologia que passa e perpassa pelas palavras, pelas coisas, pelas imagens, uma entregando à outra o “bastão do conhecimento”, é o que põe o Ser Humano em movimento, o impele à criação e à sua infinita evolução.  

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(1) RUSSI, Antonio in PRAZ, Mario. Literatura e artes visuais. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix. Ed. da Universidade de São Paulo, 1982.

(2) Trecho de carta de Tarsila do Amaral à família in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. Textos de Marcelo Mattos Araújo, Paulina Nemirovsky, Fernando Xavier Ferreira e outros. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, p. 176.

(3) KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro – Olhar sobre a década de 1960.  Depoimentos de Leonardo Dantas, Carlos Ranulpho, Crisolita Pontual e Fernando Barreto. Recife: Ranulpho, 2013.

(4) Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. Textos de Marcelo Mattos Araújo, Paulina Nemirovsky, Fernando Xavier Ferreira e outros. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, pp. 60-62.

(5) SANTAELLA, Lucia in OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura. Um diálogo em três dimensões. São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU) – (Prismas), 1999, p. 126.

(6) LAUSBERG, Heinrich in OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura. Um diálogo em três dimensões. São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU) – (Prismas), 1999, p. 143.

Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br