Capa Grãos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grãos

Contos, Crônicas e Poesias, 2007

ISBN: 978-85-87025-25-8

Preço: R$ 15,00

128 páginas

Editora Calibán

 

“O que mais se destaca neste estranho livro é o emprego de uma linguagem aparentemente simples, transparente como a água que bebemos, a conviver num contexto de prosa e poesia. As tramas e os enredos sutilmente tecidos mal aparecem. No entanto, quando emergem à superfície de nossa mente, logo se esboroam numa teia de sugestões que falam mais pelo silêncio meditativo que pela força nua do poder da construção verbal.

Grãos não sugere, apenas, a força misteriosa das palavras, mas também a possibilidade de germinar em nosso íntimo novos seres, assim como ocorre com as sementes que, guardadas sob o signo da multiplicação, frutificam.”

 

*Prêmio Dicéa Ferraz em Poesia e Conto da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, 2008.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

 

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A Prova

(Extraído de Grãos, Editora Calibán, 2007)

Eu queria dizer que em cada amor existe ódio e em cada ódio, um pouco de amor.

Vou logo lhe avisando: essa história não é das melhores. Se tiver coração mole ou preconceitos, procure outro passatempo, veio ao lugar errado. Mas se for dos meus, daqueles que persistem sem nunca perder a esperança…

Então vamos lá, você que insiste. Meu nome é Charles, os mais amigos – se bem que não os possuo em quantidade – me chamam de Charlie. E eu posso lhe considerar um amigo: não chegou até aqui?

Para variar se trata de uma mulher. Não se ofenda, cara amiga; verá que não sou de todo mal. E os homens que estão quase me deixando de lado, façam um esforço, valerá a pena.

Ela se chama Lívia. E não é uma mulher qualquer. Tivemos um relacionamento tempestuoso, daqueles que não têm hora, lugar ou problema para se encontrar, e sempre era muito bom. Não me leve a mal, se veio ler cenas quentes e de volúpia, ligue a TV, alugue um filme: não é de meu feitio.

Mas onde estava mesmo?  Ah, Lívia. Acho que sempre pensou  que  eu  a   amava. Ligava para mim, lá estava eu, mandava o motorista me apanhar, qualquer situação, trabalhando ou não – se bem que ultimamente ando meio desocupado. Mas nesse dia foi diferente.

Fumando meu charuto cubano – gosto de umas regalias – à beira da piscina de um hotel que não vem ao caso nome e lugar. Bem, estava eu, tranqüilo, fumando meu charuto e uma taça do melhor Cabernet Sauvignon, safra 1996, chileno. Era uma festa de três, meu caro. E eu comandando.

Quando num repente… Não, foi suave, leve, tal ela sempre é, saindo de um mergulho, subindo as escadarias da piscina, a água se despindo de seu corpo, um metro e oitenta, pernas longas e delineadas por muita musculação, a cintura a que tanto me enrosquei, e os seios, ah, os seios…

É melhor parar por aqui: prometi que não iria contar cenas picantes. E não vou, sou um homem de palavra. Permita voltar à minha história que é o melhor que faço.

Lívia pareceu não me ver, enrolou-se no roupão, branco e felpudo, caminhava folgada, os quadris em uma louca dança – boa dançarina que é. Notei que falou alguma coisa ao garçom. Fiquei perdido em meus pensamentos quando a vi entrar no hall largo do hotel.

Se deveria segui-la, fazia tanto tempo. A última vez que a vi usava um vestido vermelho e decotado nas costas, o colo liso e estonteante quase saltava para mim naqueles dois seres imaginários… Calma, Charlie, olha a empolgação. Os cabelos soltos – os cabelos dela são de um tom que não sei descrever, meio ocre, meio mel, sempre perfumados, um doce e inebriante perfume.

Mas os olhos… Cor daquela piscina que em visão me apareceu, uma visão rápida e derradeira, talvez não devesse receber o bilhete do garçom, talvez não o lesse e inquietasse a alma com o convite para subir à cobertura do hotel luxuoso.

E quando apertei a campainha, percebi minha perdição. Estava repetindo o que me havia prometido jamais repetir, e por um instante, um ínfimo instante decidi que daria as costas e conseguiria chegar ao elevador antes que aqueles demorados segundos passassem e ela, ainda de biquíni, abrisse a porta e me convidasse para entrar.

Tudo acabou: promessas, dizeres e maldizeres. As palavras não contam numa hora dessas. O gosto de seus lábios me fazia retirar o blazer bege de linho e desabotoava a gola da camisa quando a maldita campainha tocou. Novamente.

Mas não era eu. Um rapaz – muito mais novo é verdade – alto, moreno, bem apessoado, tenho de confessar, entrou com ares de dono do apartamento, Lívia nos apresentou.

– Este é meu namorado, Joel.

Não preciso dizer mais nada, caro amigo. Seria um grande e tolo desperdício de palavras. Mas lhe peço, humildemente: não se vá. Espere mais um minutinho, não vai se arrepender.

A mesa estava bem posta na varanda, Lívia nos deixou conversando – agora, imagine sobre o que conversaríamos. Mas sou um cavalheiro, nunca, jamais me verá fazendo confusão, não faz parte de meu vocabulário.

Conversamos sobre tudo e parecia que não havíamos dito nada um ao outro, acendi mais um charuto.  A vontade era de lhe dar algumas baforadas, mas mantive a classe em cada um dos longos minutos que Lívia tomou seu vaporoso banho, a porta do banheiro um pouco entreaberta.

Foi então que tive a mesma visão, o vestido vermelho – deveria estar me provocando – sentou-se com o leve sorriso desenhado entre os alvos dentes na cadeira vazia entre mim e Joel.

As trivialidades desfilando, tal intermináveis desfiles que de Lívia assisti. As garrafas de champanhe Veuve Clicquot indo e vindo, caviar Beluga e fois gras entrecortando nossas risadas. Sim, meu caro, porque eu estava me divertindo.

Se tem uma coisa que nunca perco é o bom-humor. E naquela hora, não me era esforço algum usá-lo e da melhor maneira. A refeição foi deliciosa.

Nos licores, entre Frangélicos e Amarulas o nosso amigo se despediu. Disse-me que foi um enorme prazer, mas precisava fazer uma sessão de fotos na piscina,  a  equipe  de jornalistas o esperava. Bem que achei o rosto familiar: deve ter sido em alguma sessão de filme pornô de segunda categoria. Mas eu não assisto a filmes pornográficos.

Lívia, adivinhando os pensamentos, retirou as minhas dúvidas; fazia filmes de ação, o tal Joel.

– É uma boa pessoa, me faz companhia.

Mas eu também fazia companhia e por que me deixou?

– Charlie, você deve estar se perguntando por que está aqui.

Ela estava adivinhando mesmo todos os meus pensamentos.

– Faz muito tempo que desejava falar com você, e não havia a coragem.

Este nunca foi o seu forte, meu bem.

– O tempo está se acabando.

Não gostei dessa última frase. Mas às vezes o diálogo nos foge do controle.

– Estou com um tumor cerebral. E não tem jeito, Charlie, tentei de tudo, o melhor que a medicina pode oferecer.

É nessas horas, meu amigo, que tudo pára. O segundo elastece, os minutos congelam, e a paisagem vira uma grande e insolúvel fotografia.

Não sabia o que sentir. Se há alguns minutos queria estrangular aquela mulher, agora desejava levá-la ao colo, à cama e fazer como sempre o mais suave dos amores. Entendia tudo, o porquê da minha presença naquela cobertura à la Luiz XV com vista para toda a praia de Copacabana.

– O que vou lhe pedir só pode ser feito por você, meu querido.

Não me chame de meu querido…

– Joel não sabe de nada.

E porque não disse para o seu namoradinho?

– Ele não me ama como você.

Estará sendo cínica? Por que esses olhos de lágrimas?

– Quero que me prometa algo.

Promessas, promessas.

– Quando estiver no hospital – o que provavelmente acontecerá em breve – peço que dê um jeito de desligar os aparelhos. Não quero viver em cima de uma cama, quem sabe lúcida e sem poder falar, andar, ser quem eu sou.

E aqui estou eu, meu amigo. Na UTI mais cara que vi em toda a minha vida, em frente à mulher que amo, os olhos parados, brilhantes, como se soubessem porque estou aqui.

Tudo ficou claro. Eu sabia o que fazer. Em passos leves me aproximei da cama, dei-lhe um doce beijo na testa ressecada, mas ainda bela – vi uma pequena lágrima escorrendo por sua face pálida.

Olhei para a parafernália de botões da máquina que a mantinha viva. Fiz o que meu coração mandava, dei alguns passos e saí sem olhar para trás.

Eu queria dizer que em cada amor existe ódio e em cada ódio, um pouco de amor.

Foi um prazer conhecê-lo, meu caro.