Continuamos em nossas viagens pelos mundos de dentro de escritoras e escritores brasileiros. Em abril de 2021, navegamos pelas Vidas secas, de Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, com casa-museu em Palmeira dos Índios, ambas cidades das Alagoas.

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Primeira Aula do Módulo 4:

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Na primeira aula do módulo, comparamos a escrita de Graciliano Ramos (Vidas secas) com as pinturas de Candido Portinari (“Os retirantes”) e a semelhança entre seus respectivos personagens (Fabiano e o palaninho, alter egos de seus autores); investigamos a prisão da linguagem, do corpo e das roupas em Fabiano, comparando-o com Sinhá Vitória; e realizamos o diálogo entre Vidas secas e o existencialismo de Jean-Paul Sartre.

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Segunda Aula do Módulo 4:

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Visitamos, de maneira virtual, os muitos lares de Graciliano; fizemos a comparação, mesmo que abismal, entre a prisão de Graciliano relatada em Memórias do cárcere e o isolamento social em tempos de pandemia; continuamos investigando a linguagem como prisão para Fabiano e sinhá Vitória, ao mesmo tempo que instrumento de libertação – citamos brevemente o livro História, memória: o testemunho na era das catástrofes, de Márcio Seligmann-Silva – e apresentamos alguns filmes sobre Graciliano e a Escrita Criativa.

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Terceira Aula do Módulo 3:

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E é com imensa alegria que convidamos para a live, no nosso canal do YouTube, na próxima quarta-feira, 28/04/2021, a partir das 19h, com a escritora, poetisa, jornalista, mestra em Comunicação, doutora em Sociologia e especialista em Escrita Criativa, Raldianny Pereira, que irá nos brindar com seu processo de criação, e, juntas, homenagearmos um dos maiores conhecedores de Graciliano Ramos, o filósofo, poeta e professor Lourival Holanda. Não percam!

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https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de desbloqueio:

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Módulo 1 – Osman Lins:

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Dilma França

Contato: dilma_franca@hotmail.com

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O HÓSPEDE**

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Foi ao cair da tarde de um belo dia de verão que ele chegou. Parecia ser o mais jovem morador daquele pensionato. Porte de atleta, olhar sedutor que deixava transparecer a alegria de viver. Essa alegria era contagiante e passava, para mim, a “estonteante sensação de estar viva.”

Amei… ou, como se diz por aqui, foi amor à primeira vista. Passados poucos dias, já estávamos juntos e parecia que nos conhecíamos há bastante tempo. Era bom estar com ele. Eram momentos mágicos que, juntos, transformávamos em poesia. A minha vida mudou. O mundo mudou. Tudo mudou.

Entre uma pausa e outra da faculdade aproveitávamos para namorar. Eu, “de olhos cerrados, nada escutava do que acontecia no exterior.” Enquanto ele, apaixonadamente, sussurrava ao meu ouvido: “Quero-te com uma loucura do que nunca me imaginei capaz.” Era, simplesmente, MARAVILHOSO!!!

** As frases entre aspas são do livro O visitante, de Osman Lins.

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Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com    

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Janelas de minha alma

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Todo dia vejo o mundo através de minha janela.

São os barulhos da manhã de segunda-feira em pleno verão de Porto Alegre, onde um barquinho cruza as águas de um rio que talvez seja lago ou lagoa, não sei bem. Diferença do dia de ontem, onde o silêncio do domingo se fazia opressor. Gosto das segundas por isso. Tem coisa de vida que reinicia, tem cheiro de esperança.

Esperança talvez tenha disso, ser a força que leva adiante, ser o que sinaliza que a vida continua. Apesar da dor. Apesar da ausência. Apesar do medo.

Confesso. Já via a vida através das minhas janelas. Nunca fui das ruas, meu mundo interno é vasto. O contato social, nem tanto. Talvez por isso, o isolamento não tenha sido tão forçado. Sei lidar com o ficar em casa.

Sei?

Nem tanto. Outra confissão desses dias em que minhas certezas se esgotaram e só vivo deixando a vida me levar. Hora de retesar os cordéis, empunhar os corcéis nessa rima pobre.

A casa. Como eu, precisando de desapegos. Acúmulos de lembranças que trazem pó e não resolvem o presente. Passado que atravanca o futuro.

Olho a janela e vejo movimento.

A vida é feita dele. Ação e reação. Neste ano de 2021, meu pai faria 100 anos. Estou organizando um ebook sobre ele. Será para os familiares. Mas a visita ao seu mundo, suas palavras, fotos e lembranças me trouxeram muito dele que era sonhador e prático. Talvez a mensagem seja resgatar essa herança dentro de mim.

A janela? Continua minha visão de mundo predileta. Sinto cheiros vindo da rua. O que, nesses tempos covídicos, sempre é um alívio. Ontem falava com um amigo sobre como populações desorientadas acabam por atrair um predador. Ironicamente, como em a Guerra dos Mundos, a tecnologia acaba vencida por um vírus, algo que não podemos ver, mas que abala nossas defesas.

E a casa? Guardiã de nossa segurança, nosso abrigo básico desde o tempo das cavernas e fogueiras que acendiam imagens de bisontes e lutas.

Enquanto teço imagens em minha própria alma, a vida lá fora se faz sobrevivência. A gata mia, uma urgência doméstica me chama. O trabalho espera com suas prioridades. Olho a janela e o mundo começa a acontecer. Tenho esse privilégio.

A alma? Voa pelas frestas, alcança o céu e coloca um sorriso nos meus olhos.

Continuo.

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Módulo 2 – Manuel Bandeira:

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Elenara Leitão

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Das ruas da minha infância

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Tão grandes as ruas da minha infância! Maiores por ser eu tão pequena. Eram seguras, convidativas para um caminhar, um brincar de amarelinha.

Novo Hamburgo, uma cidade próxima à Porto Alegre, com ruas tão limpas que parecia não haver habitantes. Nossa casa, branca como as nuvens, ficava em cima de um morro. Nos verões escaldantes, faltava água. Íamos de sacolinhas, a pé, até o Clube Aliança. Piscina e o banho que, fora de casa, tomava ares de aventura.

Anos depois, fui passar um carnaval em Laguna/SC, na casa de um pescador. Eu e uma turma de jovens urbanos. Além do piolho, que pegamos na noite em colchões conjuntos, também a água faltava. O jeito era pegar um barquinho, atravessar as águas e ir tentar um banho no camping local, rezando para que nos confundissem com os barraqueiros de lá. Ou comprar um no barzinho simpático, cujo banheiro tinha uma janela enorme que dava para uma mata. Tomara não tivesse ninguém ali. Bons tempos em que o celular não tinha sido inventado, nem as câmeras fotográficas eram tão comuns. O voyeurismo ficava apenas na memória de quem viu. Se é que viu.

Mais um recorte, já é Natal. O pai chega do banco, nos coloca no carro e vamos ver as vitrines da Rua da Praia. Eram anos 60. Meu irmão não curte aquela caminhada e fica dormindo no banco do carro, que permanece aberto. Não só podíamos andar à noite, em passeio familiar no centro de Porto Alegre, como o carro podia ficar uma quadra distante sem trancas e com um pirralho dormindo dentro. Hoje parece inconsequência, mas eram tempos tão mais inocentes. Lembro das luzes da rua, fervilhando de pessoas encantadas com os bonecos e enfeites que se mexiam. Não lembro o nome da loja, ficava na quadra antes da Massom, cada ano as vitrines se superavam. Meus olhos de criança brilhavam com aquelas magias.

Outra rua que me fascinava era uma avenida. Carlos Gomes. Meu pai tinha um aero willys azul com bancos vermelhos. Ele adorava passear de carro. Não só nos fins de semana, mas a cada anoitecer, quando chegava do trabalho, nos colocava no veículo e dava uma volta pela cidade. Fui saber dele, já adulta, que era das coisas que mais gostava na vida. Acho que lhe dava uma sensação de liberdade, de ver coisas novas, mesmo que conhecidas, ele que tinha olhos de descobertas para a vida. A Carlos Gomes era tão ampla! Meus olhos adolescentes, já acostumados às esplanadas de Brasília, onde morara, não mais reconheciam a avenida de minha infância naquela rua agora tão acanhada. Como mudam os conceitos quando novos parâmetros surgem em nossas mentes.

No planalto central deixei o velho conhecer as ruas pelos nomes. Passaram a ter siglas. Minha mente lógica se acostumou logo, achando algo completamente encantador. Era muito mais fácil de entender uma cidade assim. Ao Leste a L alguma coisa. Ao Oeste as W (west em inglês) 1, 2, 3 e assim por diante. SQS 315 passou a ser meu endereço ao invés da Rua Duque de Caxias. Algo muito mais apropriado ao século XX!

Os espaços se ampliaram, a luz era mais intensa, não mais abrigadas pelos prédios e ruas estreitas. As visões de D. Bosco olhavam um local que reunia gente de todo o Brasil e que ali, me fez sentir o tamanho real de meu país. A geografia tomou forma e nome. Eram sotaques, experiências e vidas de todos os estados. Meu sotaque sulino extraía risadas em salas de aula. Nunca me senti tão gaúcha como quando longe de meus pagos.

As ruas que vivi se mesclam em memórias e ficção. Já não as lembro com detalhes, apenas com sentimentos.

Eram acolhedoras e seguras como casa da gente. Cada uma guarda seus nomes e referências em algum lugar dentro da lembrança. Na verdade, saudade mesmo é da infância.

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Módulo 3 – Ferreira Gullar:

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Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

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O ESGOTO

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Água suja escorria

Pelas ruas do morro

Pobremente cuidadas

Descendo ladeira abaixo

Em velocidade

Pelos becos entre curvas se curva

Lá embaixo ao pé do morro

No encontro com a praça

Abandonada

Despeja nutrientes

Num canteiro sem vida

Aos poucos hidrata aquela terra

Estéril

A vida renasce

Plantinhas brotam e dançam

Ao toque macio do vento

Florescem

E convertem água suja

E mal cheirosa

Em um jardim

Lindo!

Perfumado!

Colorido!

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Dilma França

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CARUARU, CIDADE-POEMA!

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Quanto mais o tempo passa, mais bonita, mais formosa e mais acolhedora fica a nossa cidade. Mas por que cognominá-la de “Cidade-poema”? O que faz com que seja considerada, por alguns, como uma cidade-poema? O que ela nos ensina, o que ela nos mostra e o que ela transmite aos que por aqui passam? 

Depende muito dos olhos de quem a vê. De quem sabe transformar o “barro sujo” em poesia, fazendo brilhar o Alto do Moura, a terra do Mestre Vitalino; de quem sabe dar a forma poética à “água escura” que escorre do Monte do Bom Jesus e transforma a sua escadaria, enchendo-a de canteiros multicores, além de nos proporcionar a apreciação de um belo entardecer.

Referir-se a Caruaru como Cidade-poema, consiste em querer mostrar ao mundo que, aqui, temos inúmeros predicados em relação à cultura de um povo. Povo simples, honesto, trabalhador, que vive a arte e que respira a arte. Aqui, tudo é beleza, enlevo, sedução… Sensibilidade, carinho e paixão! Na minha Caruaru, tudo é poesia!

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Elenara Leitão

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Módulo 4 – Graciliano Ramos:

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

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LEMBRANÇAS DO CÁRCERE

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Faz quase um ano que aprisionadas estamos. Para mim, que nesse tempo usei a escrita para não calar perante o abismo da alma, sinto que foi uma benção. Tudo aconteceu há quase um ano, mas parece que muitos mais anos se passaram desde que foi decretado o isolamento e nos obrigaram a ficar em casa.

Afortunados estarmos em casa com tudo chegando em nossas mãos, recebendo tudo que precisamos, basta apenas um digitar no telefone. Toda a comodidade vem por delivery. Estamos bem providos e muito bem cuidados. Casa limpa e higienizada com um percentual grande do vírus não entrar pela porta adentro. Desventurados os que ficaram desempregados, os que precisam estar na rua. Os quem não tiveram escolha. Fecho os olhos e na impossibilidade de palavras para relatar a prisão dos que se foram sem consolo. Chove aqui dentro do peito com a mesma força de lá fora nesse mês chuvoso de abril de 2021.

Escuro foi o tempo de um ano atrás… quando dois dos meus se foram. Muitas águas correram pelos olhos, por tantas noites… desabaram de um coração aflito por providências eficazes. Havia um estado de alerta constante, a necessidade de tomar decisões acerca da vida dos outros, para no final restar somente medidas para duplos e consecutivos enterros.  Não consigo dizer por escrito a dor de perder entes queridos, de acompanhar enterro com espaço delimitado. De nem poder enterrar meus irmãos, de assistir missa online… apenas sinto no meu coração profundamente e demonstro na minha fala, quando eu ler estas lembranças.

Como relatar os dias finais que não sei o que eles passaram? Imagino que tiveram o grande medo do desconhecido e talvez uma enorme aflição nos derradeiros tempos. O grande medo de perder suas almas aprisionadas nesse corpo terreno. O medo de deixar a casca que sinto com mais profundidade nesses tempos. Talvez, pelo calvário dos meus, pude me identificar com os do lado de fora, porque neste mundo de dentro estou confortavelmente segura. Não devo me lamentar. Mesmo assim, é difícil narrar a agonia das pessoas moradoras de rua. As que estão nos hospitais talvez possam imaginar, pois conheço relatos angustiados, de solidão e isolamento, de falta de carinho e amparo. Tenho consciência que os que estão do lado de fora é que estão vivendo o verdadeiro pesadelo. Por isso, silencio hoje sobre tudo que já passei, pois é ínfimo perante o sofrimento alheio. Faltam-me palavras e sobra a raiva dos interesses e interessados nas vantagens que podem tirar em meio dessa crise mundial. De pessoas brigando por espaços políticos, de políticos fazendo muito pouco por seus eleitores… Não, o meu cárcere particular não merece nem ser descrito. Vivi num paraíso, uma ilha, no meio do caos para tantas almas que suspiram pela noite adentro. Muitas, quiçá, ainda perdidas nesse mundo. Com a chuva vêm as lagrimas que se misturam ao silencio da noite trazendo um pouco de alivio. É no silencio aqui de dentro que vou dormir agasalhada das mazelas do mundo de fora. Minha porta está fechada como o desenho que termino. E como só imagino, não consigo expressar verdadeiramente a dor que vem do lado de fora, escrevo um poema.