Não é para todo mundo não: morar em uma cidade e ter bem perto de casa padaria, farmácia, supermercado, correios. E ao lado disso, um rio no quintal, e com ele uma fauna, cuja maioria dos recifenses não desfruta. Me explico: vez em quando topo com um caranguejo sob a mesinha do computador (“eles estão de andada”, me explica um vizinho do Poço), uma grande aranha que desce do teto de treliças. Há uma cobra verde que mora numa palmeira e não é certamente aquela que há uns anos meu filho encontrou enrolada na goiabeira. E falou, sem nenhum medo: “Mãe, ela me olhou assim, ó, com uns olhos verdes…” Esta semana, entretanto, um encontro que fez gritar minha ajudante doméstica. Gritar, não, uivar. Corro e vejo: um teju. Quando eu era pequena lembro, havia um livrinho intitulado O jabuti e o teju que aliás Ferreira Gullar confessou ser uma de suas poucas leituras infantis. O teju do livro era ladino, mas inofensivo. Esse nosso, matou uma galinha e era terrível. Filho certamente de um outro que encontrei há uns anos, enorme, esverdeado, com uma crista antidiluviana, juro. Ficamos olhando um para o outro, ambos amedrontados, eu mais do que ele, vá saber o que se passa na cabeça de um semelhante bicho, embora eu já habituada com as cobras que vez por outra aparecem.

            Mas a grande coisa, há umas semanas: uma capivara. Que fazia em meio ao mato verde da margem, aquele animal que há séculos vivia em bando por estas plagas, e deu nome ao rio? Num tempo em que nosso Rio das Capivaras, cantado por Austro Costa, por Mauro, por Joaquim Cardoso, por João Cabral, por Ascenso, não era esse curso d´água poluído, receptáculo de esgotos, de lixo, jogado nele sem o menor escrúpulo? A capivara me viu, espantou-se, certamente habituada com razão a temer o bicho homem. Esgueirou-se em meio ao mato, pulou nagua, saiu nadando com elegância. Uma visão muito linda, entre o rio e o verde.

Poço da Panela, Recife – PE

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* Coluna “Letras às Terças”, Diário de Pernambuco, 20/03/12.  Texto autorizado pela autora para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

** Luzilá Gonçalves Ferreira nasceu em Garanhuns.  Professora universitária, doutora em Estudos Literários pela Universidade Paris VII.  Pesquisadora de literatura feminina, organizou Em busca de Thargelia, poesia feminina no Oitocentismo em Pernambuco (dois volumes); Suaves amazonas, mulheres e abolição no Nordeste; e A escrita da nova mulher. Escreveu Humana demasiado humana, biografia da psicanalista Lou Andreas-Salomé; e Presença feminina, sobre as deputadas pernambucanas do século XX. Romancista, é autora de Muito além do corpo (prêmio Nestlé de romance); Os rios turvos, editado pela Rocco (Prêmio Joaquim Nabuco, da Academia Brasileira de Letras); No tempo frágil das horas, pela mesma editora (Prêmio Lucilo Varejão, da prefeitura do Recife); A garça mal ferida; Voltar a Palermo, que ficou entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom; Deixa ir meu povo, editado pela Calibán;  Quatro séculos de literatura em Pernambuco; Autores pernambucanos do passado; Illuminata (romance, Prêmio Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura Cidade do Recife); e Pedaços (crônicas). Contato: luzilagon@yahoo.com.br