Mesmo assim, sumiu de minha vida. Ou eu sumi da sua. Voltei ao meu território natal depois de muitas andanças por aí. Passei fome e sede, escapei de carros, fugi da morte, livrei-me de pedradas. Não me saía da cabeça aquela mulher que me dava comida e carinho, falava comigo, me chamava de “meu amor”, “meu bichinho”, “meu lindo”. Dona Esmeraldina, assim se apresentou a mim. Nome comprido, que eu preferi reduzir para Dina. Entre, meu filho. Venha comer. Está com uma carinha de quem passou privações. Eu entrava, deitava-me no sofá, ela me dava cafunés e me abraçava. E pedia para eu ficar, não ir mais embora. Acariciava minhas orelhas. Passava mão na minha cabeça. Depois me oferecia leite ou comida. Decorridas algumas horas, eu me enfastiava daquela vidinha e escapulia de novo. Queria liberdade e aventuras. Andar pelo mundo, conhecer outras ruas, outras casas. Não outras pessoas, que eu sabia serem todas iguais na maldade, na violência.

            Há dias voltei. Queria ver de novo dona Dina, entrar na sua casa. Sentia saudades dela e da casa. Uma noite subi ao muro e aguardei a presença dela no jardim. Ela sempre me recebia de braços abertos. Venha, amiguinho. Guardei uma comidinha boa para você. Horas e horas no muro a esperar por ela. E nada de ela aparecer. Com medo, pulei para o jardim. Havia um carro na garagem. Dina não possuía carro. Sons de música na sala. Onde estaria minha amiga? Ela nunca ouvia música. Regressei ao muro. Fui andar por aí. Mais tarde tomei outro rumo e subi ao telhado pelos fundos da casa. Fiz barulho numas tábuas e tapumes de plástico. Talvez assim ela percebesse a minha presença. Um homem apareceu sob elas e gritou. Quem está aí? Vá embora, se não quiser tomar um tiro no meio da testa. Apavorei-me e corri pelo telhado. Certamente me confundiu com ladrão. Quem seria aquele sujeito? Marido dela não era, pois Dina morava só.

            Passei dois dias sem aparecer por lá. A curiosidade, no entanto, me mandava voltar à casa. Precisava descobrir por onde andava Dina e identificar aquele homem. Se ele me recebesse, me deixasse entrar na casa, conversasse comigo, tudo seria esclarecido. Não, não faria isso.

            Num dia de sorte, vi o portão se abrir e ouvi o barulho do motor do carro. A porta de metal se abriu para dar passagem ao carro e logo se fechou. Se a porta de madeira estivesse aberta, como sempre se achava durante o dia, eu logo alcançaria o interior da casa. Dito e feito: passei à sala, com cautela. Não reconheci os móveis. Tudo diferente de antes. Pé ante pé, entrei no primeiro quarto, voltei à sala, cheguei ao corredor, espiei para o segundo quarto, avancei até a cozinha, dirigi-me ao terceiro quarto, e nada de dona Dina. E se o sujeito voltasse e me pegasse dentro de casa? Melhor fugir o quanto antes. E corri de volta ao muro e dele à rua.

            Por onde andará Dina? Terá se mudado, sem me avisar nada? Mas como poderia ter me avisado, se passei dias, semanas, meses (não sei quanto tempo) sem aparecer? E se tiver morrido? Pensei em chorar. Imagino o pior: o homem a matou e a enterrou no jardim. E se eu for à polícia? Não, ninguém entende o que digo. Devo me conformar: ela não voltará mais. Nunca mais a verei. Não me dará mais a comer frango ou peixe. Não terei mais seus carinhos. Só me resta perambular por aí e correr atrás da sobrevivência. Se preciso, caçarei ratos.

Fortaleza, janeiro de 2008.

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* Extraído do livro Luz Vermelha Que se Azula, 2010, Prêmio Moreira Campos, Fortaleza – CE.

** Nilto Maciel nasceu em Baturité, Ceará, em 1945. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77, tendo trabalhado na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Regressou a Fortaleza em 2001.

            Editou a Literatura: revista do escritor brasileiro, de 1992 a 2008.

            Obteve primeiro lugar em alguns concursos literários nacionais e estaduais: Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1981, com o livro de contos Tempos de Mula Preta; Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1986, com o livro de contos Punhalzinho Cravado de Ódio; “Brasília de Literatura”, 90, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo; “Cruz e Souza”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica; VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, 1996, Fundação Cultural de Fortaleza, Ceará, com o conto “Apontamentos para um Ensaio”; “Bolsa Brasília de Produção Literária”, 98, categoria conto, com o livro Pescoço de Girafa na Poeira; “Eça de Queiroz, 99, categoria novela, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, com Vasto Abismo.

            Organizou, com Glauco Mattoso, Queda de Braço: uma antologia do conto marginal (Rio de Janeiro/Fortaleza, 1977). Participou de diversas coletâneas, dentre elas: Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, org. por Rinaldo de Fernandes (Ed. Garamond, Rio de Janeiro, 2006); 15 Cuentos Brasileiros/15 Contos Brasileiros, edición bilíngüe español/portugués, org. por Nelson de Oliveira e tradução de Federico Lavezzo (Córdoba, Argentina, Editorial Comunicarte, 2007); e Capitu Mandou Flores, org. por Rinaldo de Fernandes (Geração Editorial, São Paulo, 2008).

            Os Guerreiros de Monte-Mor, publicada em 1988 pela editora Contexto, São Paulo, para a coleção Contexto Jovem, será em breve relançada pelo Armazém da Cultura, Fortaleza, Ceará.

            Tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. O Cabra que Virou Bode foi transposto para a tela (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993. Seus livros são publicados por pequenas editoras de Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis, Brasília e Campinas.

            Contato: niltomaciel@uol.com.br  

*** Rico Gabriel, o “filho caçula” de Patrícia Galindo (pattioxe@hotmail.com).