06/02/12

            Cada vez que lemos um livro, um mundo novo se apresenta, novas possibilidades, diferentes caminhos. E, quando se trata de um clássico, as fronteiras se alargam e podemos enveredar num labirinto sem fim.

            Foi o que me aconteceu após a terceira leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. A primeira, aos treze anos, imposta pelo colégio. A segunda, ao começar a escrever. Na terceira, “um mundo novo se apresenta, novas possibilidades, diferentes caminhos”.

            Escolhi um entre muitos caminhos: o da escrita, o do fazer artístico. Machado de Assis nos remete a Edgard Allan Poe quando no ensaio “A filosofia da composição” revela a feitura de seu poema mais conhecido, “O corvo”. Machado e Poe procuram explicar o porquê de começar um poema pelo fim.

            “… estabelecendo o ponto culminante, melhor poderia variar e graduar, no que se refere à seriedade e importância, as perguntas precedentes do amante e, em segundo lugar, poderia definitivamente assentar o ritmo, o metro, a extensão e o arranjo geral da estância, assim como graduar as estâncias que a deviam preceder, para que nenhuma delas pudesse ultrapassá-la em seu efeito rítmico.” [1]

            “Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura.”[2]

            Encontramos a labuta, o escavar incansável do escritor, poeta, artista em sua luta com as palavras.

            “A sensação que tive é que ia ser um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres e notei que os mais deles eram facílimos; os versos saíam uns dos outros, com a ideia em si.” [3]

            Uma das maravilhas da leitura é quando descobrimos a continuidade, quando o autor dá o livre-arbítrio ao leitor para criar um final totalmente seu e único, e isso poucos escritores conseguem fazer.

            “Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todas me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares; e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.” [4]

            Deixar a linguagem se insinuar em nós, se entranhar, germinar e criar novas linguagens, novas palavras, novos discursos.

            “… o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam ajustando-se.” [5]

            Mas o maior ganho nessa releitura encontra-se no olhar para com o personagem principal, Bentinho. Há um quê de humanidade nesse instante, um quê de aproximação e compassividade, como se o autor pela primeira vez me fisgasse, seduzisse, revelasse a sua chaga mais profunda. Através de analogias, metáforas, o cenário vai se construindo, a peça, sendo montada, e encenada a história que ele deseja me fazer acreditar.

            “Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir.” [6]

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Texto escrito para a reunião da Confraria das Artes no dia 07/02/12 – Recife – PE. Contato: confrariamulheres@googlegroups.com.

(1) Poemas e ensaios, Edgard Allan Poe, Editora Globo, p. 109.

(2) Dom Casmurro, Machado de Assis, Editora Record, Coleção Descobrindo os Clássicos, pp. 116-117.

(3) Dom Casmurro, Machado de Assis, Editora Record, Coleção Descobrindo os Clássicos, p. 118.

(4) Dom Casmurro, Machado de Assis, Editora Record, Coleção Descobrindo os Clássicos, p. 125.

(5) Dom Casmurro, Machado de Assis, Editora Record, Coleção Descobrindo os Clássicos, p. 131.

(6) Dom Casmurro, Machado de Assis, Editora Record, Coleção Descobrindo os Clássicos, p. 150.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com