LIBERTAD DIAS DA COSTA

 

Demorei a gostar da Elis. Só passei a admirá-la depois de adulta, quando ela já estava morta. Ela não apenas cantava, ela vestia as canções, uma segunda pele que a encobriam. Ou melhor, arrancava a própria pele e cobria-se com as alheias, um comportamento kamikaze.

Quando ela morreu, eu tinha treze ou quatorze anos e era fã dos Beatles. Tinha todos os discos. Na verdade, os discos eram do meu tio e ele deixou para trás quando partiu e, ao voltar, não se importou que eu tivesse me apropriado deles. Disse que o fato de eu gostar dos Beatles fazia de mim uma pessoa melhor.

Tiu Cau sumiu de repente. Durante um tempo, não entendi o que tinha acontecido. Se perguntava por ele, os adultos olhavam para os lados, desconversavam e minha avó ficava com os olhos úmidos, suspirava, ah, o Luiz Cláudio. Ficava esperando para ver se dizia mais alguma coisa, mas não, ficava nisso. O tempo em que esteve fora mudou muito o tio Cau. Ao vê-lo anos depois, achei que tinha algo diferente, mas pensei que era devido ao fato de eu ter crescido e ele envelhecido.

Quando morreu, a Elis tinha trinta e seis anos. Ela e a mãe eram de 45. Minha mãe. Lembro da cara que ela fez quando divulgaram a notícia da morte da Elis, o olhar recriminatório, o modo característico de contrair os lábios como fez para mim tantas vezes, acabando comigo sem precisar dizer palavra. Drogas, só pode, sua única observação, segura da verdade como sempre, enquanto tragava nicotina de um dos seus cigarros longos e chiques. Minha mãe foi uma mulher moderna em vários aspectos, professora universitária, fluente em dois idiomas estrangeiros, mas, por outros, conservadora, preconceituosa.

Libertad. Este nome foi uma praga que infernizou minha vida, principalmente a infância e boa parte da adolescência. Hoje, eu o suporto, consigo achar algum charme nele, embora preferisse Alice, Daniela. Carregá-lo ensinou-me a ser paciente, pois sempre tenho de repeti-lo duas, três vezes. E soletrar. E explicar que é espanhol, ao que me perguntam se sou espanhola e tenho de dizer que não. Por vezes, pronunciam: “Libertadi”. E, se seguido do sobrenome, ainda piora, vira “Libertadidias”.

Meu nome não foi uma homenagem à Libertad Lamarque. Ninguém com menos de setenta anos sabe quem foi esta senhora, talvez nem meu pai. Ele só ouvia música clássica e Ray Coniff, nunca entendi. Quando eu escutava aquelas músicas, tinha vontade de gritar: pai, desliga este troço. Pelo o que sei, a escolha foi a única demonstração de contrariedade dele, o Doutor Mariano Eusébio da Costa. Um dia antes de eu nascer, publicou-se o Ato Institucional número 5. Meu pai passou a vida a se esquivar da política. Tinha uma incrível habilidade para falar muito sem dizer nada, coisa que seu pai e irmão nunca conseguiram fazer e, por isso, se estreparam. Mas aí, veio o AI-5. Nós morávamos em Brasília, onde meus pais fizeram suas carreiras acadêmicas, e eu nasci. Um impulso, uma coisa idiota, como quando falamos o que não queremos em uma discussão. Ou não temos tempo de refrear a vontade de dizer e sai, mas nos arrependemos logo depois. Ele deve ter captado no ar o sentimento de raiva e medo ao seu redor, pensado no seu pai, no seu irmão, e achou que a maneira segura de expressar o que sentia era batizar sua filha com um nome de estátua. Era perfeito. Se alguém perguntasse, poderia vir com aquela história da Libertad Lamarque.

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Abertura de Demorei a gostar da Elis. Alexandra Lopes da Cunha. Ilustrações: Thiene Magalhães. São Paulo: Kazuá, 2017.

** Alexandra Lopes Da Cunha (Brasília/DF, 1970) é formada em Administração de Empresas com mestrado na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Autora de Amor e outros desastres (2012), finalista do Prêmio AGES, na categoria Narrativas Curtas no mesmo ano, Vermelho-goiaba, vencedor do concurso IEL 60 anos em 2013 na categoria Contos Autor Estreante, e de Bífida e outros poemas (2016). Doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Contatos: alexcunham@gmail.com