Roupas no varal

Roupas no varal. Pedaços de panos. Ao vento. Essa é a imagem bucólica, por vezes romântica, que tenho de roupa lavada – lavadeira, sabão, ensaboa, roupas a quarar. Trouxas de roupas. “Ensaboa, mulata ensaboa, ensaboa vou ensaboando…”

Uma imagem plasticamente linda: Uma mulhar lavando roupa (não tenho conhecimento de homens nesse ofício), na beira do rio, torcendo roupa, batendo na roupa – ritual – espantando a raiva, cantando cantigas de beira de rio, e roupas espalhadas pelas pedras a secar. Roupas coloridas, preto e branco, calças, vestidos, de cores fortes, de cores pálidas, surradas, batidas, natureza morta, embora cheia de vida. Quarando ali nas pedras, as roupas não têm dono, nem moda. São pedaços, recortes, com manga, sem manga, com gola ou não, com babados ou debruns, ali, estendidos nas pedras, no varal, no chão. O vento é o seu ritmo, o embalo do seu movimento; é como se os donos dessas roupas, ali, também pendurados, também se embalassem, até mesmo voassem.

Lá vem a lavadeira! Com a trouxa na cabeça, uma rodilha, e num equilíbrio que só as lavadeiras têm, também dançam no andar – a trouxa e a lavadeira, a lavadeira e a trouxa – juntas pendem levando as roupas para lavar, cantarolando cantigas de ensaboar, em harmonia com o corpo, com a ladeira, com o rio.

Diante de tanta poesia, esqueço do trabalho tão árduo que é lavar roupa: o esforço, a força, a coluna, o tóxico do sabão nas mãos, os calos, o sol forte, o tanque. Só vejo as cores das roupas, o varal, o balé e sua mais talentosa coreógrafa. Esqueço também da etapa seguinte: pilhas de roupa para engomar, ferro quente, cada vinco – outra ciência! Molha, pulveriza, estica, passa, fumaça! Tem ciência mais difícil? Mas como todo trabalho a ser realizado – tem coisa mais bela que uma boa pilha bem passada? Prontinha para ser guardada, usada, suada, e de novo no cesto?

E quando chove que ficamos com a roupa amufambada no cesto, cheiro de xixi, de mofo, roupa encardida, que sufoco! Saudades de uma lavadeira. Outro dia isso me aconteceu e depois de uns dias, a minha lavadeira, Zezé, veio lavar tudo, mas choveu e teve que deixar a tarefa de estender comigo. Um desastre! As roupas pesavam demais. Estendi tudo a esmo, sem me preocupar com as misturas das sabedorias dessa lida: toalha azul – pingava nas camisas brancas de Juca; toalha vermelha chorava nas camisetas dos meninos; o desbotar celebrava a mistura das tintas numa verdadeira orgia nas artes plásticas… e as roupas? Uma lástima! Tomei contento e assumi minha incapacidade das trouxas. Então pensei: Que alquimia, que magia, que malabarismo, essas lavadeiras! Entendem de cores, de pesos, de formas; prestam atenção nas misturas, nas texturas e nos segredos – eis aí o mistério! Cada roupa é cada roupa, independentemente dos seus donos. Cada peça tem um tempo de água, de sabão, saber como esfregá-la, torcê-la, amaciá-la, estendê-la, secá-la e passá-la. Etapas! Passos a serem seguidos – ritual! Os baldes põe de molho, pinga uma água sanitária aqui, uma pitada de vinagre acolá. Tudo com toques, sutilezas, não logo, logo misture as cores! Não pode esfregar demais! E quando se pega uma roupa suja e se transforma em tudo muito branquinho; ver a sujeira escorrer rio abaixo, ralo adentro… É um ato íntimo, que exige concentração: lavando roupa suja?

Hoje com a tecnologia, os varais, as roupas, as pedras e esse ritual de purificação ficou restrito a ver as roupas dançarem, numa máquina enlouquecida, que não sabe o que é roupa encardida e nem de longe conhece a beleza dos varais e de suas lavadeiras.

 

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* De paisagens e de outras tardes. Ana Adelaide Peixoto. João Pessoa, PB: MCV/Forma/Gráfica JB, 2016.

** Ana Adelaide Peixoto Tavares é Prof. Dra. no Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade Federal da Paraíba, e tive a honra em tê-la na minha banca de defesa de dissertação de Mestrado em Setembro, 2015. Contato: adelaideana@uol.com.br