Para Ricardo Cardoso Busch

 

Se achegou, pediu para entrar, entrou e ficou calado. De uma certa forma, pois, de vez em quando, reclamava algo consigo mesmo, em tom baixinho.

Como eu estava ocupado com a leitura de um importante documento, de início não pude lhe dar atenção. Contudo, como ele permanecia sentado à minha frente, e os reclames só aumentavam, mudando de tom de sussurro para um rosnar de protesto, elevei a cabeça e lhe saudei:

— Como vão as coisas?

Assim mesmo, sem a mínima pretensão de entabular uma conversa profícua, mas tão só tangido pela obrigação.

Ele me pôs uns olhos grandes, resguardados por sobrancelhas assanhadas e pastoreados por um comprido nariz adunco.

Havia, logo percebi, naquele rosto grande um não sei o quê de menino sofrido. As rugas dos anos não o marcavam com o sinete da velhice, pensei.

Puxou um papel do bolso da calça e, com um certo tremor de dúvida, confidenciou-me:

— Depois que li o seu livro, amigo, resolvi, também, escrever algo…

Parou, limpou os lábios grossos, em seguida, olhou para o chão.

Como quem é tocado pela literatura sempre me ganha a simpatia, incentivei-o:

— Que bom! Mostre-me.

— Confesso que me apropriei de certas passagens de suas crônicas. Em especial, daquelas que aborda a família. Seria um plágio da minha parte? — enquanto falava, estendia-me o braço, com o papel dobrado na ponta dos dedos.

— Não se preocupe com isto. Em literatura, meu caro, um texto é semente para tantos outros. Deixe-me lê-lo.

Quase que foi necessário tomar o pequeno papel das suas mãos. Quando assim o fiz, corri depressa os olhos para o papel. Ele me pediu, encarecidamente, um tempo:

— Quero lhe explicar algo, antes que você o leia.

Era um homenzarrão me pedindo paciência. Quase ri do seu modo polido e do seu jeito frágil.

— Você bem sabe como um texto literário me instiga. Logo, cuide de ser breve e sintético.

Ajeitou-se na cadeira, aproximou-se um pouco mais da minha mesa, e asseverou-me:

— A profissão… Melhor, o ofício de pai não é fácil. Ou melhor seria me referir a “sacerdócio de ser pai”? Tanto faz, você, como pai, me entende.

— Sim, claro, sei… — interrompi-o, impaciente, como a instigá-lo a cortar caminho, a ser breve.

— Pois bem, tenho três filhos e, cada um deles, me desafia. O do meio, em especial. Este é mais contestador, reativo a tudo que procuro lhe ensinar, fechado dentro do seu próprio mundo. E, quando de lá sai, me bombardeia com ironia, em achados de zombaria que me tiram do sério. Em certas ocasiões, tive assomos de fúria… contive-me, graças a Deus, a tempo.

— Sei, sei.

— Depois que li uma das suas crônicas, aquela em forma de carta a seu pai, decidi mudar de tática. Quem sabe uma carta minha não o tocaria?

— Claro, por que não?

— Bom, agora pode lê-lo — ao autorizar-me, ele fechou os olhos.

Não sei por qual razão, porém decidi lê-lo em voz alta. Estávamos sozinhos, e tenho, por mania, sentir a oralidade do escrito.

Limpei a garganta, caprichando na modulação da voz.

Era uma epístola tomada pela força de um pai carinhoso e dedicado. Senti orgulho do meu ofício de escrevinhador, pela capacidade de ter influenciado aquele pai em se fazer escritor. Ou seria conselheiro-escritor?

Ao término da leitura, levantei o rosto do manuscrito e… flagrei uma lágrima a lavar a face paternal daquele bom homem.

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