“Em formato de novela-folhetim, Clauder Arcanjo constrói com originalidade, linguagem requintada e domínio de expressão uma trama labiríntica, em que o cotidiano dos moradores da fictícia cidade de Licânia é retratado capítulo a capítulo numa invenção surpreendente e desconcertante. Narrativa desenvolta e segura, em que realidade e ficção se entrelaçam, seduzindo o leitor com a força e a palavra de Adamastor Serbiatus Calvino (Cambono), Maria Abógada, Benarenard Péricles, Acácio, Jacinto Gamão, Gerardo Arcanjo, entre outros personagens capazes de fazer tremer as paredes de Licânia com seus uivos de paixão.” (Marília Arnaud, Escritora)

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PARTE I

Um início sem fim

A floresta era pequena: três árvores frutíferas, duas samambaias no sopé da varanda e uma nesga de chão, ao fundo, com salsa, carrapicho e uma profusão de mata-pasto. Os animais dessa selva particular eram: o cachorro Banzé, um fox paulistinha (uma fera, quando diante de Aristóteles Emerson Barreto, o obeso gato siamês da vizinha, a senhora Francisca Espielberga Ford Coppula di Parma), a tartaruga Escolástica Bacon Spinoza Poe (do alto – melhor, da baixeza – dos seus quase oitenta anos de puro ócio) e o pequeno, e depenado, Nelson Deoclides Rodrigues Trotsky Médici Sampaio (papagaio linguarudo, mal-educado, inconveniente e pornográfico; daqueles de corar um Marquês de Sade).

Como cenário, um casarão antigo, de paredes dobradas, telhas vãs, sob o imperial céu nordestino. Sempre azul, banhado pelo sol e encoberto de sonhos.

Neste paraíso provinciano, morava o nosso herói: Adamastor Serbiatus Calvino.

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* Clauder Arcanjo é escritor, editor, engenheiro e trabalha em uma plataforma cercado pelo mar.

Contatoclauderarcanjo@gmail.com

** Cambono. Clauder Arcanjo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2016.