Foto: Louis Scur Carrard

se a tua boca espera,
então talvez a minha carne
reaprenda todos os idiomas
que os dias usam
para se esconder

se a tua boca promete
aquele cheiro da terra-arquiteta
erguendo os verões e as flores,
aí estarei eu sentado
sem esperar mais nada

se a tua boca diz: regresso
trazendo teus tantos olhos
e as versões do teu nariz,
eu escolho uma pele do teu repertório
e amargo o desperdício,
como quem ignora a beleza da chuva
e a filosofia do frio

mas tua boca ignora isso

aqui no silêncio,
onde pingam algumas vozes
que não costuro,
a água de banhar-se
tem esfriado muito cedo

uma apenas (das vozes)
se entrega
na forma de um inseto que repousa
sobre a fotografia
e espera morrer
no incêndio do teu cabelo
[Altair Martins]