Patricia Tenório

01/03/13

            Se analisarmos atentamente o romance de Mário de Andrade, Amar, verbo intransitivo: idílio,[1] descobriremos no texto características que pertencem tanto ao modernismo quanto ao pós-modernismo. Se por um lado encontramos em Amar a contestação modernista à língua portuguesa, por outro, encontramos também o uso da ironia para “quebrar” as fronteiras da tradição, “a autonomia da arte e a deliberada separação entre arte e vida”, a posição contrária em relação à cultura de massa e à vida burguesa, traços marcantes modernistas também defendidos pelo pós-modernismo.

            Linda Hutcheon, em Poética do pós-modernismo,[2] afirma que “o pós-modernismo é um fenômeno contraditório”. Enquanto reverencia o que o antecede, ao mesmo tempo o “subverte”, sem no entanto usar do dispositivo da dialética para haver uma síntese, uma conclusão. O que se quer no pós-moderno é exatamente essa dúvida, esse espaço vazio a ser preenchido pelo leitor/espectador, em vez  de se fechar no que  o autor/produtor propôs. É um texto aberto e, com isso, passível de sofrer erros de interpretação.

            No prefácio de Marlene Gomes Mendes ao livro de Andrade,[3] o autor nos revela:

“Desde que principiei abrasileirando a minha literatura, tomei sempre bem tento nisto: se emprego termos, locuções, sintaxes de povo, não faço fala de povo porém literatura, isto é, busco enobrecer na linguagem escrita os monumentos populares.”

                O autor “quebra” a língua portuguesa na tentativa de abrasileirá-la, respeitando “os monumentos populares”. Ele não exclui as raízes, tanto portuguesas quanto indígenas, africanas, mas insere as transformações que a língua passa por causa dessas interações, dessa miscigenação, além das influências de outros povos que ao Brasil vão chegando e misturando as suas culturas.

            Consideramos que Amar, verbo intransitivo é composto de duas histórias. A história de Fräulein, uma governanta alemã contratada por uma família brasileira burguesa em ascensão, os Souza Costa, para “ensinar os caminhos do amor” ao jovem Carlos.[4] E a história da criação de um livro, com seus personagens, cenas, a explicação das digressões, a ironia. A tradição e o novo, juntos, coexistentes. O “homem-da-vida” e o “homem-do-sonho”, classificação dada pelo autor/narrador ao “filho da Alemanha”. Passagens como a da primeira noite de Carlos com a governanta em que, ironicamente, o autor/narrador desloca a descrição da cena de amor para a história dos estrangeiros no Brasil (p. 80). É como se Mário quisesse nos provocar, provocar o leitor com a falta, aquilo que não temos (a cena de amor) e o que ele gostaria de “inserir” nessa falta, nessa fresta aberta da história aparente, porque a verdadeira história, a nosso ver, está no problema da emancipação da língua brasileira com a do seu colonizador, emancipação que o modernismo, com a Semana de Arte Moderna em 1922, veio nos colocar.

            Peter Bürger, em Teoria da Vanguarda,[5] nos fala da autonomia da arte que a vanguarda vem contestar, e que a arte é autônoma quando consegue se separar da vida, com a produção e recepção artísticas individuais. Ao mesmo tempo, se seguirmos o pensamento de Linda Hutcheon, encontramos que em Amar, Mário de Andrade dá voz a “personagens” híbridos que tanto seguem a cartilha modernista e de vanguarda na “ênfase genérica sobre o sujeito individual, a fala pessoal e o texto específico”, quanto aspectos do pós-modernismo no “interesse na cultura, no discurso coletivo e nos códigos semióticos ou nas convenções estéticas”:[6] um autor/narrador que constrói um livro, com parágrafos destinados à criação da personagem Fräulein e suas características físicas (se é gorda, magra, bela ou não) (p. 30); a distribuição dos exemplares, 51, do livro, quando um leitor é o próprio autor (p. 29); o dia em que “Fräulein apareceu diante de mim e se contou” (p. 58); o autor nos consulta, ele quer nossa participação; a governanta educa Carlos, a construção do amor pela governanta no seu pupilo para que ele não seja “levado” pela influência negativa do “grupo” de amigos. São características tão pós-modernas quanto modernas em um romance escrito por um dos criadores do modernismo brasileiro.

            Talvez seja esta a inquietação que Mário de Andrade sente ao final de sua carreira.[7] A inquietação de que algo lhe escapava no seu “jeito modernista de ser”. O “homem-do-sonho” de Mário se anunciava em sua própria escrita, além do “homem-da-vida” em que estava mergulhado na época do modernismo, além do seu tempo, além da matéria.

            Seria Amar, verbo intransitivo: idílio um romance pós-moderno?

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(1) ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo: idílio. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

(2) HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Tradução de Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

(3) Nos caminhos de um livro, Marlene Gomes Mendes in ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo: idílio.  Rio de Janeiro: Agir, 2008, pp. 9- 17.

(4) Vide “Sobre Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade”, Patricia Tenório. Fevereiro, 2013: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4496

(5) II. Sobre o problema da autonomia da arte na sociedade burguesa in BÜRGER, Peter. Tradução: José Pedro Antunes. São Paulo: Cosac Naify, 2012, pp. 73-104.

(6) HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Tradução: Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p. 275.

(7) Vide “Sobre Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade”, Patricia Tenório. Fevereiro, 2013: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4496

* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br