Entre Água Branca e Zabelê: A compreensão de uma paisagem*

Maria do Carmo Nino**

 

 

As viagens são os viajantes.

O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa

 

O poeta Fernando Pessoa nos lembra que a vida é o que dela fazemos, e é em nós mesmos que achamos os enigmas do mundo e também suas eventuais soluções. A motivação encontrada por uma artista para realizar sua obra tem a ver com o descobrimento, ao longo de toda uma vida, de quais são as necessidades intrinsecamente pessoais para preencher o campo de forças gravitacionais composto pelo simples fato de ele existir, pelo seu pertencimento ao mundo, quase como um confronto pessoal urgente e inadiável.

Dominique Berthé, artista plástica francesa radicada há vários anos no Recife, traz o apelo da viagem para sua própria vida e também no ato mesmo de olhar. Será por isso que ao conhecer seu trabalho me recordei de Francis Ponge, um poeta conterrâneo seu que nos sinaliza o entrelaçamento entre voyage e voir? O que dizer dessa artista senão que ela opera ludicamente um retorno da poesia por todos os meios expressivos que lhe são disponíveis, pela prática, pela observação e pelo verbo?

No projeto ABECEDÁRIO NORDESTINO, EXERCÍCIO DE ESTILO, efetivado através de uma bolsa do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, a artista cumpriu um impressionante itinerário de viagens de mais de 3.500 km por algumas capitais e cidades do interior do Nordeste brasileiro e coletou um material muito significativo e abundante de imagens de pessoas, lugares, detalhes e texturas, e parte deste rico conjunto foi mostrado na exposição ocorrida no Mamam em 2012, relacionada ao evento.

As regras gerais estavam estabelecidas desde o início desta aventura, embora incluísse, é claro, a possibilidade da flânerie e do prazer inconfessável do encontro fortuito: na ordenação das 26 letras do nosso alfabeto ocidental, delineia-se um dicionário amoroso barthesiano de fragmentos e memórias depuradas desses encontros e afetos que deveria se complementar no formato de um livro (ou vários deles), resultado das afinidades eletivas da acuidade do seu olhar ao longo dessa odisseia.

Lembremos que a história do dicionário aponta sobretudo para uma ambição iluminista, traz intrínseca a ideia de entendimento, de compreensão, palavra esta cuja etimologia nos indica a noção de apreensão, inclusão dentro do ângulo de visão, um prender com (consigo) que Dominique tem agora a possibilidade de compartilhar neste livro de formato panorâmico que o leitor tem em mãos. Mas o que nos traz mesmo Dominique sobre a sua vivência com a paisagem brasileira nordestina?

Uma paisagem no contexto da arte, ainda que pese sua associação a uma visão pictórica baseada na representação da natureza, está longe de ser reduzida a um dado mensurável e estável relativo ao meio ambiente e muito menos apenas no contorno morfológico de suas inúmeras concretudes. Vai além da simples morfologia de seu espaço, existindo em um entrelaçamento dinâmico sobre os olhares e as vivências das relações sociais que nelas se cruzam ininterruptamente. Natureza, história e mito se amalgamam, tendo a figura humana e sua experiência estética como cerne principal.

Nesta experiência vivenciada por Dominique, vemos que antes de tudo trata-se de uma paisagem que não se restringe à ideia de território, espaço, ambiente, natureza, mas encontrou sua plena razão de ser numa experiência fenomenológica, estesia completa em um confronto com todos os sentidos, em que as cores e os cheiros são sensações que permanecem na memória, e da qual a fotografia resultante é uma testemunha privilegiada. Revela assim sua relação com a arte, em que a criação se dá pelos sentidos, pela imaginação, razão e pelo trabalho.

É fascinante ouvi-la falar do processo de aquisição de cada uma das imagens, das histórias sobre os contatos com algumas pessoas a fim de conhecer dados pitorescos sobre costumes locais, conversas que aprofundaram a pesquisa linguística e constituem um fator importante para a posterior construção narrativa. No bem-humorado gosto pelo jogo e pela liberdade, o que se coloca é a própria ideia de criação poético-visual a ser estabelecida entre os nomes ou seus fragmentos, em que, via metalinguagem, o processo e os consequentes resultados passam a proposta de um desafio a ser resolvido pelo leitor.

Este livro/obra atua então para nós como um convite a uma viagem sem deslocamentos territoriais, ao abrigar fatos, detalhes e transformá-los em memória individual e coletiva, num fluxo contínuo e diário de consciência para um e todos. Como diria ainda Fernando Pessoa: “Viajar? Para viajar basta existir […] É em nós que as paisagens têm paisagem”.

 

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Extraído de Abecedário Nordestino: Caminho das Águas, Dominique Berthé. Recife: Zoludesign, 2014.

** Orientadora do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. Contato: carmonino@gmail.com

*** (1) e (2) Coqueiro Seco, Alagoas; (3) Mãe D’Água, Paraíba. Fotos de Dominique Berthé extraídas de Abecedário Nordestino: Caminho das Águas.