Um poema criativo* | Elba Lins**

“Com pedaços de mim

eu monto um ser atônito”

Manoel de Barros

Poesias Completas (Livro sobre o nada) Pág. 313

 

 

Com pedaços de mim

Eu monto um ser atônito

Que se espanta

Com os pedaços que sobem ao céu

Enquanto outros se enveredam pelo sombrio.

O azul da alma se mistura

Com o vermelho das emoções

Turbilhões

Que se espalham

Que se misturam

Que se afastam de mim

Círculos concêntricos a espalhar

Dor

Amor

Paixão

Pelo mundo

Até não restar mais nada em mim

E eu ser de novo

Azul

Meu inferno é querer ser teu céu

Quando existe um tão dentro de mim

É querer viver tuas emoções

Quando já não me sustento de tantas

Sou eu

Sou tantos

Pedaços

Que juntos

Me deixam atônita

Assustada com o que posso ser

Assombrada com o que quero tentar

Inteira, feita de mosaicos

Que tentam se adequar

Ao que penso ser eu

Tão diferente do que realmente sou.

 

(QUEBRA-CABEÇA, ELBA LINS, 16.05.2018, Lendo Manoel de Barros)

 

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* Poema inspirado no III Encontro em Escrita Criativa de Recife, temática A viagem, em 12/05/2018, com as escritoras Patricia Gonçalves Tenório e Fátima Quintas.

** Elba Santa Cruz Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há dois anos participa dos Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Gonçalves Tenório. Contato: elbalins@gmail.com

“BIUTIFUL” (de Alejandro González-Iñarritu)* | por Flávia Suassuna**

O filme “Biutiful”, de Iñarritu, é uma metáfora do humano; é a história de Uxbal, um homem que carrega todas as injunções de um homem – é bom e mau; erra e acerta; tem medos e coragens; ama e odeia; acredita e duvida; tem dons e faltas; sabe e ignora; explora e é explorado; tem culpas e perdões; é doce e violento; se comove com a injustiça e é um elo da corrente interminável de explorações do homem pelo homem; manda e desmanda; é amado e odiado; é forte e vulnerável; foi ceifado pela morte, como todos foram ou serão…

Uxbal é, portanto, uma metonímia – um homem que simboliza todos os outros no percurso da confusa existência material. Sua história se passa numa Barcelona estranha, talvez porque é uma outra e periférica cidade, não a que nos acostumamos a achar bonita ou digna de cartões postais: prédios decadentes, guindastes, apartamentos aos pedaços, entulhados de coisas velhas, ruas e calçadas esburacadas, moradores de rua, camelôs… fazem do cenário uma favela, palavra que resume, mais ou menos, aquela tragédia social. Logo nas primeiras cenas, somos informados de que Uxbal tem câncer e apenas dois meses de vida. E a narrativa é o retrato de seu desespero para ajeitar tudo antes de partir. Ele tem dois filhos, uma ex-esposa tão instável que não pode cuidar deles, um irmão que o trai e em cujos olhos nem consegue olhar e uma profissão que também é desestruturante: ele conecta duas pontas podres de atividades entre ilícitas e criminosas – entrega a imigrantes ilegais senegaleses CDs piratas e bolsas produzidas por imigrantes chineses também ilegais para serem vendidos nas calçadas, inicialmente, e, em seguida, agencia mão de obra escrava ou quase escrava (se é que se pode diferenciar os dois conceitos) para a construção civil. Tudo isso temperado com corrupção policial, uma pitada de tráfico de drogas e muita, muita injustiça. E muita, muita pobreza.

É claro que, na cegueira materialista em que vive, Uxbal pensa que juntar dinheiro é o que tem que ser feito, e suas ações nessa direção terminam por levá-lo ao fundo do pior abismo em que uma pessoa pode entrar. Sob o olhar atônito do espectador, o filme desenrola-se, de horror em horror, numa sequência crescente de conflitos, morte, assassinato, culminando num chacina inominável, perpetrada, direta ou indiretamente, por ele e que, por sua vez, se desdobra em mais e mais abjetas consequências. Acho que, de várias maneiras, “Biutiful” lembra “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, e seu espelho, o filme “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola. “Coração das trevas” é o melhor livro de Conrad. Publicado entre o final do século XIX e o começo do século XX, é uma narrativa, ambientada na África, que denuncia o engodo do Neocolonialismo europeu. Marlow, o narrador, mergulha nos meandros da selva do Congo e nas perversões mais profundas do projeto de exploração colonial, passando do enaltecimento da cruzada civilizatória inglesa para a verificação dos objetivos meramente econômicos e de dominação imperialista: exploração de fraquezas, trabalhos forçados, coerção, opressão, massacre, escravidão, desumanização, ruptura de laços sociais, preconceito… numa narrativa, ao mesmo tempo, imperialista e anti-imperialista. “Apocalypse now”, de 1979, transporta esse enredo para a Guerra do Vietnã e troca os interesses coloniais pela luta pelo poder mundial. Menos sutil, Coppola descortina a vantagem do dominador e, portanto, a injustiça e a crueldade daquela invasão, que mudou para sempre nossas relações com as guerras.

Rio acima, as palavras de um ou as imagens do outro relatam uma cadeia de horrores, enganos, fraudes… A lentidão do relato é em si uma crueldade contra os leitores ou espectadores. Busca-se alguém que se degenerou em qualquer coisa, exceto um homem. Navegar, portanto, é como viajar no tempo e voltar ao selvagem que o ser humano já foi; é constatar a fragilidade da civilização…

Em “Biutiful”, as trevas transferem-se da periferia do mundo para o coração da Europa. Sem o rio, segue-se a trajetória do protagonista pelas ruas de uma cidade europeia – qualquer uma – onde ainda estão presentes os fantasmas do processo colonial, até porque eles estão dentro do homem, que os carrega consigo em todos os tempos e lugares. Um lugar no fundo da selva ou os subterrâneos de uma cidade, na verdade, é a própria natureza humana, e o percurso que se faz é de corajosa prospecção ontológica; daí certa identificação espelhar: os narradores se identificam com o abominável ou é possível entender as trevas, que são apenas sugeridas. A selvageria não pertence apenas aos selvagens, mas a todos. E reside no interior, no porão.

O espectador de “Biutiful” entende e até perdoa Uxbal, pois reconhece que talvez fizesse o mesmo se fosse colocado na mesma situação.

Essa complacência inclui até o fato de que o personagem não segue as orientações de sua mentora, ou seja, a contemporaneidade é surda aos apelos do espírito. E segue, bruta, na gratificação sem limites dos desejos individuais e materiais, nas palavras do próprio Conrad.

Nas três histórias, porém, há uma narração invisível, quase – encarar tudo isso, de resto, resulta em autoconhecimento e só se transforma… entende… perdoa… ultrapassa… vence… sei lá… o que se conhece…

Aquela última imagem branca de neve e biutiful, que dá nome ao filme, é como sair da caverna; das sombras; dos porões imundos; do coração das trevas, não exteriores, como diz a Bíblia, mas interiores; das prisões da matéria e, enfim, seguir, com os nossos, em direção à paz e ao riso, deixando para trás essa cilada labiríntica que é a estadia material.

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* Texto lido por Flávia Suassuna no III Encontro dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, temática A viagem, em 12/05/2018.

** Flávia Suassuna é professora de literatura, escritora, mestre em teoria da literatura pela UFPE; autora de 6 livros – “Jogo de trevas” e “Remissão ao silêncio” (romances), “Trança, primeiro fio” (poesia), “Trança, segundo fio” (crônicas), “Trança, terceiro fio” (resenhas) e “Poesia em cena” (organização de poemas com comentários para uma antologia didática). Contato: flavia_suassuna@hotmail.com

Um conto heróico* | Gustavo Melo Czekster**

À moda de Xavier de Maistre

Porto Alegre, 16/05/2018

 

No meio da minha confortável cama (1), acordei. O despertador ainda não tinha tocado, podia ficar mais algum tempo. Mas o dia está recém no começo, um dia cheio de deliciosas aventuras (2), a me tentar longe da cama, e eu queria só dormir mais um pouco e… o despertador tocou: a aventura do cotidiano vai começar. Recuso-me a me levantar (3) – só mais uns 15 minutos, juro, depois levanto e corro para fechar os horários. Meu pai (4) entra no quarto: levanta, caro, tu vai te atrasar… Vamos, vamos, sai dessa cama, preguiçoso! Com muita dificuldade me levanto (5) e o frio da manhã de inverno me impele a voltar para cama, mas resisto: fico de pé e vou no banheiro. A água está fria, os dentes estão frios, a vida está fria (6): não quero sair. Vou ficar em casa. Mas, se eu não sair, a chance será perdida para sempre – sabe Deus o que pode me acontecer de bom hoje! Saio do quarto e vou até a cozinha (7) esquentar o leite, comer uma torrada, mas não tem leite, não tem pão (8), merda de vida (devia ter ficado na cama). A barriga ronca de fome. Vai ser uma manhã longa. Mas lembro que ontem comprei um pacote de bolachas recheadas e esqueci na mochila (9)! Estou salvo. Como a bolacha e espio o quarto (10). A cama parece tão convidativa… meu pai foi trabalhar, ele nunca saberá que fiquei em casa (11). Volto para cama, levando o pacote de bolachas junto: hoje eu me dou o dia de presente (12).

 

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* Texto escrito em 15 minutos no II Encontro dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre, temática A viagem, em 16/05/2018 e generosamente cedido pelo autor. Gustavo Melo Czekster utilizou os doze estágios da Jornada do Herói, que por sua vez foram tomados emprestados de Joseph Campbell por Christopher Vogler em A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores, e são: 1. Mundo comum; 2. Chamado à aventura; 3. Recusa do chamado; 4. Encontro com o mentor; 5. Travessia do primeiro limiar; 6. Testes, aliados, inimigos; 7. Aproximação da caverna oculta; 8. Provação; 9. Recompensa (Apanhando a espada); 10. Caminho de volta; 11. Ressurreição; 12. Retorno com o elixir.

** Gustavo Melo Czekster (Porto Alegre/RS, 1976) cursou a Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil em 2000 e a de Léa Masina em 2001. É advogado, mestre em Literatura Comparada pela UFRGS, e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS. Em 2011, lançou o livro de contos O homem despedaçado (Dublinense) e em março de 2017, o livro de contos Não há amanhã (Zouk), vencedor do Prêmio Açorianos 2018, categoria contos. Contato: gusczekster@gmail.com

Índex* – Abril, 2018

O mito

Abriu as portas

Do meu coração 

Aflito

E fez explodir 

As cores do

Arco-íris 

O ritmo do

Tambor

Até acalmar

E acalmando

Esse longo

Corpo

Que se chama

Amor

(“Abriu as portas do infinito”*, Patricia Gonçalves Tenório, 07/04/2018, 15h30)
* Após o II Encontro dos Estudos em Escrita Criativa – Recife – PE.

 

As portas infinitas da Escrita Criativa no Índex de Abril, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre – Abril, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & convidados.

POR QUE RAIMUNDO CARRERO | Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Poema de José Mário Rodrigues (PE – Brasil) enviado por George Barbosa (PE – Brasil).

Uma promessa de amor | Mara Narciso (MG – Brasil).

E muito obrigada pelo carinho e participação, a próxima postagem será em 27 de Maio de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – April, 2018

 

The myth

Opened the doors

From my distressed

Heart

And made it explode

The colors of the

Rainbow

The pace of the

Drum

Even calming

And soothing

This long

Body

That is called

Love

(“Opened the doors of the infinite”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/07/2018, 3:30 p.m.)

* After the II Encounter of Studies in Creative Writing – Recife – PE.

 

The infinite doors of Creative Writing in the Index of April, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – Recife and Porto Alegre – April, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & guests.

WHY RAIMUNDO CARRERO | Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Poem by José Mário Rodrigues (PE – Brasil) sent by George Barbosa (PE – Brasil).

A promise of love | Mara Narciso (MG – Brasil).

And thank you very much for the affection and participation, the next post will be on May 27, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Sonho de Ícaro”, de Biafra. “Icarus Dream”, from Biafra.

Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre – Abril, 2018

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De 1902 a 1907, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, reunia, nas quartas-feiras à noite, em sua residência na Berggasse, 19, discípulos, pares, educadores, intelectuais, tais como Otto Rank, Alfred Adler, Max Graf, Wilhelm Stekel e Max Kahane. Este grupo cresceu e deu origem à Sociedade (Associação) de Psicanálise de Viena.

Nesta quarta 25/04/2018, sob as bênçãos de um dos baluartes da Escrita Criativa do país, o escritor e professor da PUCRS Luiz Antonio de Assis Brasil, inauguramos uma ponte entre duas das cidades mais ricas em escritores: após os dois encontros em Recife, tivemos o primeiro encontro dos nossos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre.

Como havíamos imaginado, a busca por cursos no formato dos EEC’s superaram nossas expectativas e nos animaram a continuar no caminho dos teóricos de várias áreas de conhecimento e artistas de outras artes relacionados a cada tema, do exercício prático provocado, iluminado pela teoria, e dos testemunhos de escritores locais sobre seus processos criativos.

Trazemos para o nosso blog neste post alguns exemplos de textos dos participantes das duas cidades.

E, quem sabe, formemos, em um futuro breve, a Sociedade Brasileira de Escrita Criativa?

Agradeço o carinho e a força de cada participante, escritores e escritoras convidados, grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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DITIRAMBO PARA O RENASCIDO

Antonio Aílton

Contato: ailtonpoiesis@gmail.com

 

 

Noite após noite me despedaço

e desespero, desmembrado

como um copo de vinho que serve ao

desregramento

e depois se quebra no cimento

vaza no tempo, para um tempo

antes de mim

Ali na rua há um lamento

e me pergunto

se sou vítima ou assassino

se sou o lance sem jogo do mendigo

Há uma lua, mas o que todos vêem

senão o sangue antigo? E no entanto

eu não seria

se não pudesse renascer, mesmo

quando lixo, cão mordido

Em breve estarei inteiro

para enfrentar o carro de Apolo

junto com as abelhas, as mulheres

os campos, os girassóis

Eu, taça reerguida quando vinho

e mosto renascido

− Dioniso

 

 

[Desafio 15min]

II Encontro dos Estudos em Escrita Criativa

Recife – PE, 07 de abril de 2018

 

NA FLOR DA VAIDADE

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

 

Olhei nas águas límpidas daquele rio. Minha haste envergou um pouco. Contorcidamente descobri não ser mais aquela… Meu Deus! Uma simples margarida presa à terra, subjugada a uma condição inusitada, enraizada! Aprisionada no tempo e no espaço, tudo por conta do orgulho…

Desejei ser algo mais, muito maior que Deus, que os outros? Encantei-me com a cantiga maviosa do mundo dizendo ser eu tão especial… Agora, na simplicidade da flor, na maturidade da vida, despetalo-me toda.

Logo, descubro que o exercício da escrita fez-me voltar a quem sou e posso repensar sobre a vaidade. Sair um pouco do foco do espelho, voltando a ser no mundo uma simples flor.

 

Recife, 7 de abril de 2018.

 

SALOMÉ

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Mãe!

Tu me pedes, me imploras

Uma dança para o Rei.

Queres que, com meus encantos

O conquiste para ti.

Queres que eu ajude

A tirar do mapa Batista.

 

Bem sabes que

Com minha dança

Ele, o Rei,  que já rodeia meus passos

Será meu em definitivo

E a cabeça do Batista

Não te trará de volta

Um amor que será meu.

 

Mas, tenho em mim a chave

Que abrirá  as portas desta prisão

Minha vingança será maior…

Cada véu que retirar do meu corpo

Será a corda

Que tirará Herodes, deste mundo.

E finalmente dançarei…

Para o Batista,

Que já ocupa minha alma.

Para o Batista,

Que não se deixa seduzir.

Batista, cuja alma etérea flutua no espaço

E me conduzirá enfim

Para o caminho de volta a mim mesma.

 

Qual Medéia às avessas

Engolirei as tramas da minha mãe,

Através da minha própria trama saturnina.

Reinarei noutro reino diferente do teu,

Tirarei, não tua vida

Tirarei de ti a morte

Que não pode roubar a minha vida.

 

Recife, 07/04/2018

 

Gabi Vieira

Recife, 07/04/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Todas as crianças crescem, menos uma.

E todas as crianças ouvem essa mesma história, quando ainda deixam a janela destrancada na esperança de que um menino sapeca e sorridente venha buscá-las e levá-las para o lar de seus sonhos, voando nas costas do vento.

E, muito provavelmente, todas essas crianças desejam ser como ele, livres para voar com as fadas, nadar com as sereias, dançar com os peles-vermelhas ou enfrentar piratas. Livres para viver na Terra do Nunca, acompanhando os Meninos Perdidos em incontáveis aventuras.

Afinal, que criança nunca sonhou em ser Peter Pan?

Fugir das obrigações, da escola, das exigências dos pais e, principalmente, do medo de tornar-se um adulto, esquecendo-se do como voar. Porque, quando se cresce, se esquece do como voar. Adultos não têm a alegria, nem a inocência das crianças. Nem se quisessem, poderiam alçar voo.

Porém, não posso deixar de me questionar, a quase adulta que sou, do modo que já fez J. M. Barrie, se o próprio Peter não desejava ser como as outras crianças, as crianças comuns. Ele possui alegrias que essas crianças nunca poderiam ter, mas, ao observá-las no cantinho da janela de seus quartos, enquanto eles brincam com o pai ou são postos para dormir pela mãe com beijos e abraços, observa também a única alegria que nunca poderá ter.

Mesmo assim, ele volta para casa, acompanhado da fiel amiga Sininho, voando com o vento e deixando um rastro de risada por onde passa, como faz a cauda das estrelas cadentes.

Porque todas as crianças crescem.
Menos uma.

 

Giliard Barbosa

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: barbosagiliard@gmail.com

 

Onde estás, criança?

 

Carrego comigo teu cesto vazio

As uvas que sorverias

Ácidas estão

 

Onde estás, criança?

 

A areia da praia a demarcar teus passos

A água marinha a irmanar feridas

 

Onde estás, criança?

 

De meu próprio barro dei-te forma e luz

Das dores profanas és a mais contumaz

 

Onde estás, criança?

 

Raízes formei em meio às dunas

O vento já leva o que de ti ficou…

 

Onde estás, criança?

 

Um lago se forma onde nos perdemos

A rosa dos ventos parou de girar

 

Onde estás, criança?

 

Já não há mais remos nas águas do tempo

Já não há areia que deseje o mar…

 

Onde estás, criança?

 

Perdi-me no tempo a mirar espelhos

Perdi-me de ti, perdi-me do mar…

 

Onde estás, criança?

Onde estou?

 

Ina Melo

Recife, 07/04/2018

Contato: ina.melo2016@gmail.com

 

Ao criar o mundo, Deus ante toda aquela grandeza, vislumbrou ao seu redor e sentiu-se só. Até para Ele o silêncio e a solidão sufocavam.  Mesmo vibrando com o cantar dos pássaros, o ruído das selvas e o silvar dos ventos, faltava a palavra – uma voz! Então, no imaginário masculino, arrancou de Si uma costela e criou Eva. Linda, pura e falante. Agora não mais era um, porém dois. Deixou-os donos do Paraíso.  O amor surgiu das pequenas fagulhas de fogo que ardiam nas cinzas. Mas Eva descobriu a vaidade vendo a  sua imagem refletida nas águas transparentes. Depois encontrou o sonho e dele se embriagou. Via as borboletas e quis voar. Conhecer o néctar das novas flores. Mergulhar em mares bravios! E assim foi se afastando do amado. Esqueceu de que, para ser feliz, teria que compartilhar emoções.  Foi quando o Paraíso escureceu e o céu começou a lançar raios de fogo gritando forte, estremecendo árvores. Águas inundaram os prados. Eva procurou abrigo nos braços do amado e não o encontrou. Tremeu de medo.  Inquietou-se. Correu debaixo da tempestade e foi para o mais alto rochedo e lá abrindo os braços respirou e com asas de plumas voou. Primeiro não encontrou nada diferente. O mundo era igual e o mar também.  Quando não era dia, era noite. A mulher Ícaro viu que o sonho não existia, era apenas poesia!

1523195949640-1859548090

 

 

VOAR… VOAR…

João Orlando Alves

(Membro da UBE-PE)

Recife, 07/04/2018

Contato: joaoorlandoalves@yahoo.com.br

 

“Um pouco de persistência e esforço e o que seria um

retumbante fracasso vira um glorioso sucesso”

(Elbert Hubrard – Escritor Americano)

 

O grande momento da criação externa-se quando o hábil executor em movimentos à busca da perfeição, de súbito, por um acaso ou gesto imperfeito, a arte se pronuncia em toda beleza, exprimindo um querer que estava oculto.

Na aventura de Ícaro olvidou-se do martelar insistente que trabalha a forma da existência da obra. O dar asas à imaginação envolve um “estalo” espiritual que compreende uma produção sublime com mistérios e marcas do tempo.

Faltou a Ícaro, sem ouvir o canto da sereia, transmudar-se num pássaro ou no homem de aço e exercitar o sonho do gênero humano.

Encantar-se com as aves, dominando os céus, não basta, urge descobrir-se inteirado no projeto do desejo; deixar-se encontrar como no retrogosto de um trago de bebida que se assoma com essencialidade.

O voo desse vivente fora eterno enquanto durou o sonho; ousar é recomendado, mas a escolha recaindo no tempo enquanto tempo de amar.

 

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Espelho, espelho meu,

Quem é mais lindo do que eu?

 

Inquieto,

me debruço sobre a água.

 

Silêncio…

 

A imagem tortuosa não é bem o que eu imaginava.

Jogo uma pedrinha na superfície,

que afunda.

 

Círculos movimentando a imagem,

como quebra-cabeça.

 

Em partes.

 

Facelado.

 

Sequelado.

 

Olho ao redor da imagem daquele rosto

agora já não tão bonito…

e vejo a natureza.

 

Interagindo forte,

bonita,

inteira.

 

Esta sim, em conjunto com a minha imagem, forma uma beleza única. Completa. Viva.

Me levanto e vou aproveitar aquele belo momento, pleno, que me transmite paz.

 

 

SOU PÁSSARO

Monique Becher

Recife, 07/04/2018

Ícaro - Monique

 

O amor se apodera do meu ser qual luz do sol ou piscar de estrelas.
De tão natural, sinto-me singela,
translúcida.
Minha cabeça levita.
Delicio-me com este sentimento
mitológico dos seres felizes.
Sou esvoaçante qual Ícaro.
Minhas asas diáfanas conduzem-me ao etéreo.
Sou possibilidades.
Multiplico-me.
Alço voos inimagináveis.
Vivo amores perfeitos.
Conduzo-os ao infinito do
horizonte.
Minhas vestes translúcidas
r o d o p i a m .
Seguem as curvas do vento
num b a i l a d o  m á g i c o
regido pelo s u s s u r r o
das palavras
Voláteis
E   N   A   M   O   R   A   D   A   S
Esta musicalidade me fascina.
Paira no espaço.
E  T E  R  N  I  Z A – SE  …
No meu SER.
Os segredos dos pássaros livres
proclamam a independência.
S O U   P Á S S A R O !!!
Decifro os enigmas humanos.
Fito o horizonte.
V I S L U M B R O   D   E   U   S
Fujo de mim mesma.
Encontro-me no reino mágico
do reflexo
do meu espelho
VITAL.

 

 

Rodrigo Ribeiro

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: digocr@gmail.com

 

Édipo briga com o homem na estrada, mas na iminência de matá-lo lembra da esfinge, enxerga o destino prestes a acontecer e conclui que aquele só pode ser seu pai. Se conciliam. O pai, agradecido por ser poupado e vendo-se mais velho, resolve exilar-se nas montanhas para sempre, a fim de evitar a tragédia.

 

Da mesma forma, ao querer casar com a mãe, identifica-a justamente por reconhecer a premonição. Desistem do casamento.
Mesmo com o pai longe, Édipo vive transtornado por saber que não poderá contrariar a esfinge: um dia irá matá-lo. Está sempre atormentado sobre como isso acontecerá, medindo todos os passos, sentindo angústia insuportável. Para se libertar desta prisão mental, manda matar logo o pai.
Em vez do alívio que desejava, agora ele passa a estar perturbado pela ação hedionda que tomou, e se torna uma pessoa ruim. Por ganância, quer ser rei, mas as pessoas não acreditam que ele é filho da rainha. Então, para ter poder e fortuna, casa-se com a mãe.

 

Sala de imprensa:

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Diário de Pernambuco, Opinião, 19/04/2018

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Diário de Pernambuco – Viver – 23/04/2018

Próximos encontros:

Cartaz A3

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre

 

 

 

POR QUE RAIMUNDO CARRERO | Flávia Suassuna*

Falar sobre Raimundo Carrero é uma tarefa desnecessária: nós todos o conhecemos bem, ele é dos nossos. Mas é claro que se pode conversar sobre ele, para mais nos conhecermos uns aos outros. Como não posso deixar de ser a professora de literatura para jovens que sempre fui, me arvoro do direito de dar uma aula de literatura para começar a organizar as ideias. Acho que preciso começar falando do Regionalismo e suas “faces” na literatura brasileira, para iniciar pensando o que Carrero não é.

Na verdade, o Regionalismo brasileiro nasceu romântico, fruto da necessidade de busca da identidade nacional, um longo e árduo percurso histórico ainda em curso, é claro. O processo colonial e todas as suas injunções criaram dificuldades inomináveis para o projeto de independência política e, consequentemente, cultural do país. Durante 300 anos, o Brasil não passou de um apêndice de Portugal, que, aqui, detinha poder absoluto.

Em 1822, uma série de episódios culminou com a Independência. No âmbito da cultura, coube ao Romantismo a tarefa de construir a correspondente independência cultural e, portanto, a consciência e o orgulho da nacionalidade. Nessa altura, o Brasil ainda tinha o “álibi” do processo colonial, ou seja, tudo o que havia de errado, aqui, devia-se à instalação, entre nós, desse pacto injusto e desfavorável: escravidão, atraso, dependência… Descortinava-se, então, no horizonte, um futuro grandioso – estávamos livres da “mala sem alça” que nos condenava ao negativismo e à vergonha de ser colônia.

Nesse contexto, o Romantismo descreveu o Brasil de modo idealizado. Florestas virgens, praias de areias brancas, mares verdes como esmeraldas líquidas, fauna ímpar (araras, jandaias, onças…), clima bom, céu de anil… Nesse verdadeiro paraíso terreal, colocou-se um habitante forte, orgulhoso, perfeito, bonito, bom, heroico. É nesse berço que nasce o nosso Regionalismo, filho do escritor cearense José de Alencar.

Nosso primeiro escritor de âmbito nacional, Alencar planejou sua obra, no sentido de construir um painel histórico-cultural do país. Ambientou livros nos séculos XVI, XVII, XVIII e no seu próprio tempo (primeira metade do século XIX), pois pretendeu descrever o país de cabo a rabo. Percorreu sua História, descreveu suas geografias, inventou o índio como herói necessário (o elemento que estava aqui antes de o português chegar; portanto, o mais genuíno brasileiro) e visitou as suas “sociologias”. Foi no projeto dessa brasilidade que nasceu o seu Regionalismo, o qual mencionou tanto o sertão nordestino como os pampas gaúchos, dentro, é claro, desse mesmo diapasão idealizante – paisagem e homem são igualmente perfeitos.

Nos caminhos abertos por ele, o carioca Alfredo Taunay, descrevendo o Centro-oeste, e o cearense Franklin Távora, o Nordeste, proporcionaram ao país uma visão de si mesmo, necessária à construção do conceito de pátria que nascia.

Esse Regionalismo romântico não deixa de ser uma espécie de escapismo no tempo e no espaço; tem a ver com um desejo de compensação e fuga da realidade, típico do Romantismo, somado a uma necessidade de representação desse novo espaço social e político que se desenhava no Brasil – o país livre. Constrói-se pela supervalorização do pitoresco, da “cor local” (como diz a crítica). Ou seja: o Romantismo agrega à região valores, cores, sentimentos e qualidades que, na verdade, não lhe pertenciam, mas à cultura que nascia e precisava deles para crescer. Paralela à hipertrofia imagística e estilística, uma complacência com os aspectos negativos das respectivas regiões aparece, e somente é mostrado o seu lado positivo.

O tiro pela culatra desse Regionalismo é que ele beira a xenofobia.

No final do século XIX, o Regionalismo muda de roupa: despe-se do saudosismo, do escapismo e da idealização românticos para ganhar os contornos deterministas e cientificistas do período – o herói ganha estatura trágica, pois luta contra um ambiente inóspito e adverso que o vence, necessariamente. É o caso de outro cearense, Domingos Olímpio.

Mais tarde, já na década de 30 do século XX, o Regionalismo reaparece, no formato modernista; escrito numa linguagem e numa forma francamente antitradicionalistas, ele mantém a linha de determinação ambiental do século anterior e acrescenta à “receita” uma visão de esquerda, a princípio, que depois deságua em denúncia das questões sociais e políticas regionais, potencializadas pelo clima, quadro típico do Nordeste brasileiro. Observe-se que o Regionalismo, aqui, denuncia a estrutura agrária latifundiária, uma persistência colonial que resiste à modernização do país prometida pela Revolução de 30. A narração do confronto entre opressores e oprimidos ou entre adversários políticos esclarece o desenho dessa combinação explosiva de injustiça climática e política para o resto do país, que tinha curiosidade sobre essas especificidades (coronelismo, seca, retirada, messianismo, cangaço, latifúndio, patriarcalismo…).

Os paraibanos José Américo de Almeida e José Lins do Rego, a cearense Rachel de Queiroz, o alagoano Graciliano Ramos e o baiano Jorge Amado descrevem, a partir de várias perspectivas, um tempo de mudança, quando o país tirou o poder da mão dos proprietários de terra e o colocou na dos comerciantes, revirando a região e mesmo o país de ponta-cabeça. Esses escritores analisam, explicam, levantam causas, hipóteses, efeitos dessas transformações e o fazem por meio de um retrato realista e mesmo até naturalista da região. Com aspereza, saudade ou maciez, fotografam um mundo em mudança enquanto apresentam ao Brasil a região que deu o estopim da Revolução de 30.

Nesse momento, acham-se já delineados todos os “ingredientes” daquilo que se entende por Regionalismo, que tira sua substância não só da paisagem (clima, topografia, flora, fauna, elementos que afetam a vida humana na região…), mas também das riquezas culturais ou maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra (linguagem – modos de expressão nativos e populares, ritmos e sotaques diferentes; reações dos indivíduos; tradições; cultura; civilização; etnia; formas de cozinhar, vestir, morar; lendas; mitos; tipos; imagem; simbologia…).

A partir da publicação do colosso “Grande sertão: veredas”, do mineiro João Guimarães Rosa, desenha-se um novo Regionalismo na nossa literatura – o Regionalismo universalista, se é que se pode juntar as duas “palavras”. Tornado uma metonímia do mundo, o sertão de Minas Gerais, nessa obra, mantém suas especificidades, milimetricamente descritas no livro, mas ganha também contornos filosóficos, quando se torna o “mundo” ou o planeta onde se passa a vida dos homens. O narrador desse livro luta com as palavras escritas e faladas, e tudo o mais que se possa imaginar de experimentalismos e invencionices linguísticos, para contar sua história que pretende ser, espelhando a Bíblia, “a” história ou as histórias de todos os homens, na sua errática e difícil trajetória material. Também aqui se “encaixa” o paraibano Ariano Suassuna, cuja obra está contida nesse espaço tanto regional como humanístico.

É depois de Guimarães Rosa e Ariano Suassuna que está a obra do pernambucano Raimundo Carrero – nesse “locus” que não é mineiro nem pernambucano, nem paraibano. Mas tudo isso e mais coisas além.

Entretanto, não se pode dizer que Carrero é um escritor regionalista, como ainda se pode afirmar sobre Guimarães Rosa e Ariano Suassuna. Ele localiza suas histórias em lugar nenhum − com o homem dentro, sem livre arbítrio, carregado por um destino implacável, totalmente diferente do de Guimarães Rosa, cujo personagem Riobaldo, por exemplo, escreve (ou fala) e se escreve ou reescreve e reconstrói sua história ao longo do livro. Esse personagem é autor de sua narrativa e de sua vida; fez conscientemente suas escolhas, experimentou, pensou, refez caminhos e, na narração de sua vida, entende, explica, pensa, opina, analisa, analisa-se… Ariano também: na sua obra, no fim, Deus justifica, ordena e explica tudo, perdoa tudo; a ontologia esperançosa dos seres humanos é sua redenção… Em Ariano, tudo tem um sentido espiritual: os seres humanos encontram sua verdadeira natureza depois da morte.

Carrero não tem o olhar otimista de Guimarães Rosa, nem a aflita mas esperançosa visão de Ariano Suassuna: ele nos descortina o pior do ser humano – incesto, traição, estupros, assassinatos, tortura, loucura, exercício espúrio do poder, inversão de valores – em comportamentos incompreensíveis e inexplicáveis. Todos esses temas estão presentes em Guimarães Rosa e Ariano Suassuna, é verdade. Ou em qualquer grande escritor. Mas, em Carrero, não há sentido, nem perdão, nem redenção, nem esperança, nem explicação. Só, como diz João Guimarães Rosa, “o escuro, escuros”: Carrero não nos dá o alento de uma explicação, de um sentido; seus curtos romances terminam sem fim, seus personagens não se entendem, nem se explicam. São mamulengos de seus instintos animalescos e de forças inconscientes e ininteligíveis. São presas dramáticas do destino. Sua “acomodação” num enredo sem referências de tempo e lugar, numa ambiência fantasmagórica parecida com a das tragédias gregas antigas, obriga-os a agirem sem entender suas próprias ações. E isso tudo nos carrega para “trás” dos poucos acontecimentos, onde estão localizadas as forças animalescas e brutais, próprias daquela natureza que todos sabemos que temos, mas que decidimos esconder no curso de nosso processo civilizatório.

Como num jogo de cartas em que nada se pode prevenir, alguns dos seus personagens são empurrados para experienciar o Mal que existe em si mesmos e para materializar as mais sórdidas e estapafúrdias ações, as quais nunca surpreendem os outros, pois de cada um ou de todos se esperam apenas brutalidades e violências.

Inicialmente localizado por Ariano Suassuna no Movimento Armorial (que reconfigura o popular regional imbricando-o com o erudito, numa ludicidade que se fortalece no casamento entre forma e conteúdo), Carrero, na verdade, nem se compromete com a região Nordeste e o popular, nem com a tradição temática erudita, muito menos com a exuberância linguística e descritiva de Suassuna. Ao contrário:  sua linguagem lacônica e claudicante, cheia de pontos finais, nos obriga a parar o tempo todo e a respirar curto, como depois de correr, o que expande o paroxismo do conteúdo.

Embora sua ambiência, sua temática e sua linguagem sejam essas, Raimundo Carrero não está só − é herdeiro de uma linha que quebra o beletrismo de nossa tradição literária; Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos ou mesmo João Cabral de Melo Neto são companhias mencionáveis, em virtude do fato de suas obras quebrarem o conceito de “lírico”, “belo” e “lógico”, à proporção que inauguram, a seu modo, novos conceitos de belo. Como eles, Carrero quebra expectativas e conceitos, tematizando as profundezas humanas num tempo que quer apagá-las.

Vem daí a verdadeira utilidade de seus textos nesses tempos politicamente corretos e simplificadores, tão contrários à literatura e suas funções mais escondidas, porém não menos importantes…

Esse “fogo amigo” do politicamente correto não é o primeiro inimigo da literatura: a religião talvez a tenha perseguido de início; depois foi a vez dos totalitarismos todos – de direita e de esquerda, infelizmente – que impuseram ou tentaram impor a ela censuras, fogueiras, exílio e toda sorte de mordaça… Mesmo nas democracias, houve impedimentos ao exercício pleno de todas as suas potencialidades. Mas nelas pelo menos se podia arengar e, paulatinamente, avançar na direção da ampliação da liberdade de expressão. E permanecer vivo. Que o diga Flaubert. No fundo, uma democracia precisa tolerar dissidências, sob pena de não poder ser considerada como tal.

Nascido da mais improvável brecha da democracia, o politicamente correto é uma espécie de cartilha (ora visível, ora invisível) que direciona como se deve falar ou escrever o que se quer falar ou escrever. Por incrível que possa parecer, esse comportamento existe – circula pelo WhatsApp, por exemplo, um “Manual para o uso não sexista da linguagem”. Difícil de ser questionado e relativizado, o politicamente correto carrega as melhores intenções. Mas é daquelas questões que terminam batendo no inferno pelo caminho das fórmulas dogmáticas e simplistas.

O problema que o politicamente correto tenta resolver é bem preocupante: há um empobrecimento dos sujeitos que se projeta no empobrecimento da linguagem. Jornalistas, professores, alunos, técnicos que projetam políticas educacionais… pretendem simplificar o aprendizado de língua no afã de democratizar a Educação. Nesse contexto, a sugestão, a conotação, a polissemia e a ironia, por exemplo – em última estância, uma espécie de tecnologia de ponta da comunicação – passaram a ser ferramentas mal conhecidas ou desconhecidas e, sem elas e sem o exercício de abertura dos sentidos que elas possibilitavam, a comunicação travou. E se fechou à alteridade, às nuances, às discordâncias, à complexidade, nossa mais primeira e tão esquecida característica. Tudo isso junto impede a reflexão. Por conseguinte, a razão invisível da simplificação mais inaceitável foi tomando corpo e realizando a afirmação infantilizada de uma verdade escrita em cartilhas que não traduz a heterogeneidade e a complexidade de nossa ontologia; e, portanto, de nossos pensares e sentires e falares e saberes…

A aceitação cega desse comportamento escamoteia uma colonização difícil de invisível. E nos divide em “bonzinhos que falam certo” e “mauzinhos que falam errado e por isso devem calar”. E nos subdivide em dois times de estátuas que se olham e se odeiam. Bataille e Freud já alertaram para o perigo disso: há uma diferença significativa entre ter feras visíveis, estudáveis, estudadas, pensadas, faladas, espetacularizadas na literatura (ou num zoológico ou num circo como metáforas) e soltá-las entre pessoas: é a diferença entre a convivência minimamente possível e a barbárie.

Aquilo sobre o qual não se fala não desaparece – fica ali “nos crespos do homem”, conforme diz João Guimarães Rosa, e pode nos assaltar de repente. A literatura, portanto, seria uma prevenção contra esse “invivível”; ela elabora o conteúdo desses crespos ao passo que impede que ele se materialize em perseguições e assassinatos e violências de verdade; ela permite a ressignificação desses crespos de modo a tornar a nossa vida social possível, mesmo que não perfeita, o que de resto ela nunca será.

Carrero não é politicamente correto. Ele fala de assuntos ofensivos, é verdade.  Entretanto exercita a nossa capacidade de ouvir o que gostaríamos de silenciar; instiga-nos a mensurar o tamanho de nosso apreço à liberdade de expressão e desafia as nossas negociações tão difíceis nos terrenos da comunicação; convida-nos a enfrentar a vida (e seus inerentes medos, dificuldades, dores, tristezas, perdas, alegrias…) e a nossa ontologia e sua natureza sem nome de tão complexa e profunda. É desses escritores cuja leitura nos faz recuperar esse conteúdo sufocado (não perdido, nem apagado) pelo processo de civilização. E o melhor: nas palavras, podemos ressignificá-lo sem correr riscos, nem derramar sangue.

Quem pensa que a arte deve se tornar politicamente correta não pensa: ameaça sufocar tudo com a fumaça de nossos crespos, por falta de cano de escape. E nos empurra no abismo de realizarmos a barbárie, não nas palavras, mas no real. Uns contra ou outros… Como deve ter acontecido com nossos ancestrais pré-históricos, quando ainda estava por nascer isto que chamamos de “humanos”.

Francamente não sei como terminar este texto com tantas ideias. Talvez com uma frase do crítico literário português Jacinto Prado Coelho, que disse não ser a literatura uma ferramenta para ensinar. E sequencia: “é a reflexão sobre a literatura que nos ensina”. Portanto, agradeço a Raimundo Carrero, que me ajudou, com seus textos e seus temas, a pensar nos motivos conscientes e inconscientes que me levam a olhar o politicamente correto com um pé atrás, a defender sempre a irrestrita liberdade de expressão e a justificar a literatura como um bem irrenunciável que nos auxiliou a chegar até aqui – neste tempo em que, apesar das náuseas referidas, começamos a falar e a pensar em tolerar a diferença e aceitar a diversidade. Tudo isso são palavras, ainda ameaçadas com armas e, mais recentemente com leis, é bom lembrar…

Enfim: cada palavra dessas é uma flor. Incompleta e feia, é verdade. Mas é uma flor.

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* Contatoflavia_suassuna@hotmail.com

Poema de José Mário Rodrigues enviado por George Barbosa*

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* Contatogeorgebarbosa52@yahoo.com.br

Uma promessa de amor | Mara Narciso*

22 de abril de 2018

No dia quatro de março de 2018 nasceu Frida, filha de Ana Flor e de um pai mestiço, meio poodle. Desde que a mãe nasceu, há uns quatro anos, foi-me prometido um filhote. Mas tive de esperar, pois a cachorrinha poodle branca de Tia Áurea teve apenas um cachorrinho. Desta vez, deu certo. Foram quatro filhotes fêmeas, sendo duas brancas e duas pretas. Escolhi uma preta e dei o nome de Frida. Logo que soube do nascimento, começamos a romaria. Toda semana, uma visita, um carinho na mãe e nas filhas, para que nos fôssemos acostumando.

À medida que as cachorrinhas foram crescendo, o espaço exigido para o ninho foi aumentando. Ana Flor, uma grande mãe, aos poucos foi lhes dando autonomia. Vi a amamentação, acompanhei o desenvolvimento. Com duas semanas foi-lhes cortado parte do rabo. Eu não queria. Com 44 dias foi-lhes dado o 1º banho, com direito a foto e laço de fita. Com 45 dias, foi o dia da 1ª vacina. Frida se comportou bem, mas teve uma febrezinha. Tia Áurea tem habilidade e know-how, porque criou muitas ninhadas. Conhece os bichinhos e os ama como ninguém.

O dia 21 de abril foi completamente diferente. A casa perdeu sua rotina e foi criada outra. Eu nunca tive cachorro, pois morei 26 anos em apartamento pequeno, e fui casada com alguém que não gostava deles, então, com boa expectativa fomos, Fernando, meu filho e eu buscar a cachorrinha. Acordei três vezes à noite, preocupada com a ruptura afetiva de Frida. Largar a mãe, as irmãs, o ninho e Tia Áurea cuidadora. Estou cheia de receios. Além do filhote, ganhei caminha, cobertor, pratinho e ração, além de orientação sobre xixi e cocô, jornal, brinquedos, vacina, essas coisas.

Tudo estava preparado para recebê-la, como quando a gente traz para casa um neném recém-nascido. Segurança é primordial. Já tinha imaginado colocar o cantinho dela no quarto em frente ao meu. Como tenho asma, não vou deixá-la dormir comigo e nem subir na cama. Não sei se vou levar adiante esta decisão, pois ela é apenas um neném.

Passamos num armazém para pegar uma caixa para colocar a caminha dentro. Conselho de Tia Áurea, que não acha conveniente comprar uma casinha. Quando chegamos em casa, abri o portão, entramos, Fernando desceu com ela, ajoelhou-se e explicou que aquela era a sua nova casa, porém, quando a colocou no chão ela começou a chorar. Eram nove e meia da manhã, mesmo horário em que meu filho nasceu. Tinha logo um e depois três degraus impossíveis para ela. Foi colocada sobre o assoalho encerado e ela deslizou para trás. Estava insegura, trêmula, com medo. Logo começou a soluçar. Foi quando me decidi a deitar no chão ao lado dela e fiquei enroscada por um tempo, para acalmá-la e mostrá-la que não havia motivo para insegurança. Trouxe a cobertinha e em poucos minutos ela foi relaxando, mordeu a ponta do tecido e cochilou com seu rosto sobre ela.

Duas horas depois montei sua caminha dentro da caixa deitada de lado, coloquei água que ela tomou logo, e após muito carinho, acabou dormindo por meia hora. Mas começaram os problemas: formiga na ração, um xixi a cada hora. Depois cocô, em seguida uma raivinha, novo soluço e começou a roer a caminha, e depois o jornal e as franjas da colcha da cama. Ela estava insatisfeita e eu tentando entendê-la. Estou contando minhas emoções, que são também dela. O que a faz se sentir segura é o contato com o corpo, ficar no colo, aconchegar-se aos nossos pés. Assim, parece sentir menos a falta do contato físico com a mãe e as irmãs. Logo estava vencendo os degraus.

A 1ª noite foi como um plantão na maternidade. A toda hora um choro. Tive de me levantar cinco vezes para acalmá-la, agasalhá-la, aconchegá-la, niná-la. Esperta, aprende rápido e logo deduziu que eu estava sobre a cama. Dava latidos e saltos tão altos, que seriam dignos de uma competição de decibéis para quebrar cristal como também de salto em altura, tentando subir na cama. Mas não conseguiu. Agora, está na casa de Tia Áurea por algumas horas. Estava muito parada e tive receio de que algo errado tivesse acontecido, mas está tudo normal. Frida nos trouxe a energia que estávamos precisando. Estamos os três muito bem diante da promessa de um grande amor.

 

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* Contatoyanmar@terra.com.br

Índex* – Março, 2018

Quem espera

É um coração 

Valente

Que não cansa

De sonhar

Que não deixa 

De lutar

Por um pedacinho 

De sol

Um lugarzinho 

Que possa

Chamar de seu

E revele

A imensidão

De sua

Escrita

(“Quem espera não se cansa”, Patricia Gonçalves Tenório, 17/03/18, 10h50)

 

Um coração valente no Índex de Março, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Março, 2018 – Recife – PE | Com Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil), Bernadete Bruto (PE – Brasil), Cilene Santos (PE – Brasil), Ina Melo (PE – Brasil), Gabi Cavalcanti (PE – Brasil), Inalda Dubeaux Oliveira (PE – Brasil), Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (PE – Brasil).

Poema de Alcides Buss (SC – Brasil).

Encontros entre poetas: as cartas de Geraldino Brasil (AL/PE – Brasil) e de Jaime Jaramillo Escobar (Colômbia) | Organização Beatriz Brenner (PE – Brasil).

Cadê Miguel? | Carol Bradley (PE – Brasil).

Branca de Neve e os sete anões: Uma releitura em versos | Cilene Santos (PE – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Abril, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – March, 2018

 

Who waits

Is a brave

Heart

That does not get tired

From dreaming

That does not leave

To fight

For a little bit

Of Sun

A little place

That can

Call your own

And reveal

The immensity

Of your

Writing

(“Who waits does not get tired”, Patricia Gonçalves Tenório, 03/17/18, 10h50)

 

A brave heart in the Index of March, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – March, 2018 – Recife – PE | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil), Ina Melo (PE – Brasil), Gabi Cavalcanti (PE – Brasil), Inalda Dubeaux Oliveira (PE – Brasil), Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (PE – Brasil).

Poem by Alcides Buss (SC – Brasil).

Encounters among poets: the letters from Geraldino Brazil (AL/PE – Brasil) and from Jaime Jaramillo Escobar (Colombia) | Organization Beatriz Brenner (PE – Brasil).

Where’s Miguel? | Carol Bradley (PE – Brasil).

Snow White and the Seven Dwarfs: A Rereading in Verses | Cilene Santos (PE – Brasil).

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on April 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um pedacinho de sol para chamar de seu (Recife – PE, Brasil). A little piece of sun to call your own (Recife – PE, Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Março, 2018 – Recife – PE

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O primeiro encontro dos Estudos em Escrita Criativa em Recife – PE foi surpreendente. Sabíamos da demanda por um curso nesse formato, mas não esperávamos encontrar tantas pessoas interessadas, inteligentes e criativas em um mesmo espaço-tempo.

Tratamos do tempo em nosso primeiro encontro. Com teóricos e artistas relacionados ao tema na primeira parte do encontro, a apresentação de escritos próprios e de outros autores clássicos da literatura brasileira pela escritora e professora Flávia Suassuna, na parceria com a UBE, na terceira parte do encontro.

E os textos produzidos na segunda parte do encontro. Trago hoje alguns exemplos do “verdadeiro celeiro da nova literatura pernambucana” (Laura Cortizo).

Convidamos a participarem dos nossos próximos encontros de abril, 2018, tanto em Recife quanto, com a novidade da parceria com a PUCRS, também em Porto Alegre.

Agradecemos a atenção e o carinho, grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

NA CADÊNCIA DO TEMPO        

 

Olhou o relógio, restavam 15 minutos. A angústia lhe tomou a alma e lhe arrastou a mente para o vazio… Olhos parados, boca seca, daquelas onde um bom copo de água amainaria sua sede de histórias, sem muita complicação e num compasso do tempo em ritmo de valsa. Ah, um Danúbio Azul para se escrever ou uma Primavera…

Sente essa falta, com o peito arfando, a caneta deslizando no papel e os conceitos se misturando na cabeça. A autoestima ou sei lá o quê tolhe os sentidos. Talvez escrever seja um motivo para se mostrar importante, interessante aos olhos alheios…

Será que lutar contra o tempo nessa angústia compensa as cores do ócio? Não sabe. Está imersa numa roda viva que o caos da modernidade lhe carregou já faz 10 anos. O tempo, sempre o tempo…

Neste momento, ouve que tem mais cinco minutos! Então, larga a caneta. Sorrindo, deixa o papel assim mesmo rabiscado, porque sabe que tem uma vida inteira para aprender sem compromissos com o tempo. Uma existência na qual o tempo passará na cadência que seu coração bater.

 

Recife, 10 de março de 2018.

 

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Te Vi

 

Num momento

Criei a tua imagem

E te vi, vindo ao meu encontro.

Te abracei, senti-me amparada

E, abraçando-te,

Também fui abraçada.

Mas foi tão lépido

O tempo em que te tive

A tua imagem em mim

Se esvaiu.

E sumiste na estrada

Que criei.

Guardei em mim os pedaços do momento

Em que’stavas no mundo que inventei.

Olho o relógio,

Minha hora está chegada.

Quinze minutos eu tive

Pra pensar

Que o teu amor ainda era meu.

 

 

Gabi Cavalcanti

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Acordar do desmaio foi estranho.

Primeiro vieram os sons, ainda confusos na escuridão de meus olhos fechados – as sirenes, os gritos de diferentes pessoas proferindo diferentes palavras, o sonoro cair das gotas de chuva.

A luz que invadiu minha visão poderia ter me cegado – os postes na beira da rua, a luz vermelha das ambulâncias e o brilho nos olhos daqueles que me rodeavam. E talvez hoje eu desejasse que a luz tivesse, sim, me cegado, para que não guardasse na memória a imagem aterrorizante do carro capotado, dos vidros quebrados em cacos que se espalhavam em solidariedade com os pedaços do meu coração. Meu coração, estilhaçado ao sentir a ausência daquele que estivera ao meu lado antes da chuva levá-lo para longe de mim.

Quem sabe, se tal visão não estivesse tão pregada em meus olhos – tão concentrados no passado – eu pudesse olhar para o futuro com a alma mais leve.

 

Ina Melo

Contato: inamelo2016@gmail.com

 

A Menina e o Tempo

Imagem de Ina Melo

Nina surgiu entre as flores do jardim. Branca como a luz da manhã! Leve como a brisa suave da Primavera! O cheiro exalado do pequeno corpo, lembrava os campos de alfazema. Trazia nas mãos morangos silvestres,  que vez por outra mordiscava deixando os lábios vermelhos. Pássaros arrulhavam ao redor e o riso fácil explodia naquele amanhecer, onde o tempo, de ontem, hoje e amanhã surgia abraçado numa só felicidade!

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O Tempo

 

O tempo pra mim é o momento. O hoje. O agora. Nele eu vejo passar o filme de toda uma vida. Da infância à maturidade, logo seguindo para o entardecer que é finalmente, a velhice. O tempo é vida. É prazer. É luz e acima de tudo, o tempo é amor! (Escrita Criativa. 10/03/018)

 

Inalda Dubeux Oliveira

Contato: inaldaoliveira@uol.com.br

 

O RESULTADO DA PRESSA

 

Era uma tarde de verão e eu chegara da feira, cansada, ainda sentindo o cheiro dos legumes, frutas, peixes e demais componentes do que seria consumido por todos.

Na sala, logo percebi a bagunça normal e feliz deixada pelos meus dois filhos de 7 e 9 anos. Brinquei um pouco com eles e percebi que tinha pouco tempo para me preparar para o casamento ao qual deveria comparecer à noitinha.

Vestido longo, sapato alto, cabelo penteado, escolhi um perfume mais cítrico. Gostei de ver que o tecido do vestido era macio e não facilmente “machucável”.  Quase pronta! Como todo marido, o meu ficou pronto antes e desceu para tirar o carro da garagem.  Logo começou a buzinar impacientemente.

Quando já ia descer, claro que os dois meninos pegaram uma briga com tapas e pontapés que logo tive que apartar. Nova buzinada. Pego minha bolsa e corro.

Chego à igreja me achando linda: desfilo feliz da vida pela nave central, cumprimento os conhecidos, encontro meu lugar num banco e deposito minha bolsa ao meu lado. E levo um susto: entre mim e meu marido está uma bolsa de feira de vime, grande, quadrada e com alças de cordas. Pergunto ao marido – “de quem é esta bolsa?” – embora já saiba a resposta. Com a calma da inocência masculina ele responde: ”É sua, é claro. Você acabou de botá-la aí”.

Quase morta de vergonha, descubro que ao apartar a briga dos filhos e na pressa para descer correndo, peguei a bolsa de feira em vez da bolsa de toalete. E pensar que desfilei pela nave central da igreja….!

Ainda bem que o marido concordou em sair e levar a maldita bolsa a tiracolo para escondê-la no carro.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

Sentada no chão, me proponho a criar através da presença. Esta presença, porém, tem resquícios do presente do passado, com a sugestão que me foi feita de escrevê-la. Ao me propor escrever sobre o que acontece agora, para ser lido no futuro do presente, que é, no mais profundo, apenas especulativo, observo diversos pensamentos que me atravessam para me tirar daqui e outros que estão diretamente conectados com o que está acontecendo agora.

Sinto um profundo bem-estar e expansão da minha percepção a agir sem só me jogar para frente, mas sim para dentro.

Me questiono quão para dentro posso ir, com um intenso pedido de que seja muito. Se estou aqui, que eu esteja aqui. Muito aqui. Sinto em minha mão meus músculos e nervos sendo trabalhados por escrever continuamente, sinto a posição do meu corpo inteiro e as sensações que dele emanam. Minhas pernas estão em uma posição que sempre gostei de ficar – percebo como esse agrado é uma ponte entre o passado e o presente – minhas costas estão confortáveis e minha respiração me massageia por dentro.

Percebo também as cores que meu campo de visão alcança. Sinto uma sensação muito aconchegante dos meus pés. É engraçado o exercício de escrever o presente antes que vire passado. É um bom tipo de história para se construir. Volto às cores. A capa da apostila amarela, contrastando com o misto de roxo em tons claros e escuros e azul do chão que me deixa feliz. Amarelo me remete à alegria, e roxo me remete à profundidade. Essa mistura combina com o que sinto ao fazer esse exercício. Mistério. Roxo também é mistério. O mistério do eterno agora e o caminho dentro dele. A empolgação, e alegria, e a leveza do amarelo para temperar. Cores unidas e alegria, como uma música que ouvi no passado, mas se integra com o que acontece. E mais uma – passado presente, participo sendo o mistério do planeta.

 

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Programação – Recife e Porto Alegre:

Cartaz A3

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Sala de imprensa:

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