“Semiose poética”* | Clauder Arcanjo** [et al.]

As imagens surgiam frente a mim, e eu não conseguia sequer respirar. Como se com receio de que aqueles “flagrantes” do poeta-fotógrafo se espantassem com a intromissão de qualquer sinal de “outra vida”.

Alumbrado, eu batia as pálpebras dos olhos, a demonstrar que me encontrava em vigília de êxtase, mas não suprimido da seiva do humano, do que nos singulariza como demasiadamente belos-humanos.

Em seguida, voltei a circunvagar pela casa, e as fotografias, em flashes de preto e branco, relampejavam por entre os meus pensamentos. A memória, cativa das fotos, se intrometia diante da minha visão, ferrando meu juízo, inquietando todo o corpo.

Quase febril, sentei-me diante do computador, e a tela vazia a se borrar de medo do meu verbo. Como, não sei, num caudal de claro e sombras, o verbo se apresentou: tímido, apático, tosco e roto no mais das vezes. Como se a “arte” do escritor maculasse a lírica (in)finitude daqueles instantes revelados (e eternizados).

Contudo, o mister de escrevinhador é ofício de fanatismo. Sim, fanatismo de não querer mudar de ideia, nem muito menos de mudar de assunto. O coordenador do exercício a cobrar-me e a instigar-me a cumprir com o fatal compromisso: apresentar minhas “revelações textuais” do que, antes, instantes antes, eram imagens.

Quis desistir de tudo, defender (com unhas e dentes, contudo sem verbo) que a tarefa de que me (en)carregaram era missão para algum deus do Olimpo encarnado.

Tranco-me no quarto, dispo-me de todas as vestes e tento dormir: vã tentativa de fugir de tudo, de me exilar no escuro profundo da noite longa e vazia. Qual o quê!… A madrugada dispõe-me um laboratório de inquietações, tal qual uma exposição fotográfica (diria dantesca, caso não se traduzisse no sublime) contínua. As dezenas de imagens surgem e ressurgem, ao tempo em que detecto que algumas reminiscências pululam na lente do juízo.

Suado, levantei-me e passei a conspurcar palavras, versos e sentenças (?) no meu computador.

Salvei (e salvei-me?) tudo. Com pouco mais, entreguei-me à paz dos alumbrados.

No crepúsculo, as imagens acalentavam-me no colo do novo alvorecer, enquanto o verbo enfiava-se por entre os espinhos de êxtase da cândida noite repartida.

Quando duas artes se aproximam, aprendi, há sempre um parto de luz, alumbramento, inveja, mistério e dor.

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* Semiose poética. Ângela Rodrigues Gurgel… [et al.]. Mossoró: Sarau das Letras, 2017.

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

“À Cidade”* | Mailson Furtado**

α. presente

 

tarde

tarda

alarme

que fala

que arde

que geme

 

de tarde

que fica

cidade

que falo

 

cidade

em meio a tua carne

te                              rasgo

e penetro teu âmago

por entre veias

e ruelas

onde cachorros dão o ar

da graça

 

[…]

 

β. pretérito

 

noutro dia

vem

vem outro sol

o mesmo

de outro dia

o mesmo

de mil oitocentos e setenta e sete

o mesmo

de quinze

de cinquenta e oito

o mesmo

deste quinze

e meu avô ri

 

e quase eu também rio

menos o rio

que goteja

seus últimos goles d’água

que lacrimeja

suas últimas gotas

 

[…]

 

γ. pretérito mais-que-perfeito

 

a manhã desagua

 

a cidade

se           adentra

 

eu a    mergulho

 

em meio ao sossego matutino que um mendigo

o quebra com chacoalhar de moedas em um

caneco de alumínio às dez e dezessete da

manhã

a vagar sem destino

sem prisão

a vagar consigo mesmo

a vagar entre ponteiros de relógios

que somente marcam

a hora de comer

e a hora do cochilo

vaga

 

[…]

 

 

δ. futuro  

 

tantos

se foram

tantos

 

como meu avô foi na década de quarenta

por trinta dias rasgando mar adentro

até o rio de janeiro

 

o mundo existe

fora dos mapas

é grande

é bonito

e é feio

vovô me disse

 

duvido

e sempre duvidei

de tantas verdades

 

[…]

 

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* Extraídos de À Cidade. Mailson Furtado Viana. Ilustração: Renancio C. Monte e Mailson Furtado Viana. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2017.

** Contatos: mailog10@hotmail.com e https://www.facebook.com/Improvisosdemailsonfurtado/

A automedicação na prática | Mara Narciso*

21 de maio de 2017

A prescrição de medicamentos é ato exclusivo do médico e dentista que são obrigados a fazê-lo de forma legível e sem rasuras. Automedicar-se, isto é, sem receita médica é rotina corriqueira dos brasileiros, sendo comum se ter uma farmacinha no banheiro (o pior lugar para isso). No tempo em que “remédio não vencia”, os armários tinham medicamentos para dor, febre, diarréia, má digestão, colírio, gotas para nariz, linimento, mercúrio cromo e Mertiolate. Não havia regulamentação da propaganda de remédios e o rádio, em sinal de progresso, subentendendo-se que “povo medicado é povo adiantado”, explicava as vantagens das Pílulas de Lussen (vias urinárias), Regulador Xavier (menstruação: Número um, excesso, Número dois escassez) e Vick Vaporub.

Chegaram as regulamentações, lotes, prazos de validade, bulas detalhadas com indicações, contra-indicações, modo de ação, dose, interação medicamentosa (remédios que não combinam entre si) e os efeitos colaterais, citados mesmo quando ocorre um em um milhão, entre eles podem-se ler “morte súbita”. Ainda assim, o exagero é marcante. Há médicos que mandam ler a bula, outros proíbem a leitura. Tem cliente que desiste do remédio e outros ignoram os riscos. Muitos estão doentes e sem diagnóstico, enquanto outros tomam remédios de forma errada ou sem necessidade/eficácia.

O mercado de medicamentos movimenta bilhões, sendo que um novo medicamento demora anos para ser comercializado. A patente é quebrada após 20 anos, quando o genérico pode ser produzido, e durante este período o laboratório cobra o que quer, enquanto cria planos de desconto. Cobrando menos não tem prejuízo, então, por que não generalizar o menor preço?

Correm na internet informações de que o lucro abusivo e a ganância dos Laboratórios Farmacêuticos impedem a divulgação de formas alternativas de tratar e curar. Muitas dessas conversas são falácias, deixando o doente inseguro.

A TV e a internet trazem excessivas informações sobre doenças, exames e medicamentos, mas elas também espalham opiniões como se fossem estudos científicos. Dentro da Medicina há correntes divergentes, enquanto grupos de consenso buscam uma conduta comum. Nessa guerra, acuado, o médico pode perder, algumas vezes agarrado às suas próprias crenças. O cliente mais estudioso acaba levando o profissional às cordas e lhe dando bordoadas, o que o obriga a se atualizar. Por outro lado, notícias mal escolhidas e em profusão podem gerar pânico.

Além das falsas verdades e apavoramento, o prato cheio é o tratamento da obesidade. A toda hora surge notícia de droga milagrosa, para a pessoa emagrecer sem fome, ginástica, esforço ou sacrifício. Comercializadas no exterior via internet e pelos riscos, proibidas pela Anvisa, são mais caras por ser sem receita. Muitos embarcam nessa aventura, depois a medicina tradicional tenta reverter as complicações. No ramo de rejuvenescimento a lista de milagres não tem fim. Em relação aos remédios para outras finalidades, muitos têm uma sugestão de amigo ou parente, sem contar com as mudanças que balconistas de farmácia fazem.

Outro desastre são os remédios controlados, especialmente os viciadores de tarja preta. A ação deletéria do Clonazepam – Rivotril®, anticonvulsivante não danoso por si, mas sim pelo mau uso, tem ação ansiolítica, relaxante e no sono, merecendo destaque pelo baixo preço, quantidade de viciados e manutenção da dependência por médicos não psiquiatras. Acontece também a tolerância, com necessidade de doses cada vez maiores. Em poucas semanas, a dose padrão, que é de cinco gotas, leva ao vício e a retirada rápida causa crises de abstinência.

Pessoas idosas estão tomando 20/30 gotas de Clonazepam há 20/30 anos, e mostram perda parcial da inteligência, raciocínio e capacidade de memorização. Mesmo diante da recusa do médico que não fez a 1ª receita, alguns dependentes exigem uma nova prescrição em talonário azul. Tenta-se reduzir esse abuso, mas, como “são apenas algumas gotinhas” a orgia continua.

 

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Contato: yanmar@terra.com.br

A caixa e seus guardados | Marly Mota

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“Vida em veios”, de Regina Rapacci* | Apresentação de Fred Linardi**

Velamos os mortos, mas queremos mesmo é velar a morte. Uma das maiores questões humanas é também aquela para a qual somos menos preparados para lidar. Em nossa cultura, o luto prefere a cor preta da tristeza à possível alvura e leveza do eterno descanso.

Há quem prefira o branco (ou azul) e, com essa clareza, se faz corajosa e abre as portas da compreensão para falar sobre a finitude da vida. É o que acompanhamos neste ensaio narrativo que vem a público dez anos depois que Regina Rapacci viu sua mãe ser consumida por uma rara e indócil doença. Ao lado de sua irmã, Ana, começou a corrida pela descoberta, tratamento para a cura e, por fim, a lucidez para lidar com a dor do outro e de si.

Antes da morte, no entanto, há vida e seus emaranhados de relações que a mitologia clássica e a psicologia se empenharam em traduzir através de suas histórias e análises. Diante de nossos relacionamentos, falar sobre a morte carnal parece ficar bem mais simples. Afinal, quantas vezes precisamos, simbolicamente, matar nossos pais em vida para podermos encontrar nossos próprios caminhos?

Da relação de Regina e sua mãe, a morte veio para fazer do nó um laço que, organizado fio a fio, fez desse tecido uma forte e atemporal ligação entre mãe e filha. Disso, a tradução melhor do que é o amor de fato.

Do mundo tecnológico e sintético da ciência à lembrança de que somos seres regidos por uma natureza mais forte, havemos de nos lembrar de que – não importa o que nos apoia – ainda somos seres sujeitos à dor e ao sofrimento. E que eles sejam bem-vindos para aqueles que buscam uma vida plena, finita de fato enquanto matéria, mas não necessariamente como memória.

Que a vida se revele.

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* Extraído de Vida em veios. Regina Rapacci. Apresentação de Fred Linardi. Ilustrações de Frederico Boldrin Ferraciolli. São Paulo: Biografias e Profecias, 2016.

** Contatofred.linardi@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

A experiência do mês de Maio, 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa é tecer uma comparação entre o ensaio “A Filosofia da Composição” (1846) do escritor, poeta, crítico e editor estadudinense, nascido em Boston, Massachusetts, Edgar Allan Poe (1809-1849), e o Diário dos Moedeiros Falsos (1927), no qual o escritor francês, nascido em Paris, André Gide (1869-1951), analisa a construção do seu único romance Os Moedeiros Falsos (1925).

A criação é inerente ao ser humano, já dizia em Criatividade e processos de criação (1977 in (1987)) da artista plástica e teórica de arte, nascida em Łódź, Polônia, e residente no Brasil a partir de 1934, Fayga Ostrower (1920-2001). Em cada ato, reflexão, verso escrito, pincelada, ou lapidação do mármore, na construção de um romance, o artista enfrenta a tensão psíquica necessária para que exploda a Criação.

Vejamos o que têm a nos dizer, neste mês de Maio, 2017, os escritores e poetas, de hoje, de ontem, de amanhã, André Gide e Edgar Allan Poe, Bernadete Bruto e Elba Lins.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

Meu corvo da sorte

No meio do caminho

Diferentemente do poema

Num repetido fonema

Falando de morte

 Ver um animal de poder

Bem na minha frente

Propiciando-me a sorte!

                                                                                    

O que podia causar horror

Pousava esta alegria 

Em poder até dizer 

Ao invés do nunca

Para sempre

Sempre mais

Mais e mais

Para sempre

 Viva!

(Bernadete Bruto, 01 de Maio de 2017)

 

André Gide e Edgar Allan Poe : dois exemplos de escrita criativa

 

Muitos escritores produzem e acompanham sua produção por meio de algum registro. Analisamos aqui a criação dos escritores André Gide e Edgar Allan Poe.

O escritor André Gide escreveu um romance chamado os Moedeiros Falsos e, ao mesmo tempo, criou um diário enquanto escrevia esta obra: O Diário dos Moedeiros Falsos. É muito interessante acompanhar o desenvolvimento do raciocínio feito por Gide no decorrer do seu diário, que também foi publicado.

Por outro lado, Edgar Allan Poe nos presenteia com um estudo do seu famoso poema “O Corvo” no capítulo “A Filosofia da Composição” do livro Poemas e ensaios. Neste, Allan Poe decompõe sua ideia demonstrando que elaborou o poema nos mínimos detalhes, no sentido de causar o efeito que causa em que o lê.

Observamos duas formas diferentes dos escritores apresentarem o esboço de sua obra. O primeiro escritor parece que foi anotando consecutivamente no seu diário as observações de suas ideias para chegar à construção do livro. O segundo parte do poema já construído e nos informa como ele concebeu a sua obra, passo a passo.

Imagino se esses escritores fossem construtores, nós teríamos com Gide uma descrição detalhada de todo o processo da construção da sua obra e no caso de Allan Poe, teríamos uma obra pronta com comentários sobre como ela foi edificada.

A princípio fico imaginando que temos muito mais riqueza no Diário dos Moedeiros Falsos, que é um processo gradativo do método criativo do escritor e de sua obra.  Pois, ponderaria que no caso de Allan Poe teríamos muito mais uma descrição do autor de como ele formou a ideia de preparar o poema “O Corvo e de que modo a conceber elementos que atingissem ao público, sendo um poema bem arquitetado. Talvez por isso, noto que Allan Poe explana um processo nada próximo à inspiração, contudo de uma construção proposital. O poema é magistral! Na história, na sonoridade, como no prenúncio de sua própria história futura (alguém que perde a adorada e fica sem conseguir deglutir este dor – a perda da pessoa amada).

Com Gide, observamos o sentimento mais presente na organização da sua obra, assim nos sentimos ao ler o diário. Muito embora, penso que, provavelmente, também o diário foi reorganizado em formato a ser publicado, ou talvez pela história que André Gide conta no livro, quem sabe fosse esta a intenção desde o início? O que igualaria os dois no papel de construtores bem racionais das obras aqui analisadas.

No entanto, não há garantias… Ambos nos entregam um trabalho sobre um trabalho, com toda certeza foram elaborados e reelaborados.  Nisso vemos que em ambos havia a preocupação em explicar seu processo criativo. Talvez como forma de ensinamento a outros que pretendam escrever, ou porque era de ambos a profissão de critico literário? Ou na certeza de que seus trabalhos valiam tanto, que seria importante deixar mais essa contribuição sobre a concepção da obra.

Destaco aqui algumas observações de outros sobre cada um dos escritores, com a finalidade de uma opinião diversa enriqueça esta análise.

Sobre Allan Poe, temos entre várias, esta observação de Filipe V. Almeida:

“Nessa obra poética, assim como em seus trabalhos em prosa há um elemento de estranheza que gera o clima de melancolia, medo e suspense. Embora tudo esteja no limiar entre fantasia e realidade improvável, nesse ensaio ele esclarece que o seu intuito é o de nunca ultrapassar aquilo que é realmente possível. No poema ele imagina o estudante dialogando com um corvo que só sabe repetir “nunca mais”, todavia essa disposição do estudante em ouvir as respostas que ele já prevê e fazer perguntas que se encaixem vêm, de acordo com Poe, da “sede por se torturar” e “em parte por superstição”. Ainda assim, ele entende que essa abordagem calculada e distanciada pode comprometer a qualidade artística da obra.”(1)

Sobre Gide temos o comentário de Luiz Horácio Rodrigues:

“Edouard, assim como Gide, escreve um diário. As semelhanças entre esses escritos permitem ao leitor a percepção de um livro dentro do livro. Diário dos moedeiros falsos permite visualizar a construção dos personagens e deixa nítidas as marcas meta-literárias.” (2)

Por fim, sobre o processo criativo dos escritores em geral temos a seguinte observação:

“Não gostaria de afirmar que sempre, mas, às vezes até na contramão, o diário do escritor revela alguma coisa sobre sua postura criativa. Blanchot argumenta que Virginia Woolf  escreve seu diário para “não se perder naquela prova que é a arte, que é a exigência sem limite da arte”. Isso diz muito da poética de Woolf, de seu rigor com relação a sua própria literatura. Mas o diário não explica um romance, por exemplo. A “Gênese do Dr. Fausto” de Thomas Mann, que é um relato sobre a construção da obra, não aumenta nossa compreensão do livro. Nem o Diário dos moedeiros falsos de Gide ilumina a obscuridade da ficção. Ao, aparentemente, tentá-lo, Mann e Gide escrevem novas obras, não explicam as anteriores.”

O certo mesmo é que gostei de ambos os trabalhos, porque cada um me proporcionou um ensinamento diferenciado. Pude ler algo mais sobre eles e sinto que ambos foram muito criativos e meticulosamente artífices de excelentes obras da literatura, portanto estou muito agradecida!

Merci, André Gide! Thank you, Edgar Allan Poe!

 

Texto elaborado em Recife, 9 de Maio de 2017, reformulado em 15 de Maio de 2017 e efetuada correções após a aula em 20 de Maio de 2017.

  1. Almeida, Filipe V. http://www.pantagruelista.com/blog/poe-como-escrever-o-corvo
  2. Rodrigues, Luiz Horácio. http://omundodeligialopes.blogspot.com.br/
  3. Ávila, Myriam. http://qorpus.paginas.ufsc.br/%E2%80%9C-a-procura-de-autor%E2%80%9D/edicao-n-21/entrevista-com-myriam-avila/

 

        OBS: Em cada link tem muito mais!!!!

 

 

Elba Lins

elbalins@gmail.com

Poesias.

Não exigem planos,

Planejamentos, planilhas,

Como num trabalho de engenharia.

 

Ela nasce do impulso,

Vem pronta.

Não aceita correções,

Revisões,

Edições 1, 2, 3…

 

Brota inteira

Brota ligeira

E vive por si só.

(POESIAS 04.02.2004 15:30h)

 

Comparação entre a análise do poema O Corvo de Edgar Allan Poe em A Filosofia da Composição e o processo de construção dos Moedeiros Falsos por André Gide a partir do Diário dos Moedeiros Falsos.

Recife, 17 de maio de 2017.

 

Para atender à solicitação do Grupo de Estudos em Escrita Criativa a partir d’“A Filosofia da Composição” e d’O Diário dos Moedeiros Falsos esboçei as semelhanças e diferenças na forma de escrever de Edgar Allan Poe e André Gide.

Antes mesmo de iniciar minhas impressões gostaria de chamar atenção para um ponto: enquanto no Diário dos Moedeiros Falsos, André Gide vai escrevendo sobre a construção do seu Os Moedeiros Falsos seguindo a cronologia da criação, Poe escreve sobre uma obra já realizada, embora diga que nunca teve a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de nenhuma de suas obras.

Desde os primeiros parágrafos, Edgar Allan Poe deixa clara a importância de que, na criação de um texto ou poesia, primeiramente sejam elaboradas todas as intrigas, antes de se iniciar a escrita. Daí devem se direcionar o enredo e os fatos de tal forma que seja atingido o fim projetado.

“Nada é mais claro do que deverem todas as intrigas, dignas desse nome, ser elaboradas em relação ao epílogo, antes que se tente qualquer coisa com a pena. Só tendo o epílogo constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de consequência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção.” (Ref.3, pág.101).

André Gide por sua vez, fala logo de início que tem muita matéria para um livro e por este motivo fez o Diário. Pelo que fica claro Gide vai escrevendo sobre vários assuntos, para só depois encaixá-los ou não no romance.

 “Acredito que haja matéria para dois livros e estou começando este caderno para tentar deslindar os elementos de tonalidade demasiado diferentes. ” (Ref.4, pág.18).

Embora a princípio estas duas colocações não pareçam tão divergentes, vamos observando as diferenças a partir das diversas colocações dos dois autores.

Sobre a condição de analisar a construção de uma obra, Poe afirma não ter o menor problema e escolhe “O Corvo” por ser mais conhecida e diz que nada na sua composição foi obra do acaso ou intuição. Afirma que a construção do poema foi planejada com rigor matemático que o levasse ao final, ao clímax esperado. Para o resultado perseguido, pouco houve de insight ou inspiração, mas muito esforço e pesquisa.

“… não se deve encarar como falta de decoro de minha parte, o mostrar o modus operandi pelo qual uma de minhas obras se completou. Escolhi “O Corvo”, como mais geralmente conhecida. É meu desígnio tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso, ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a precisão e a sequência rígida de um problema matemático” (Ref.3, pág.103).

Edgar Allan Poe chega ao ponto de fazer uma cronologia dos aspectos considerados na elaboração do poema (Ref.3, pág. 103 a 107) de modo a obter o efeito desejado:

A intenção – compor um poema que agradasse à crítica e ao público;

A extensão – ele optou por uma extensão de cerca de cem versos e o poema ficou com cento e oito versos;

Uma impressão ou efeito – A beleza como efeito, para a excitação ou elevação agradável da alma;

O tom – Escolheu a Tristeza, pois entende a melancolia como o mais legítimo dos tons poéticos;

– Um efeito artístico agudo, uma nota-chave, “um eixo básico sobre o qual toda a estrutura devesse girar”– escolheu o Refrão /monotonia do som/refrão breve/refrão sonoro/ uma única palavra, Never More (Nunca Mais). Com esta combinação de elementos ele decide por usar como motivação dois amantes afastados pela morte da jovem, além da melancolia e do lúgubre representado pelo corvo para traduzi-los na poesia planejada.

Com as decisões tomadas acima, Poe tem em mãos todas as ferramentas e cria o poema a partir do final “por onde devem começar todas as obras de arte”.

Enquanto Poe afirma sem pudor todo um controle sobre a obra, Gide vai anotando tudo o que surge como possibilidade, mas se mostra indeciso da atratividade do assunto quando se aproxima o momento da execução da obra.

“Sempre chega um momento, que precede bem de perto o da execução, em que o assunto parece despojar-se de todo atrativo, de todo encanto, de toda atmosfera; (…) ao ponto de que, desapaixonados dele, amaldiçoamos essa espécie de pacto secreto ao qual estamos presos, (…). Gostaríamos de abandonar a partida…” (Ref.4, pág.21).

Enquanto Poe caracteriza sua poesia com um caráter de precisão matemática, vê-se na construção de Guide uma certa organicidade, onde o material coletado por ele vai se transformando, se moldando ao texto final como se fosse um organismo vivo. Tanto que em certo ponto ele coloca no seu diário:

“O livro, agora parece às vezes dotado de vida própria; dir-se-ia uma planta que se desenvolve, e meu cérebro não é mais que o vaso cheio de terra que a alimenta e a contém. Até me parece que não é conveniente tentar ‘forçar’ (em parênteses na referência 4) a planta; que é melhor deixar seus brotos se incharem, as hastes se estenderem, os frutos se adoçarem lentamente; pois que procurando antecipar a época de maturação natural, compromete-se a plenitude do seu sabor. ” (Ref.4, pág.89 e 90).

Para se ter uma ideia do caráter orgânico e não definitivo do projeto de Guide para os Moedeiros Falsos relaciono algumas colocações feitas ao longo do diário:

– Mesmo tendo iniciado o projeto do livro anotando cenas, diálogos, personagens, que podem vir a ser aproveitados no romance, alguns pontos não são a princípio definidos por Guide, como a época da ação,

“Por certo não é oportuno situar a ação deste livro antes da guerra, e incluir nele preocupações históricas; não posso ao mesmo tempo ser retrospectivo e atual. ” (Ref.4, pág.18).

– O personagem Lafcadio não chega a ser usado no romance, entretanto as suas características e até situações anotadas vão ser usadas para compor mais de um personagem.

– Caracterizando a constante otimização do seu romance

“Profitendieu deve ser redesenhado completamente. Não o conhecia suficientemente quando se lançou em meu livro. Ele é muito mais interessante do que eu sabia. ” (Ref.4, pág.98).

Finalizo com os mesmos argumentos usados no seu início. Tendo em vista que a análise feita por Poe é posterior à obra, na minha percepção ficou mais fácil para ele colocar certas peças, ou as peças certas, no quebra-cabeça. As anotações de Guide por outro lado, são feitas durante o processo, o que dá mais legitimidade ao registro, onde se consegue captar, com o fervilhar de sua mente criativa no dia a dia, durante a preparação e execução da obra. Entramos em contato com o que despertou seu interesse, com as suas expectativas sobre certa cena escrita que muitas vezes nem será utilizada ou será de uma forma diversa da planejada. É como ter à sua disposição muitas peças de quebra-cabeça com características tais que podem ser usadas em diversas posições, até mesmo pelo lado contrário, ou podem até mesmo ser subdivididas, de modo a dar uma melhor imagem ao quadro.

A partir de tudo que já foi colocado eu diria que Poe privilegia a FORMA enquanto Gide privilegia o CONTEÚDO. Poe planeja a forma ideal e vai inserindo o conteúdo.  Gide vai coletando/esboçando o conteúdo para dar posteriormente a forma ao romance.

 

Referências:

 

1  –  “O Corvo” (Edgar Allan Poe). Tradução Fernando Pessoa em Fernando Pessoa – Obra Poética – Editora Nova Aguilar. Páginas 631 a 633.

2 – “O Corvo” (Edgar Allan Poe). Tradução de Milton Amado.   http://www.casadobruxo.com.br/poesia/e/edgar06.htm.

3 – A Filosofia da Composição – do livro Poemas e Ensaios de Edgar Allan Poe. Tradução Oscar Mendes e Milton Amado. Editora Globo.

4 – Diário dos Moedeiros Falsos – André Gide. Editora Estação Liberdade.

5 – Os Moedeiros Falsos – André Gide. Editora Estação Liberdade.

Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Pequeno conto circense (e prefigural)* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

12/04/2017 19h40

 

O problema era querer ser equilibrista e viver na mesma época de Kafka.

O problema era caminhar na corda bamba e ser observado o tempo inteiro por aquele sujeito alto, forte, e sorridente lá embaixo – porque ele, Kafka, era tudo isso, e não franzino, pequeno e triste.

O problema era saber-se objeto de contemplação do escritor inquietante de Praga, e perceber cada movimento sendo captado, sendo transformado em conto literário, conto que narra personagens circenses.

Josué assim sente, assim se emoldura. Ele sabe que de um lado a outro da corda bamba será transmutado em Pequena dor.

Pudera. Josué prefigura o que o personagem de Kafka preencherá, e, de repente, o equilibrista prova um gosto amargo na boca.

A mãe leva Josué ao médico. O pai procura a cartomante e ela prevê – que está próxima a queda do filho, o fim do equilibrista do circo Roskhóv.

Josué (Joshua) não aceita o seu destino. Atravessa a Praça da Staré Město, alcança o Relógio Astronômico, vai à Staroměstské Náměstí 22, e procura Franz (Frantisěk) Kafka. O primeiro se apresenta. O segundo convida a entrar. E sentam. E o chá é servido segundo os costumes da época.

A mãe de Kafka estranha aquele rapaz franzino, pequeno e triste que conversa com o filho na sala. Na realidade, o rapaz fala e o filho apenas toma notas numa caderneta de capa dura marrom.

O filho tosse um pouco.

A mãe se preocupa.

E pede ao rapaz franzino, pequeno e triste que volte um outro dia, quem sabe eles conversem uma outra hora sobre o problema que precisam resolver.

Mas ainda não.

Kafka, quando vê a mãe caminhando para a sala, adianta ao personagem:

– Da próxima vez em que atravessar a corda bamba, olhe para baixo como se fosse a última vez.

 

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Escrito a partir de: a-experiencia-de-uma-artista-da-fome-patricia-tenorio-270115

** Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados e defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br      

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 12h49

 

Esta é a terceira vez que narro a paralisia que me invade quando tento ler um livro bom. Aconteceu com O mar, de John Banville. Com os livros do escritor e professor universitário paulista-pernambucano, residente em Aracajú, SE, Fernando de Mendonça (1984), Detalhe em H[1] e 23 de Novembro.[2] Sei que é um livro bom – já fui impactada anteriormente por suas faíscas –, mas insisto em permanecer paralisada, bloqueada, feito em um espelho de cristal.

Feito em um espelho de águas. Narciso paralisa diante de sua própria imagem. Eu cristalizo diante de Não há amanhã,[3] do escritor gaúcho Gustavo Melo Czekester (1976). Paralisei em 2016 com O homem despedaçado,[4] seu primeiro livro de contos, a ponto de nada conseguir falar, nenhuma palavra balbuciar após a leitura impactante.

Após a leitura inquietante que faço hoje do segundo livro de contos (são 30) de Czekster. Começo com “Não morto, apenas dormindo” e sinto a falta de palavras que prefigurei me preencher novamente, assim como aconteceu em “Um mundo de moscas” do primeiro livro.

“Então, eis o que era morrer – ficar o tempo todo sonhando com mortes, uma atrás da outra, sem receber ligações, esquecido. Através da janela, viu moscas infestando o pátio e, ao olhar o seu braço, gritou ao vê-lo se desfazendo em um mosaico raivoso de zumbidos, voltando a si quando bateu com a cabeça na janela, meu Deus, tinha dormido acordado!” (CZEKSTER, 2017, p. 14)

O braço se desfazendo “em um mosaico raivoso de zumbidos”, feito as moscas que criaram os seres humanos – afirmava Anton Lopez para mim em 2016.

“Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa.” (CZEKSTER, 2011, p. 19)

Eis o inquietante que encontramos em Czekster, Mendonça, Banville… Amabile.[5] “O inquietante”[6] de Sigmund Freud (1856-1939) amplamente analisado no texto de mesmo nome de 1919. O unheimilich  que transita entre o familiar e o desconhecido, entre a palavra e o silêncio, entre a vida e a morte. Freud analisa o termo desde a sua etmologia em várias línguas – inclusive na versão brasileira traduzida do inglês da Standart Edition aparece como “O estranho” –, quanto em um texto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816).

Em “O homem de areia”, Hoffmann narra a história de Natanael, que é assombrado, desde a infância, com a suposta existência de um homem de areia que arranca os olhos das crianças e dá para alimentar seus filhotes, feito fosse uma espécie de abutre, ou coruja. Em “O inquietante”, Freud alerta para o complexo de castração no personagem principal, Natanael, ao mesmo tempo que me faz lembrar de outro texto seu chamado “Os arruinados pelo êxito”,[7] que aparentemente pertence ao mesmo volume (XIV) das obras completas do pai da psicanálise, no qual analisa a histeria a partir do sucesso, e não do fracasso – como normalmente acontece –, investigando as peças teatrais “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616), e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen (1828-1906).

Podemos encontrar este “inquietante” em textos de Franz Kafka, Thomas Mann, Friedrich Dürrenmatt, mas também dos mais próximos – mais próximos no duplo sentido do tempo e do espaço – Fernando de Mendonça, Luís Roberto Amabile, Alexandra Lopes da Cunha[7]… e também nos contos do escritor e advogado gaúcho Gustavo Melo Czekster.

 

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(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) MENDONÇA, Fernando de. 23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923

(3) CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017.

(4) CZEKSTER, Gustavo Melo. O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6683

(5) Vide em outro post do mês de abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7359

(6)  FREUD, S. “O inquietante”, in: Obras completas vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, 1992(1996), p. 135-172].

(7)  FREUD, S. “A história do movimento psicanalítico”. Volume XIV. Comentários e notas: James Strachey. Tradução sob Direção-Geral e Revisão Técnica: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

(8) Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6963

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 10h33

 

Conheci o escritor paulista, nascido em Assis, residente em Porto Alegre, Luís Roberto Amabile (1977), em outubro de 2015. Virtualmente. Pesquisava sobre a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico para escrever um artigo[1] que em mim pulsava, e ele, “virtualmente”, respondia algumas perguntas minhas.[2] Algumas inquietações.

“– Essa discussão nunca fez muito sentido para mim. Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ler e escrever desde cedo, podem escrever livros.

Quanto a estar ou não na academia, acho natural que alguém que queira escrever se interesse pelo menos um pouco por teoria e que, para mim, o contato com o ambiente acadêmico, a discussão de textos, torna mais palpável a literatura e a escrita, por mais que na hora do fluxo criativo, quando a coisa está fluindo, eu não pense em teóricos.

Mais duas considerações. Primeiro, os cursos de artes plásticas, cinemas, teatro existem há bastante tempo, inclusive com programas de pós-graduação, e os projetos de conclusão são eventualmente obras de artes, hoje em dia não se discute a validade desses cursos. E, segundo, já foi provado nas experiências em vários países que os cursos de EC na universidade dão bons frutos. Então que faça Escrita Criativa quem acredite ser válido e que fique longe quem não ache válido.” (AMABILE, 2013)

O segundo conhecimento foi há alguns meses no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, onde cursamos o Doutorado em Escrita Criativa. Tornamo-nos colegas, muito em parte por causa daquela entrevista que atravessou o tempo, a distância e a impossibilidade que tornou-se realidade graças ao amor à ficção.

O terceiro conhecimento vem agora com O livro dos cachorros,[3] gentilmente presenteado por Amabile, nessa troca lúdica e utópica de livros entre escritores e que tentarei, infelizmente por causa do tempo – escrevo hoje, no voo de uma hora e meia de Porto Alegre para São Paulo, para postar domingo, 30/04/2017 –, passar de maneira breve algumas impressões.

Amabile segue o fio condutor, ou melhor, a coleira-guia de todos os cachorros do mundo. Cachorros que considera (até) bem melhores que os seres humanos.

“Outro trecho: Cachorro. Não sei por que o nome desse ser tão nobre é usado de forma negativa. É um desrespeito. Um disparate. Cachorros são puros e fiéis. São sinceros e encantadores. Os cachorros nos amam, senhor juiz, e podem inclusive nos fazer felizes. Muito.” (AMABILE, 2015, p. 55)

Mas não se enganem. Os 32 contos (entre eles filhotes-mini-contos) amabilianos não contam apenas cachorros e sua incontestável superioridade neste mundo caótico e frio no qual nos encontramos. Eles nos contam dessa inquietude, desse inquietante[4] tão próprio da natureza humana que, nos parece, a Literatura com L Maiúsculo nos propicia aliviar.

“O senhor K. seria um sonhador, mas, como sonhava apenas pesadelos, era mais um pesadelador. Podia fazer, o senhor K., esse uso do idioma, agregando palavras, porque o falava de um modo alternativo, sobretudo incomum. Na verdade, não era o seu idioma, e não o era duplamente. O senhor K. pertencia a um outro país, a um outro povo, e apenas por falta de opção, e por coerção, praticava aquele idioma.” (AMABILE, 2015, p. 31)

O comandante acaba de anunciar que estamos nos preparando para aterrisar em Congonhas, SP. Devo encerrar esta breve análise de um livro que tem muito mais a nos dizer, a nos contar, a nos granir, a nos sonhar.

Deixo, então, os leitores – assim como eu na escritura – com um gostinho de quero mais, e que esse gostinho de quero mais vença e nos leve até o final das mais de 120 páginas desse livro inquietante chamado O livro dos cachorros, de Luís Roberto Amabile.

 

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(1) Vide “A perda da aura nas Fotografias para Imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)” em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7095

(2) Vide “Entrevista: escritor de volta à escola?” de Davi Boaventura a Luís Roberto Amabile no Jornal iTEIA em 09/09/2013: http://www.iteia.org.br/jornal/entrevista-escritor-de-volta-a-escola

(3) AMABILE, Luís Roberto. O livro dos cachorros. São Paulo: Patuá, 2015.

(4) Sobre esse “inquietante”, tratamos em “Sobre Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekester, nesta mesma postagem do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório. Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7356