Ed Arruda* em “O Silêncio das palavras”

Presente do presente**

O tempo é surdo às censuras: tempo ruim, escorregadio, de crise ou guerra, não importa. Está na companhia festiva da luz do sol, das escuras nuvens carregadas de eletricidade ou lua de brilho leitoso e sombras de mistério a esconder amor e ódio, o bem e o mal, regentes da história humana.

O Bispo de Hipona filosofa quando diz: “Os vossos anos não vão nem vêm”. Deixa clara a existência única do tempo presente. No futuro estão os sonhos, desejos desse instante que aguardam consumação. O passado ocupa depósito da memória. Lá, frustrações e momentos felizes aguardam despacho no presente, onde o verbo grava a ferro e fogo a história, as marcas: desgaste da vestimenta natural dos animais, queda de folhagem, mudança de posição das pedras, nascimento e morte dos frutos. Eternas, as práticas humanas do poder, violência e credo.

O bem e o mal ocupam lugares na alma nos três compartimentos: presente do futuro, presente do presente e presente do passado, onde protegidos pela armadura da imortalidade, travam batalha de convivência.

A caverna, significativa morada, mereceu alegoria. Hoje, o homem mora nas ruas, favelas e edificações, a alma repousa no distante abrigo e assistem as sombras sem compreensão. Permanece sentada, falta aptidão e entendimento da força coletiva para remover a pedra que obstrui o caminho ou encontrar a passagem secreta por onde saem e entram os manipuladores das crenças. O tempo é criança, a maldade jovem sedutora que vestida de alta costura, desfila nos salões da moda.

O povo, presente do presente, na idade da pedra de craque, picado por insetos; bate panelas, pisca luzes nas cavernas, envia sinais de fumaça através de celular e dinheiro à China.

A organização do crime de pavio aceso e armas em punho rouba via internet, apaga do mapa agências bancárias e envia à funerária quem lhe atravesse o caminho. Falsos profetas retalham o mundo com explosivos sob a justificativa que a destruição da felicidade alheia é doutrinária. O moderno viaja pelo espaço, sentado em foguete e luneta rente aos olhos, à procura de outra moradia. Quando a terra perder atrativos se mudará com a família e amigos. Por enquanto, acompanha através do GPS a movimentação de aliados e adversários. Eles que se atrevam.

Arrocho para alma pequena que se curva, aceita a titulação de emergente, rasteja ao fingir estar de pé, e, por moeda de troca, oferta o labor e sangue de quem, por ignorar, aferrou a alma às simuladas crenças. O verbo é ação, o tempo é presente, onde se colhe o que germinou do plantio no presente passado. A humanidade constrói o destino, assim, através de milênios, a oferta do trabalho e vida pelos crédulos pode ser doação pelo elevado grau de entendimento do papel na história e falta às aulas magistrais do escritor uruguaio.

Quanto menos for o saber, a quantidade de pão, de moradias e mais intensa, a dor e a sangria, mais se multiplicarão em resistência ao extermínio e ausência às aulas magistrais da Escola do Mundo ao Avesso, nos quesitos de “impunidade dos caçadores de gente, dos exterminadores do planeta, do sagrado motor”.

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* Ed Arruda é do Recife – PE, especialista em telecomunicações. Há três anos se dedica à literatura e possui onze publicações em antologias: Editora Bagaço – PE (3), Scortecci Editora – SP (4), A. R. Publisher Editora – PR (1) e Litteris Editora – RJ (3). É participante dos Estudos em Escrita Criativa de Recife. Contato: etrecife@yahoo.com.br

** Extraído de O Silêncio das palavras: antologia Scortecci poesia contos e crônicas. São Paulo: Scortecci, 2018, p. 86-87.

“Algumas rimas”* | José Genecy Monte**

 

Palavras

Palavras! Expressão do pensamento,

Fenômeno exclusivo dos humanos.

Palavras! Que no acúmulo dos anos,

Nos suprem de vital conhecimento.

 

Podem trazer conforto ou desalento,

Assim como esperança ou desenganos.

Por vezes, modificam nossos planos

Até na execução de algum evento…

 

Uma frase sincera, quando dita,

No momento em que mais se necessita,

Pode trazer marcantes lenitivos…

 

Palavras de carinho, nos ouvidos,

Repercutem em todos os sentidos

E fazem nos sentir que estamos vivos!

 

 

Origem do universo

Que tudo tem começo, meio e fim,

Que não existe causa sem efeito,

Que de átimos o nosso mundo é feito

E que dele fazemos parte, sim…

 

Que da estrela ao satélite mirim,

No espaço, o giro elíptico é perfeito…

E que em toda matéria é preceito

As reações físico-químicas, enfim…

 

No entanto, o mais científico raciocínio,

Mesmo exibindo lógica e fascínio,

Sobre a origem do cosmos, é controverso…

 

Talvez a nossa humana inteligência

Ainda não tenha a exímia competência

Para entender a origem do universo!

 

 

O tempo (I)

Num minuto, nós vemos que no mundo,

O tempo é implacável e marcante,

Pois transcorre num ritmo constante,

Sem atrasar um único segundo.

 

Por vezes, nos impõe pesar profundo

Quando nos rouba algum sonho importante.

Ao seu modo, sutil e incessante,

Pode mudar o útil e o fecundo.

 

Os dias passam, passam-se os anos,

A esperança, a saúde e os desenganos,

Com o tempo insensível e duro…

 

E assim, tudo vai sendo transformado…

Os mais velhos lembrando do passado,

E os mais novos pensando no futuro.

 

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* Extraídos de Algumas rimas, José Genecy Monte. Editores: Antonio Clauder A. Arcanjo, David de Medeiros Leite. Mossoró, RN: Sarau das Letras Editora, 2016.

** José Genecy Monte é médico e há pouco tempo começou a nos presentear com Poesia. E o livro chegou às minhas mãos graças aos caríssimos poetas e editores da Sarau das Letras Clauder Arcanjo e David Leite. Contatos: clauderarcanjo@gmail.com e davidleite@hotmail.com

 

“Ipê amarelo”* | Raldianny Pereira**

Descobertas

 

Caminhando, caminhando…

Pelo mundo conheci

Lugares vários

Coisas mil.

Maravilhei-me!

 

Caminhando, caminhando…

Na vida encontrei

Pessoas inúmeras

Ali e aqui.

Espantei-me!

As pessoas são mesmo de arrepiar!!!

 

 

Leitura

 

Ela aprendeu a ler

E leu.

Tão direitinho.

Serena.

Centrada.

Calma.

E sua voz clara

Ficou na minha alma.

E sua alma

Ficou nos meus poemas.

Na vida dos meus versos.

Nos versos da minha vida…

 

 

Filho único

 

Tenho um filho único.

E você?

 

Eu tenho seis filhos únicos.

 

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* Extraídos de Ipê amarelo, Raldianny Pereira. São Paulo: Giostri Editora, 2015.

** Raldianny Pereira nasceu em Rio Tinto, Paraíba. Na infância, viveu no Rio de Janeiro, São Paulo e Pará. Aos 12 anos, passou a morar em Olinda. A partir da adolescência, fez seus estudos em Recife, onde reside hoje. Formou-se em jornalismo, fez mestrado em comunicação e doutorado em sociologia na Universidade Federal de Pernambuco, onde leciona desde 2009.

“Trabalha com as palavras desde que aprendeu a ler! No entanto, lhe custou a coragem de publicar seus escritos, a partir de 2013, em coletâneas poéticas.

Desde 2008 tem se dedicado também às artes plásticas, principalmente desenho e pintura.

Desde 2011 é mãe de um menino lindo. Adora crianças… adora pessoas! Ama essa terra… Ama o Brasil! Ipê amarelo é o primeiro… de outros livros que virão!

É participante dos Estudos em Escrita Criativa de Recife. Contato: raldianny@gmail.com

Estudos em Escrita Criativa – Setembro, 2018 | Recife e Porto Alegre

Nos aproximamos dos últimos encontros de 2018 dos Estudos em Escrita Criativa em Recife e Porto Alegre.

E que alegria ver o resultado dessa construção… Textos ficcionais e poéticos de beleza ímpar, inspirados nos teóricos, ficcionistas e artistas da primeira parte dos encontros, nos depoimentos, na terceira parte, dos escritores convidados em parceria com a UBE em Recife, com a PUCRS em Porto Alegre.

Em Setembro, 2018 trabalhamos O sonho. Navegamos pelo inconsciente de Jung, Freud, a ficção de Arthur Schnitzler, Chistopher Nolan, e tantos outros. Recebemos Ana Maria César nas terras pernambucanas. Voamos para nos encontrar com Gisela Rodriguez e Fred Linardi no pampa gaúcho.

Outubro, 2018 será muito especial. Trabalharemos teóricos e ficcionistas, artes plásticas, cinema, música sob o tema da imagem. Receberemos em Recife, no dia 06/10, das 10h às 13h, a nossa queridíssima orientadora de mestrado na UFPE, a artista plástica, professora, curadora Maria do Carmo Nino. Em Porto Alegre, os doutorandos em Escrita Criativa também queridíssimos da PUCRS, María Elena Morán e Daniel Gruber, na noite de 10/10, das 18h30 às 21h. E muito mais!

E apresento os textos maravilhosos dos participantes dos encontros sobre O sonho de Recife e Porto Alegre, já sentindo o gostinho de quero mais que os nossos Estudos em Escrita Criativa vão deixar em todos nós…

Um abraço bem grande da

Patricia Gonçalves Tenório.

 

EEC Setembro Recife

Recife, 01/09/2018

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

SONHO DE UMA NOITE DE SONHOS

 

Estaria participando daquela festa? Parecia um palco e nele um aglomerado de pessoas ensaiando várias apresentações. Todas unidas para dar certo, colaborando entre si para o trabalho conjunto.

O local parecia uma quadra. Estava escuro e não dava para observar nitidamente as pessoas. Intuía que fossem várias: homens, mulheres, jovens, crianças. Estaria naquele espaço um pouco distante, como se fosse uma observadora, embora ciente de que entraria, em breve, para junto daquela multidão superatarefada, parecendo um enxame de abelhas de tanto movimento.

Mais além um casal estaria lhe observando os movimentos em outro espaço contíguo ao palco dos artistas. Olhou para o casal, ciente que se uniria a eles numa dança para voltar completa.

De volta ao palco, juntar-se-ia àquela multidão e se dissolveria totalmente naquela coreografia, alegre, vibrante, agora colorida.

Abriu os olhos e pensou que, talvez, um dia (ou mesmo numa noite), enxergaria bem melhor o sonho da verdadeira dança da vida.

 

 

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

A PROVA DO CRIME QUE NÃO COMETI

 

Dos sonhos que tive, poucos eu me lembro. Mas, dos poucos, um me atordoou. Os acontecimentos foram tão claros, decisivos e inequívocos que eu mesma tive que lutar comigo, para me convencer de que eu era inocente. Estava voltando para a minha cidade, quando recebi uma mensagem de uma amiga, do tempo do internato. Naquele final de semana eu ficaria em casa de parentes, que residiam no interior, mas o convite era irrecusável: um final de semana na casa daquela amiga, cuja morada ficava entre as serras. Amigos se encontrariam para uma comemoração, da qual, o motivo seria mantido em segredo. Até a chegada de todos. Comuniquei aos familiares e desviei a minha rota.

Cheguei ao destino no finalzinho da tarde da sexta-feira. Fui recebida pelo dono da casa, que me deixou muito à vontade. A minha amiga Carol, era esse o seu nome, não se encontrava, havia ido ao salão de beleza, preparar-se para a grande noite.  Fui levada à suíte que ocuparia. Aproveitei para relaxar um pouco. Estava cansada da viagem. Quando acordei, já era noite. Tomei um banho quente, estava frio o tempo. Botei uma roupa apropriada para o momento, fiz uma leve maquiagem e desci ao térreo, onde ficava a sala de recepções. Lá, muitos convidados já se encontravam. O ambiente ricamente decorado. Flores, as mais belas. Lindos lustres iluminavam cada recanto da casa. Na varanda, uma orquestra tocava bonitas canções. Alguns casais dançavam. E lá no alto, entre as montanhas, uma lua cheia completava o lindo quadro.

Num momento, a orquestra parou e ouvimos a voz de Carol agradecendo a presença de todos e dando a grande notícia: “estava grávida!” Dali, seguiram-se abraços, beijos, sorrisos e lágrimas de alegria. A orquestra voltou a tocar e o jantar foi servido. Pratos saborosos, acompanhados  de um bom vinho animaram mais aquele momento. À meia-noite, despediram-se os últimos convidados.

Recolhi-me aos aposentos. Dormi rápido e, como sempre, acordei cedo. O sol não havia ainda saído de todo. Só alguns raios sugeriam o amanhecer. Abri as janelas para aproveitar aquele ar puro. Tamanha foi a minha surpresa, ao olhar a piscina, que perdi o controle emocional: um corpo boiava!  Corri ao banheiro, botei um vestido, peguei a bolsa e saí rápido. Ninguém me viu. O temor e o terror dificultaram-me pôr a chave na ignição. Saí a toda velocidade. Já havia me distanciado quando lembrei que havia deixado a roupa de dormir no banheiro. E lembrei também que, desde o tempo do internato, adquirira o hábito de colocar no avesso das minhas vestimentas, as iniciais do meu nome. Acordei apavorada.

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

DESASSOSSEGO NOTURNO

 

Lembraria por muito tempo, o desassossego.

Vindo de noites longínquas…

E buscaria explicar, tentaria entender

O significado de tudo aquilo

Eram tentativas inúteis

De expulsar de si

O conteúdo estranho…

Que se nada fosse feito

Bloquearia sua garganta

Se nada fizesse lhe sufocaria…

A cada noite

Se repetiria o gesto

Abriria a boca e puxaria para fora de si

A gosma aparentemente sem fim

Que mesmo depois de muito retirada,

Ainda permaneceria no interior de sua garganta

Sufocando-a…

Acordaria mais um dia e não entenderia o significado do sonho

Buscaria novamente, inutilmente, explicações

E estas viriam por fim no sentido de trair segredos

De expor razões

De mostrar verdades

Que enfim chegariam à luz pela escrita

Que por fim lhe esvaziaria por inteiro.

E lhe preencheria de luz.

 

Gabi Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

não conseguia dormir.

horas se passavam e

o teto que encarava

não se mexia

e ela começava a

considerar que ele

teimaria em assim permanecer

 

sentia saudades do tempo

em que sonhava.

um tempo de sono fácil

e mundos inteiros criados

no universo de seus olhos fechados.

 

ela ansiava perguntar

o que acontecera

para perder a capacidade de sonho

mas temia que a

mais dolorosa resposta

seria a única verdadeira.

 

então, no fim das contas,

fecharia os olhos em mais

uma tentativa frustrada

de o sono chamar

e só o que desejaria

era poder viver

tudo que um dia

fora capaz de sonhar.

 

 

Guilherme Augusto

Contato: guilhermetrekke@gmail.com

 

estava acordado?

estava dormindo?

não sei ao certo, mas sei que estava voando.

não sei se era sonho.

não sei se era realidade.

mas sei que estava voando.

isso é possível?

como poderia, eu, estar voando?

isso deve ser um sonho.

isso deve ser a realidade.

deve ser a junção do real e do imaginário.

são tantos questionamentos

comecei a cair

senti um peso se instalando em meu peito.

devo continuar levantando?

devo cair?

continuei a cair

então, eu compreendi

a paz que estava em mim me fez voar.

a guerra que estava em mim me fez cair.

no fim, quem iria vencer?

eu quero voar, mas não posso abandonar meus questionamentos

foi quando voltei a voar

decidindo viver no equilíbrio

abri meus olhos

com um sorriso no rosto

pois havia entendido

meu corpo estava na cama

mas minha alma voava

entre a paz, a guerra, o sonho, o real, a razão e o amor.

 

Ina Melo

Contato: ina.melo2016@gmail.com

Imagem de Ina Melo

 

Gostaria de sonhar com um amor encantado nas galáxias e no seu forte e poderoso abraço! Todas as vezes que nos encontrávamos era como se os tentáculos de um polvo me esmagasse. Nessa fusão de corpo e alma tudo era permitido. O amor se fazia  com leveza. A chama ardente do desejo nos oferecia um mundo de emoções do qual não queríamos sair.

Tudo acontecia com os corpos colados e os corações batendo em descompasso!  Mãos ansiosas se encontravam no toque. Bocas sedentas mergulhavam uma na outra deixando as línguas enroladas num mundo de sensações. Naquele  momento o sonho se fazia realidade e um era o outro, respirando o mesmo ar e provando o mesmo sabor doce do amor! Ah! Saudades! Ainda bem que os sonhos são sonhados!

 

João Orlando Alves

Contato: joaoorlandoalves@yahoo.com.br

 

UM SONHO

 

O sonho da vez seria aquele contido na anterioridade da memória consciente. Transcendendo, haveria o personagem Carlitos, expondo à humanidade, por meio de situações adversas, a capacidade do humano de não se aferrar às agruras, emprestando beleza à vida.

Essa evocação teria sido despertada em uma escola de música e dança na periferia da cidade carente de suporte material: crianças e adolescentes em trajes rotos e sem ferramentas adequadas, no entanto, vencendo esses infortúnios com alegria e comprometimento com a arte. O sorriso indicava um ser feliz.

Haveria o sonho possível, às vezes imemorial. Nasceria aquela escola desse evento. Teria um dos protagonistas mirins, sonhado com a música e arrastado tantos outros ao aprendizado.

Sugere-se estaria aquém da percepção imediata de ocorrência de atividade psíquica de que o indivíduo se apropria, àquela com elementos substanciais que levariam ao criar.

Enfim, o sonho além de pacificar a mente, também alcança a dimensão como a de José no Egito antigo.

Cada pessoa é um sonho!

 

Rackel Quintas

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

CARTA DE UM IN-SONHE AO AMOR

 

Eu queria que todos os sons. E luzes. E planetas. Me dessem a dignidade de uma noite insone. Gostaria que o amor, assim como o sonho meio-morte, fosse feito de descanso e virtude, como uma maçã durinha, cheia de suco até a semente. Gostaria de cantar hinos, clamores de comemoração a um amor frágil, enlaçado pelo desejo cansado, de permanecer vivo, semeando, gerando. Gostaria que esse amor fosse contado em rede nacional, na rede, no quintal de uma casa feita pra ele crescer. Gostaria que meu dentro não fosse tão barulhento, que aceitasse a chuva fininha, que não mal-dissesse os dias de verão. Gostaria de mais banhos de chuva, e praças escondidas em lugares óbvios da cidade. Gostaria de crises de sinusite, de riso, de choro, com o lugar do desespero ancorado em alguma certeza de que não se sabe, mas se ama.

Gostaria de um véu de leite condensado e rosas, a dar a todas as crianças que ali comparecessem, para aprenderem como é doce, longo e terminável o amor que cura. Gostaria da textura permanente das cadeiras habitadas e depois vazias porque horas, minutos, dias, se contaram a fio até que sumisse para sempre o amor de outrora. Gostaria que as conversas fossem feito amoras, que tivessem sempre uma fogueira como testemunha das prosas, que houvesse tempo de aconchego, e amor. Gostaria de ter coragem de admitir-me berço e vontade, de discriminar as cores das minhas próprias palavras; de poder dizer azul ao amargo e vermelho ao sangue carne da vida que nos apetece. Gostaria de dizer que mesmo sabendo que vivo sem o amor, ainda assim o desejo, para o quanto de vida tiver a gastar. Gostaria, gostava, gosto. Da inveja aos olhos alheios, do som na varanda suspensa e na taça. Das taças. Nossas. Já há algum tempo. Desmascarando mentiras que eu mesma inventei para não amar. Pra bem-dizer o destino amaldiçoado. Eu queria que todas as noites insones me rendessem alguma poesia, mas é o passarinho de barriguinha cheia que pousa em mim, na minha janela, e encanta a vida como se eu quisesse vivê-la e não dormi-la. Como se sonhar fosse uma vida pra dentro e querer uma vida pra fora. Hoje, gosto de Caetano e Chico, do grande amor que não se acaba assim. Hoje, sonho e benzo o amor, Carmim. Puro e machucado por ele, por mim. Hoje eu gostaria. Quero. Um amor assim.

EEC Setembro POA

Porto Alegre, 12/09/2018

 

Ana Paula Bardini

Contato: apbardini@terra.com.br

 

 

A sensação de angústia persistiria pelo longo do dia. Nem bem acordara e já tinha esta certeza. Como poderia uma mãe abrir mão de seu próprio filho? Negando-lhe amor e cuidado, estando tão perto e disponível para o outro filho, irmão gêmeo deste, que acolhera com todo o seu coração? Seria instinto ou egoismo? Enquanto isso, o infante preterido dormia serenamente alheio ao que o destino lhe preparara. No momento ainda não sabia, mas viria a sentir na pele – e calaria na alma –  a dor do abandono materno. Jamais descobriria o motivo de tanto desamor. Cresceria à própria sorte, ainda que em família. Seria isso o bastante? Quais seriam as suas chances perante tamanha barbárie? Estar perto sem estar realmente próximo?

Um desconforto crescente a fez despertar, o sonho lhe parecera tão vívido que custara a acreditar que voltara à realidade. Ainda ofegante, lembrava flashes e revivia o sofrimento que comungara com aquela pobre e indefesa criança. De alguma forma ela se sentira conectada à dor dele que também era sua.

Neste instante o despertador a lembraria de seus compromissos da manhã. Eram muitos nesta quarta-feira chuvosa. Desligou. Aliviada pela bem-vinda interrupção, como quem retorna de um mundo distante, levantou. Organizou mentalmente as tarefas por ordem de prioridade. Primeiro prepararia um café, bem forte, com certeza a ajudaria a distanciar-se do sonho e a encarar o dia. Depois, a rotina se encarregaria do resto. Apostava nisso e  secretamente um pensamento lhe acompanharia pelo restante da semana: Amor de mãe deveria ser obrigatório.

 

*

 

Ando tendo sonhos…

Destes que inquietam

De novos caminhos

Onde se arquitetam

 

Vidas mais leves

Sorrisos mais fáceis

Amores menos breves

 

Ando tendo sonhos…
Destes que acalentam

Intensos, advinhos

E também desassossegam.

 

#APB

 

 

Gabriela Guragna

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

Enquanto as folhas, regadas a vinho tinto, se contorciam em ardor, ela correria buscando as paradas de ônibus da vida. Embarcaria para a Austrália. No rolar das escadas que a conduziriam ao subsolo, perceberia a falta do passaporte.

Entregaria a carteira de identidade da irmã para ela, e a carteira de motorista do pai para ele. A bolsa ficaria leve e encontraria a própria identidade, borrada pelo vinho que banhava as folhas ocultas. Correria pela mata do aeroporto, e puxaria de uma máquina a lista de amores antigos separados por categorias.

Família em segunda-feira

Trabalho em feira de domingo

E ele ali na feira destaque do dia de agora.

 

 

Kênia Medeiros

Contato: kenia_poa@yahoo.com.br

 

PÓS-CRÉDITOS

 

Os créditos começavam a subir, quando a luz foi acessa. Enquanto alguns, preguiçosamente, se dirigiam à saída, outros esperavam adaptar os olhos à claridade. No entanto, fiquei esperando por uma última cena, como um bis num show musical.

Não demorou para que surgisse na tela o herói que, misteriosamente, havia desaparecido em uma das cenas finais do filme. Ele despertaria à beira do rio no qual, imaginava-se, havia se afogado. Quando começou a se levantar, ainda sem saber onde estava, uma luz repentina quase me cegou. Ouvi um barulho estridente, que fez meu coração disparar. De repente, era eu na margem daquele rio. Desorientado, assustado, com medo do que estaria por vir.

Quando, enfim, me acostumei à claridade, percebi onde estava. Já não era um lugar estranho, mas o medo do que viria permaneceu. Estava em meu quarto, com o despertador tocando e com o sol brilhando através da janela. E, diferente do herói que se levantou pronto para encarar qualquer perigo, me levantei resignado para a batalha diária de uma vida sem ação.

 

Susi Franke

Contato: susifrankett@gmail.com

 

Eles são maravilhosos, um casal muito especial, muito amados. Ela, artista, trabalhando xilogravura, telas, filha de produtores de café, do interior paulista. Ele, húngaro, que veio para o Brasil à procura da realização de um sonho, trabalhar com aviação. Acabou se transformando num famoso projetista da Embraer.

Encontrei-os num sonho.

Apesar da idade avançada, continuaram encantadores, cheios de vida, com um sorriso no rosto.

Sairiam para um passeio na casa de campo, numa fazenda aeródromo do interior paulista. Passariam lá alguns dias, com amigos. Um era meteorologista, sua esposa médica, vegetariana, que traria muitos ensinamentos sobre nutrição. Outros, pilotos, sempre os grupos se formando com conversas animadas e um bom violão para animar ainda mais o encontro.

Estariam todos prontos para decolar?

Desapareceriam no azul do céu?

 

Sala de imprensa

PHOTO-2018-09-10-09-25-58

Folha de Pernambuco, 08 e 09/09/2018

PHOTO-2018-09-26-08-52-03

Jornal do Commércio, 26/09/2018

Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Agosto, 2018

Descubro

Na palavra

Um suporte 

No qual me apoiar

Um alívio

Em desabafar

A angústia 

De não ter controle

A Patricia

Sem linha

Caneta

E cor

 

Na palavra

Me descubro

Inteira

Portadora

Do segredo

Mais íntimo

Mais âmago 

Que nem eu mesma

Sabia

 

Sorrio

Quando

A caneta

Sulca o papel

Em letra de forma

E reconheço ali

Todo um sentido

(“Toda poesia”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/08/2018, 15h34)

 

O amor à Escrita no Índex de Agosto, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Uma autobioficção | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Um poema de escrita | Cilene Santos (PE – Brasil).

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Sete anos | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelando | Mara Narciso (MG – Brasil).

“A mulher faminta” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

E o link do mês com um poema de Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 30 de Setembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – August, 2018

 

 

I discover

In the word

A support

To support me

A relief

To vent

The anguish

Of not having control

A Patricia

Without line

Pen

And color

 

In the word

I discover myself

Entire

Bearer

Of the most intimate

Secret

More core

Like myself even

Knew

 

I smile

When

The pen

Groove the paper

In shape letters

And I recognize there

A whole sense

(“All poetry”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/14/2018, 3h34 p.m.)

 

The love of Writing in the Index of August, 2018 on the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

An autobiofiction | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A writing poem | Cilene Santos (PE – Brasil).

WORD OF TRAVELER (Lisbon) | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Seven years | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelling | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Hungry Woman” | Tiago Germano (PB / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – August, 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

And the link of the month with a poem by Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Thank you for the affection and participation, the next post will be on September 30, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando a Escrita entra pelas Janelas da Alma. When the Writing enters through the Windows of the Soul.

 

Uma autobioficção* | Patricia Gonçalves Tenório**

Maria acordou cedo. Olhou para o lado. Para onde foi João? Para onde foi o amor que tanto lhe provocara?

Começaria um dia em branco. Escreveria uma nova história como se entranhasse no seio de sua mãe, e sulcasse o papel com a caneta Bic, preta, a tinta quase acabando, mas que rende tantas páginas.

Hoje seria diferente. Começaria pelo fim do dia, a chegada em casa, café para os filhos, banho, perfume, se preparar para o esposo-amante, e deixá-lo invadir as células cerebrais, os líquidos no estômago, e retirasse de si alguma ideia inusitada, e já haviam pensado antes desde os tempos atávicos.

Porque não havia nada de novo a ser escrito,  tudo fora dito entre os amantes, e sentou-se nua na cadeira da escrivaninha.

Olhou para ele. Entristeceu. Aceitou que era pobre e não havia nada a oferecer, a Maria. A mão pegou a caneta quase sem tinta preta e escreveu uma palavra.

(“Ave, Maria!”, Patricia Gonçalves Tenório, 17/08/2018, 05h40)

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* Feliz coincidência entre o tema dos Estudos em Escrita Criativa de Agosto, 2018 – escrever sobre o amor à escrita -, e o primeiro exercício da disciplina Teorias da Criação Ficcional, ministrada pelo Prof. Dr. Amilcar Bettega no PPGL da PUCRS, que assisto como ouvinte.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

Um poema de escrita | Cilene Santos*

Buscando um Verso

 

Minh’alma está sedenta de poesia

Mas nenhum verso consigo escrever

De um poema que em mim anda vazio

E está cheio da saudade de você.

O coração me bate acelerado,

Quando penso em ti, toda manhã,

Exaurido da espera improfícua,

Caça em vão o meu verso com afã.

E tua ausência, que se faz presença,

Me torna assim, desnorteada e tola

E não me deixa gestar o meu poema.

Abortando-o sinto-me rendida

Impotente, incapaz de reavê-lo.

Acho que de mim anda a musa esquecida.

 

Março/17

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Cilene Santos é professora aposentada, poeta e vem todos os meses de Caruaru para Recife para participar dos Estudos em Escrita Criativa. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi*

Digite “livraria” no Google Maps, veja o que aparece nos bairros centrais de Lisboa, e você estará em apuros. Se você morar na cidade e tiver tempo, os apuros são financeiros; se você estiver por poucos dias, seus apuros estarão em escolher quais delas visitar.

A despeito das mais conhecidas, um dia fomos cruzando as ruazinhas e vielas do Baixo Chiado, até uma dessas menos mencionadas. Ela tinha aparecido no mapa como uma loja próxima de onde estávamos. Dava para ser naquele dia, e valia a pena! A livraria “Palavra de Viajante” é, oras pois, especializada em livros de viagem, desde os óbvios guias de turismo até os mais variados relatos de viagens empreendidas pelos escritores, assim como as narrativas onde toda a história é ficcional.

Pulemos os guias e vamos para os livros que fazem com que a gente se perca categoricamente em suas histórias. Estão lá Bruce Chatwin, Paul Theroux, Henry David Thoreau, Tiziano Terzani, John Reed e tantos outros que foram, voltaram e relataram. Há também aqueles que empreenderam viagens totalmente imaginárias, como Xavier de Maistre, Ítalo Calvino e Alessandro Baricco. Aliás, todo o fôlego perdido nas ladeiras da cidade foi definitivamente aniquilado diante de uma edição ilustrada e indescritível de “Seda”. Ainda contamos com os teóricos, diante de tantas reflexões que ainda não cruzaram os mares até nosso mercado editorial. “As viagens de Gulliver” estão lá, claro! A jornada de “Pinóquio” também, pois como uma livraria dessas não se dedicaria ao setor infantil? “A Viagem do Elefante”, de Saramago, adaptada para as crianças, está lá também.

Passei um tempão vendo quase todas as prateleiras e amaldiçoando a violenta conversão monetária. Peguei um teórico escrito por Paul Theroux sobre narrativas de viagem. A simpática senhora que cuida da livraria perguntou se eu queria pensar para levar depois, e reservou em sua mesa. Não fui buscar ainda. Ela deve estar achando que eu desisti. Eu considero um ato falho.

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** Fred Linardi (Americana/SP, 1982) é jornalista graduado pela Universidade Mackenzie, escritor e palhaço. Especialista em Jornalismo Literário, atualmente é mestrando em Escrita Criativa na PUCRS, escrevendo uma biografia sobre uma palhaça brasileira e aprofundando sua pesquisa em literatura de não ficção.  É sócio da Biografias & Profecias, editora focada na publicação de memórias familiares e empresariais. No campo da ficção, em 2017 foi contemplado com o 2º lugar no Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, na Jornada Literária de Passo Fundo. Contato: fred.linardi@gmail.com

Catopelando | Mara Narciso*

Nos anos 1960, a nostalgia fala: não havia decoração pública nas Festas de Agosto de Montes Claros. Nem esse nome havia. Quando meiava o mês ventoso – “agosto chega como a ventania, cálice bento e abençoado, a dor do povo de São Benedito, no mastro existe para ser louvado” (Tino Gomes e Georgino Júnior) – os dançantes saiam para a rua. O Congado, nossa mais ardorosa tradição, tem na devoção a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e ao Divino Espírito Santo o motivo da festa.  As violas dos marujos de vermelho e azul (uma dissidência é branca) e dos caboclinhos com arcos, flechas e tangas de penas de galinha circulavam pelo centro da cidade. Ano após ano, podia-se ouvir a batida dos pandeiros, caixas e tambores dos catopês, com sua dança cadenciada, indo e voltando em fila indiana, com os estandartes e uma fé candente. Eram grandes em sua coragem e veneração aos santos, mas minguados em número. Na verdade, o Segundo Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, tinha à frente o grande Mestre João Faria, desde os 17 anos, e uma dúzia de homens e meninos, quase todos descalços, nem mesmo sandálias de borracha possuíam, trajavam roupas brancas surradas e empoeiradas, com minguadas fitas coloridas nos capacetes, traços que marcam o grupo, e uma dolorida cara de sofrimento. Não dá para tirar isso nem da História e nem da letra da música “Montesclareou” cujo verso diz “meus olhos cegos de poeira e dor”.

A antiga Igreja do Rosário, no meio da praça, foi derrubada pelo progresso e outra moderna com formato de barco passou a abrigar os dançantes em seus rituais, debaixo da quentura abafada do lugar. Lá se vão décadas e a festa mudou, recebeu o apoio de políticos, da população e especialmente da classe média, que aderiu e apoiou financeiramente, com jantares coletivos e doações, mesmo sem verbas oficiais. Sem contar os príncipes e princesas e quase toda a corte, que são provenientes da classe abastada, onde estão os festeiros que organizam o almoço dos participantes. Sem isso, a Festa dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, negros, brancos e índios, respectivamente, este ano em sua 179º edição, 18 anos anterior à emancipação de Montes Claros, poderia ter desaparecido. Quem vê sua grandiosidade hoje, coligada ao Festival Folclórico – 40ª edição, apoiada e admirada pela plasticidade da sua dança, beleza e longevidade, nem sonha como já foi.

A classe média entrou nos ternos seguindo um ritual complexo, a começar pela exigência de fé, respeito às tradições e comparecimento aos ensaios. Chegou com trabalho e participação no cortejo. Não pode descaracterizar os rituais nem os figurinos. Os capacetes dos catopês mudaram, adquirindo pedrarias, penachos de pavão, e fitas coloridas até o chão. As faixas transpassadas no peito mostram a graduação dentro do reinado. Os chegantes estão, obviamente, sob o comando dos mestres e muitos se apresentam há décadas. São importantes na manutenção da festa, mas há discordantes veementes, que querem apenas os dançantes de raiz no desfile. Dentro dos limites estipulados, a manutenção dessa infiltração respeitosa é bem-vinda. A discussão e palpites são antigos, e alguns olhares externos querem expurgar o Festival Folclórico e dizer como os dançantes devem se comportar.

As Festas de Agosto, quer gostem ou não, valorizem ou pensem que sejam artificiais e aculturadas, mobilizam a cidade durante quatro dias e quatro noites, tumultuando o centro e trazendo vida e alegria ao sofrido povo da cidade.

Muitos querem ver, fotografar e filmar o desfile que começa na Praça Dr. João Alves e desce até a Praça Portugal na direção da Igreja do Rosário. A cacicona Maria do Socorro Pereira Domingues, no comando dos caboclinhos, é a única mulher a ocupar esse cargo. O Mestre Zanza – João Pimenta dos Santos, catopê da velha guarda, tem 85 anos, desfila desde o nascimento, e esse apelido foi-lhe dado pela mãe, porque ficava “zanzando” pela casa. Firme no cortejo até hoje, tem recebido homenagens e honrarias. O Mestre João Faria, um carroceiro na vida real e um rei na vida de sonho e sua inconfundível marcação de ritmo, partiu aos 74 anos, em 10 de janeiro de 2018. Nesta festa, a passagem do seu Terno, comandado pelo neto Yuri Farias Cardoso, de 19 anos, arrancou lágrimas dos mais sensíveis, inconformados com as perdas definitivas.

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Mara Narciso é médica e escritora de Montes Claros (MG) e toda semana me presenteia com suas crônicas belíssimas. Contato: yanmar@terra.com.br

Sete anos | Raldiany Pereira*

Nossa senhora das crianças crescidas

Rogai pelas mãezinhas zelosas

Que procuram, perplexas!

Seus bebês e criancinhas perdidas…

 

Lembro bem

Tenho certeza

Foi ontem ainda

Ouvia lá fora

A voz grave e suave

De meu amoroso pai

E dedilhava as cosquinhas

De minha amada mãe

Dentro de sua barriga!

 

Logo depois foi aquele…

Acuda-nos Deus!

Não sabiam o que fazer

Para silenciar

Os choros meus.

 

Berço, móbile, mosquiteiro

Banho no balde

Banho de sol

Primeiro banho de mar

Primeiro banho de piscina

Primeiro banho de chuveiro

Em pé, com sete meses, no banheiro.

 

Chocalho, babador, sling, carrinho…

Passeios manhã e tarde pelo condomínio.

 

Meu primeiro dentinho

Minha primeira febre

Meu cabelo ralinho.

 

Sentei, ajoelhei, dei meu primeiro passinho.

Aos nove meses,

Desembestei na carreira!

Que asneira!

Que tombo!

Que galo!

Era bebê… e me sentia menino…

 

Meninote fui para a escola

E encontrei outras criancinhas.

Lembro-me especialmente de Teresa…

Como chorávamos!

Sem querer largar nossas mãezinhas.

 

Ainda usávamos fraldas

E não largávamos nossas chupetinhas

Presas aos paninhos

Cuidadosamente guardados

Entre nossas mãozinhas.

 

Trenzinho, barquinho, carrinho, peteca…

Blocos de madeira, blocos de montar, legos minúsculos…

Triciclo, patinete, bicicleta sem rodinhas…

Super-heróis, super-vilões…

Bombeiro, mocinho, polícia, ladrão…

Bola de meia, bola de gude, pião…

Pipa, patins, tobogã…

 

O que é isso?

Caiu seu primeiro dentinho?

Nossa!

Já nasceram outros seis!

 

Qual seu nome?

Quantos anos você tem?

Me chamo Pedro Antonio.

Completo sete anos em julho.

Dia 26.

 

Cresço. Cresço.

Cresço rápido demais.

Vê…!

Já quase alcanço

O ombro de minha mãe.

 

Ao meu filho querido

e a todas as pessoas que fazem parte

da sua história, imprimindo em sua vida

doces memórias.

Raldianny Pereira

26.07.2018

Em maio de 2014, Antonio Menezes deu uma entrevista. Ele foi um dos repórteres que cobriu a passagem da seleção brasileira de futebol pelo Recife na Copa de 1958. Tia Íris, então professora do maternal, assistiu a entrevista, reconheceu o pai de seu aluno e me falou sorrindo: “Pedro Antonio vai ter muitas histórias para contar”.

Em maio de 2016, Antonio Menezes partiu. Seis meses depois, em novembro do mesmo ano, Tia Íris também cumpriu sua jornada.

Poderíamos dizer… “gostaríamos que eles estivessem aqui… celebrando o 26 de julho de 2018 conosco”. Seria uma verdade. De fato, queríamos muito os dois abraços. Como abraçam gostoso!

Mas eu e Pedro Antonio preferimos dizer que nossos amores celebram a vida conosco numa vida de outra dimensão. E se nossos sentidos não conseguem percebê-los na dimensão dessa outra vida, nossos sentimentos atravessam o véu e os abraçam. Como sempre!

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Raldiany Pereira é escritora, mãe de Pedro, e participaram pela primeira vez dos Estudos em Escrita Criativa em 11 de Agosto de 2018, quando foi lido o belíssimo “Sete anos”. Contatoraldianny@gmail.com