Branca de Neve e os sete anões: Uma releitura em versos* | Cilene Santos**

Algumas palavras

 

No princípio seria um cordel, mas as ideias foram brotando e transformou-se em um livro, obedecendo ao modelo cordeliano de versificação.

Tomara que esta roupagem diferente, na apresentação deste clássico da Literatura Infantil, desperte na criança o gosto pela leitura e contribua para a formação de mentes críticas, capazes de entender e transformar o mundo.

 

Cilene Santos

 

____________________________________

Cilene1

Cilene 5

____________________________________

* Branca de Neve e os sete anões: Uma releitura em versos. Cilene Santos. Recife, PE: Editora da Universidade Federal de Pernambuco, 2017.

** Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Índex* – Fevereiro, 2018

O gosto 

De tarefa cumprida

Quando

Se escreve

Um teorema

No mais alto

Grau

Do mais profundo

Âmago

De minha alma

Poeta

Se refaz

O mundo inteiro

Se constrói 

A mesma história 

Mas de maneira

Diferente 

Como se eu

Nascesse de novo

E transmutasse

Carne

Em verbo

Com forma

Cheiro

E cor

(“Quando se escreveu uma tese”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/02/2018, 18h50 e 19h36)

 

A forma, cheiro e cor da Escrita Criativa no Índex de Fevereiro, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Homenagem a Jorge Tufic (AC – Brasil).

Mulheres fantásticas IV | A mulher papel | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Mudando paradigmas | Mara Narciso (MG – Brasil).

“Avesso: o Livro da Insônia” | Henrique Beltrão de Castro (CE – Brasil).

“Crônicas de um sereno em duas rodas” | Tibério Pordeus (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e atenção, a próxima postagem será em 25 de Março, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index* – February, 2018

 

 

The taste

Of completed task

When

We write

A Theorem

At the top

Degree

From the deepest

Heart

Of my poet

Soul

Is remapped

The whole world

Is constructed

The same story

But in a different

Way

 

As if I was

Born again

And transmuted

Flesh

In verb

With shape

Smell

And color

(“When we wrote a thesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/14/2018, 6:50 p.m. and 7:36 p.m.)

 

The shape, smell and color of Creative Writing in the Index of February, 2018 of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Homage to Jorge Tufic (AC – Brasil).

Fantastic Women IV | The woman paper | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Changing Paradigms | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Book of Insomnia” | Henrique Beltrão de Castro (CE – Brasil).

“Chronicles of a Serene on Two Wheels” | Tiberius Pordeus (PE – Brasil).

Thanks for the care and attention, the next post will be on March 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_7479

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O arco-íris da Escrita Criativa em Recife, Pernambuco. The rainbow of Creative Writing in Recife, Pernambuco. 

Estudos em Escrita Criativa, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório*

O que?

 

Os Estudos em Escrita Criativa nasceram em agosto de 2016 na necessidade de compartilhar tudo o quanto eu estava apreendendo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, tudo o quanto eu havia apreendido na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, tudo o quanto eu havia apreendido a vida inteira, desde que iniciei meus estudos em ambiente extra-acadêmico em 2005.

Cada escritor tem um processo diferente na preparação para construir a própria obra. No meu caso, sinto que a teoria literária alargou a poesia, a crítica engrandeceu a ficção. Foram barro para meus vasos em flor.

Existe ainda muito preconceito em relação à Escrita Criativa. De que os escritores não precisam estudar para criar. De que a teoria engessa a ficção. De que o escritor nasce pronto.

Mas a origem da Escrita Criativa vem dos tempos ancestrais. Reza a lenda que a mãe de Virgílio, o autor da Eneida, sonhou quando grávida com um loureiro. Consultou um mágico e este revelou, para alegria da futura mãe, que o filho seria um grande poeta. Mas advertiu: ela deveria enviá-lo para Roma para que aprendesse com os grandes poetas da época.

Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilhava os segredos em diários. Henry James derramava em cadernos a arte da ficção. Autran Dourado explicava as técnicas de carpintaria dos textos. João Cabral matematicamente limava os versos. Na França, encontramos os Ateliers d’Écritures, nos anos 60 do século XX com Elisabeth Bing; na Espanha, os Talleres, Factoria de Alquimia Literaria; no México, o Grupo El Paso, Maestria em Creación Literaria; na Argentina, Ricardo Piglia.

E quantas oficinas de poesia e de ficção pelo Brasil inteiro: Bernadete Bruto (PE), Raimundo Carreiro (PE), Sidney Nicéas (PE), Paulo Caldas (PE), Fernando de Mendonça (SP/SE), Igor Gadioli (PB/SE), Laura Erber (RJ), Luiz Rufatto (MG/SP), Marcelino Freire (PE/SP), Alexandra Lopes (DF/RS), Gustavo Czekster (RS), e inúmeros outros escritores, até chegarmos ao único Programa de Pós–graduação com mestrado e doutorado em Escrita Criativa do país na PUCRS com Luiz Antonio de Assis Brasil (RS).

Os Estudos em Escrita Criativa, 2018 vêm com a proposta de tentar englobar diversas técnicas. Nos alimentaremos do fazer artístico dos escritores clássicos, assim como da teoria da literatura e outras áreas de conhecimento (filosofia, psicanálise, semiótica), outras artes conjugadas (cinema, fotografia, artes plásticas), receberemos escritores locais e seus processos criativos, para que, lembrando o saudoso poeta e escritor Ariano Suassuna no seu Iniciação à estética, munidos da técnica, ou estudo contínuo, e do ofício, ou trabalho diário, quando a ave de rapina da inspiração criadora, ou forma, descer do sol com seu voo certeiro, estarmos preparados para dar o salto, e escrevermos uma obra de arte.

 

Quando?

 

Nossos Estudos começarão em 10 de março de 2018 na Livraria Cultura do Paço Alfândega, em Recife, PE. A próxima cidade a realizarmos nossos encontros será Porto Alegre, RS, cujas datas e escritores convidados serão informados em breve.

 

Como?

 

Os interessados devem enviar para o e-mail grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com uma pequena biografia, com dados para contato, produção de conteúdo (1 ou 2 contos/poesia) e responder à pergunta: Por que se interessa em participar dos EEC?. Outras informações serão disponibilizadas por e-mail e também nas redes sociais Facebook e Instagram(@estudosemescritacriativa).

 

Escritora, mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS).

_______________________________

Cartaz A3

Homenagem a Jorge Tufic

jorgetuficJorge Tufic (1930-2018) foi um poeta e jornalista brasileiro, nascido em Sena Madureira, Acre.

Ele era uma daquelas personalidades ímpares que inundam o meio literário com generosidade, poesia e teoria.

Trazemos aqui alguns posts que Jorge Tufic nos brindou no meu blog.

Espero nos encontrarmos na terra em que a Poesia corre livre, viva e em cor, caríssimo Poeta…

Grande abraço,

Patricia Gonçalves Tenório.

______________________________

Quando as noites voam* | Jorge Tufic**

Poemas Selecionados | Jorge Tufic*

O livro – Jorge Tufic*

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulheres fantásticas IV | A mulher papel | Clauder Arcanjo*

— Sim, mas ela lhe deixou alguma coisa escrita?!

Depois de lhe relatar todo o seu infortúnio com Florípedes, o padre Araquento, que o ouvira com tamanha parcimônia, interrompera-o com aquela indagação.

— Por que, seu padre?

— Filho de Cristo!… Responda-me: ela lhe deixou algo por escrito? Uma carta, um bilhete, algo assim?

— Bom…

— Não se trata de bom, nem de tão bom. Repito: deixou ou não deixou?

— E que importância isto tem para o meu caso, senhor vigário?

— Se você não encontrou, ou nem procurou, seu Gaudêncio, o caso é de voltar lá e revirar tudo. Como se procura agulha no palheiro. Me ouviu, bem?

E o foi benzendo, sem esperar por mais nenhum pecado seu.

— Pode chamar o próximo, sacristão!

Era uma tarde quente, e o confessionário estava com uma fila enorme lá fora. Seu Gaudêncio deixou a igreja Matriz, e meteu-se pelas ruas de Licânia. A cabeça, que procurava um consolo nas palavras do representante de Deus aqui na Terra, saíra mais perdida, como se um novelo de indagações evitasse que ele recuperasse o rumo.

— Por escrito. Ora, só me faltava essa!

No entanto, criado e educado sobre os mandamentos de Deus, ou por nada mais ter que fazer, Gaudêncio resolveu acatar o conselho do velho pároco, seguindo para casa.

 

***

 

— Saiu? Você viu ela sair, comadre Sílvia?

Gaudêncio voltara do trabalho e encontrara a casa vazia. Com pouco, batia às portas da vizinhança, a fim de saber notícia de sua Florípedes.

— Gonçala!? Ô, dona Gonçala, você viu ela saindo?

Quanto mais perguntava, Gaudêncio só colhia silêncio e inquietação.

Tudo aquilo se dera há exatas duas semanas.

Conhecera Florípedes numa quermesse e logo gostara daqueles olhos agateados. A cintura fina e seu jeitinho travesso cativaram o quarentão Gaudêncio. Foi amor ligeiro e arrochado. Menos de mês, eles estavam juntos. De casa montada, no Alto da Liberdade. Construção nova, de dois quartos, alpendrada, de frente para o nascente. Gaudêncio, apaixonado, fizera todos os gostos da companheira: móveis, artigos de mesa, cama e cozinha, sem mencionar a decoração.

E agora, ele não podia entender, aquele sumiço. Na madrugada anterior, amaram-se com vigor e paixão. “Minha gatinha!”; “Meu gatão!”

 

***

 

Gaudêncio, de volta. As vizinhas a lhe observarem pelos postigos das janelas. Curiosas com o desenrolar daquele drama.

Gaudêncio entrou e revirou tudo. Sala, varanda, quartos, cozinha, até embaixo dos jarros e das pedras decorativas do quintal. Nada. Nenhum escrito de Florípedes.

Resolveu descansar, deitando-se na rede de varanda, armada no terraço junto ao quintal. A lembrança do colo e dos beijos de Florípedes banhou-lhe a face com lágrimas. Saudade e dor.

— Ô minha Florípedes! Cadê você?

Não sabe como, cochilou. No sonho, a voz forte do padre Araquento: “Responda-me: ela lhe deixou algo por escrito? Uma carta, um bilhete, algo assim?”

Altas horas, ele acordou, mas a casa dormia. Melhor, a cidade dormia.

Gaudêncio levantou-se e caminhou, no escuro, em direção ao quarto de casal. Lá, deitou-se, levando a mão esquerda para o lado da companheira. Com pouco, ao abraçar-se com o travesseiro dela, Gaudêncio sentiu algo por entre a fronha.

Tateou e sentiu um papel preso na parte interna da fronha. Sem abrir os olhos, dobrou-o, guardando-o, em seguida, no fundo do bolso da calça. Dali em diante, a voz do velho pároco: “… ela lhe deixou algo por escrito? Uma carta, um bilhete, algo assim?”

Manhã cedo, com a cara preocupada e mal dormida, Gaudêncio seguiu para a casa paroquial.

Entrou, sem bater. Padre Araquento tomava seu café. Gaudêncio em pé, parado; com a mão no bolso da calça, trêmulo.

— Alguma coisa escrita?

— Sim. Não tive coragem de ler, seu padre!

— Dê-me cá, filho de Deus. Sente-se aqui. Tenha calma, Deus é grande, e maiores ainda são os Seus mistérios.

Gaudêncio retirou o papel dobrado do fundo do bolso, com a mão nervosa, como se indecisa, insegura. Num esforço sobre-humano.

O reverendo apanhou aquele pequeno papel; abrindo-o lentamente, enquanto ajustava os óculos.

Padre Araquento leu o escrito, em profundo silêncio. Pelo canto dos olhos, observava o sofrimento na face de Gaudêncio. À mente do clérigo de Licânia, acorreram, numa velocidade descomunal, as visitas ao seu confessionário dos últimos amantes de Florípedes. “Florípedes, a mulher papel”.

Com vagar, dobrou o bilhete e levantou-se, dando as costas para aquele filho de Deus. Hauriu, então, o ar fresco da manhã.

— Bom?…

— Não se trata de bom, nem de tão bom, meu filho. Só os desígnios de Cristo é que estavam escritos.

E, voltando-se, Padre Araquento abraçou-o:

— Gaudêncio!… Em verdade, em verdade, a vida vale mais do que uma carta, um bilhete, ou algo assim.

___________________________________

* Contatoclauderarcanjo@gmail.com

Mudando paradigmas | Mara Narciso*

9 de fevereiro de 2018

Existem referências inquebrantáveis, petrificadas, tão firmes e concretas que muitos as engolem sem esboçar qualquer dúvida. Apenas pessoas loucas têm coragem de questionar, enfrentar e derrubar tais barreiras, pisoteá-las, triturá-las e colocar algo novo em seu lugar. São os pioneiros, desbravadores, que mudam o ambiente em sua volta. A humanidade anda por causa dessas pessoas, homens e mulheres ousados, que não se conformam com o que está estabelecido, discursam, fazem seguidores, mas agem, jogando conceitos no chão, trocando-os por outro. É o que se chama atitude.

O mundo já deu muitas voltas e tantas coisas aconteceram à humanidade, que parece não haver mais nada a ser achado, inventado e afins. Tudo já foi feito. Ser original hoje parece impossível, pois “nada se cria, tudo se copia”, como dizia, parafraseando Lavoisier, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, morto em 1988.

A surpresa é quando o banal choca, cria arestas, destila discórdia. O século XXI já esgota sua segunda década, e ainda há carruagens na rua. Pessoas sonhadoras, que estão fixadas em comportamentos antigos. Há uma volta da censura, com caça à liberdade e à autonomia. O efeito manada predomina, e, outrora comandado pela televisão, hoje as redes sociais o controlam. Quando a ordem é dada, poucos não a obedecem.

Na década de 1960, durante uma festa, uma mulher “desquitada” entrou num clube em Montes Claros. A orquestra parou e o organizador foi ao microfone mandar que ela se retirasse. Quem vê os books românticos de grávidas em estúdio, com suas barrigas polidas de sete meses, nem imagina o rebuliço que Leila Diniz causou quando mostrou o barrigão numa praia do Rio de Janeiro em 1971. O preconceito anda amarrado com a ignorância. Quando a AIDS surgiu, no começo da década de 1980, numa piscina lotada de um clube, um moço gay pulou, inocentemente. As pessoas desocuparam o lugar.

Estranhamente, há um retorno aos comportamentos de décadas atrás, um moralismo sem sentido ditado por pessoas que não têm moral, como bem ressaltou em seu discurso na época do impeachment, Dilma Rousseff. Outros pregam a liberdade de pensar e se expressar, individualmente, assim como quebram paradigmas – as referências, os exemplos típicos, os modelos a seguir, os padrões -, ainda que sejam fortes no Congresso Nacional os grupos da Bíblia, do boi e da bala, ou seja, evangélico, ruralista e militarista.

“Uma comunidade científica consiste de pessoas que partilham um paradigma”. Estudos e contradições, num certo momento podem dar origem a um novo paradigma para aquela comunidade. O escrutínio científico demonstra que aquelas verdades estão antigas e superadas e novos conceitos são apresentados. Acontece isso na Medicina, por exemplo. Houve um tempo em que o diagnóstico de Diabetes Mellitus era dado com glicemia igual ou maior que 140 mg/dl em jejum. Como pessoas abaixo desse parâmetro apresentavam complicações típicas da doença, o número caiu para 126 mg/dl.

Quebrar referências sociais é para poucos, e nem sempre significa transgressão, mas, de alguma forma é a saída da zona de conforto e a busca de algo melhor, mais livre, sem as amarras do pré-julgamento.

Deixar o preconceito dormir e não acordá-lo não é coisa de desocupados que pregam o politicamente correto. Só acha isso perda de tempo, quem não foi vítima dele e nem teve prejuízos com a discriminação. Então, se munir de coragem e ir atrás do justo e adequado socialmente é coisa de malucos sim, e que ficam às voltas com ideias pré-concebidas, desprezos e pedradas dos vizinhos. Desconfortáveis, mas tranquilos. Quando o novo comportamento é aceito e se assenta, quando vira “normal”, os que a princípio o rejeitavam, o abraçam, e mesmo calados veem que foi melhor assim. Exemplos? Que cada um pense em um e veja o que ganhou com a mudança. Ainda que nem tudo que mude, seja para melhor.

_________________________________

* Contatoyanmar@terra.com.br

“Avesso: o Livro da Insônia”* | Henrique Beltrão de Castro

Honrar a vida

 

Porque no es lo mismo que vivir

Honrar la vida!

Eladia Bázquez

 

Honrar a vida. Talvez o avesso da vida possa mostrar o valor que tem ela, independente da maneira que se vista e se orne e se faça e se destrua. Honrar a vida porque havemos de merecê-la.

Tanta vaidade grassa sob o peso do estio das boas horas! Quantas auroras foram despidas de promessas e tantos anoiteceres tragaram as esperanças em vão! De novo precisamos cultivar a delicadeza, o detalhe, a beleza que mora e flora de cada pessoa – e ressoa mundo afora, porque além do aqui e agora, passado e futuro abraçam o presente, ancestrais e descendentes envolvem os parentes, amigas e amigos trazem consigo a vontade antiga de compartilhar: de sermos juntos.

Honrar a vida é fazer por merecer. Tudo vem pelo bem de merecer. Amar é transcender. Amar é aprender. Amar é Ser.

Ser a vida é honrar esse bem espiritual e terreno, eterno, passageiro, sereno.

Honrar a vida é uma minha busca. Qual a busca de sabedoria. De paz e poesia.

 

_________________________________

Extraído de Avesso: o Livro da Insônia. Henrique Sérgio Beltrão de Castro. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2017.

“Crônicas de um sereno em duas rodas”* |Tibério Pordeus

Apenas um escritor

 

Digam o que disserem afinal, com raras excessões, “o inferno são os outros”, mas não me sinto um fracassado e sim apenas um escritor; um desajustado, um deslocado, na maior acepção que esses adjetivos possam exprimir, ou seja, alguém que não foi, e nem será, moldado para este mundo, este lugar horrível, este pesadelo onde não encontro guarida, moradia ou “loca”.

A verdade é uma só, sou um poeta que escreve poemas, sonetos e crônicas, incapazes de gerar rendimentos, suficientes para minha sobrevivência nesta sociedade de proativos neuróticos e de sucesso.

Não adianta a necessidade, aquela senhora carrancuda, me empurrar para outras profissões laborais, porque eu não vou mudar, faz parte da minha essência, do meu ser e do meu espírito.

Portanto, sou um assumido “marginal” sim, pois não me encaixo nesta “engrenagem” que se diz dinâmica e saudável, quando na verdade é doentia, repleta de indivíduos bipolares, esquizofrênicos, egocêntricos, egoístas e insensíveis. Uma manada de normóticos rumando para sua auto destruição.

Já que não posso mudar esta humanidade que habita este planeta condenado, relatarei aos que vierem depois minha profunda decepção com os “humanos, demasiado humanos”.

 

____________________________________

Extraído de Crônicas de um sereno em duas rodas. Tibério Pordeus. Recife: Ed. do Autor, 2018.

Índex* – Janeiro, 2018

As palavras

Fizeram um acordo

Com a minha boca

E dela não saem mais

Fizeram um acordo

Com os olhos

E eles vão ler

Silenciosos

Com os ouvidos

E eles vão escutar

Estrelas

*

Porém

As palavras

Não conseguem

Adormecer 

As minhas mãos

Acordar com as minhas mãos

Uma página em branco

*

As mãos

São o instrumento 

Que me faz

Sentir humana

E sonhar

E perceber 

E escrever

A imensidão 

Do meu vazio

(“O ser e o nada”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/01/2018, 17h55)

 

Uma página em branco a ser preenchida no Índex de Janeiro, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Um conto | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

“Contos de areia” | Chico Alves d’Maria (RN – Brasil).

“Rio de Fogo” | Bruno Lacerda (RN – Brasil) & David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – 2018 | Diversos.

Agradecemos a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 25 de Fevereiro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index*, January, 2018

The words

Made a deal

With my mouth

And they do not leave it any more

Made a deal

With the eyes

And they will read

Silent

With the ears

And they will listen

Stars

*

However

The words

They can not

Fall sleep

My hands

Wake up with my hands

A blank page

*

The hands

They are the instrument

That makes me

Feel human

And dream

And realize

And write

The immensity

Of my emptiness

(“Being and Nothing”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/14/2018, 05:55 PM)

 

A blank page to be filled in the Index of January, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

A tale | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

“Tales from the sand” | Chico Alves d’Maria (RN – Brasil).

“River of Fire” | Bruno Lacerda (RN – Brasil) & David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Studies in Creative Writing – 2018 | Miscellaneous.

Thanks for the attention and the affection, the next post will be on February 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_7397

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um verão em cor na praia de Boa Viagem – Recife – PE. A summer in color on Boa Viagem beach – Recife – PE.

Um conto | Patricia Gonçalves Tenório*

Saiu de casa bem cedo. Deixou a irmã e a mãe viúva dormindo. Pensou que hoje seria um dia bom.

Atravessou a avenida Boa Viagem com o carrinho cheio de guarda-sóis e cadeiras de praia. A maré cheia. A areia fininha.

Começou a armar um guarda-sol e duas cadeiras a cada metro no espaço que para si era reservado. O rapaz da barraquinha de côco já lhe deu bom dia e aguardavam os turistas chegarem, escolherem um lugar, divertirem-se com a festa do verão em cor.

Eram duas meninas. Clara e Letícia. Uma de nove anos; a outra, cinco. Brincavam na beira do mar, a mãe lia um livro de poemas. Alberto Caeiro e O guardador de rebanhos.

 

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…[1]

 

O rapaz da barraquinha de côco lhe chamou, e foram juntos atender a pequena família. A mãe sentou, pediu uma água de côco, e ficou refestelando-se com o verão em cor. As meninas brincando na beira do mar, pareciam saber as noções de uma boa natação.

Pareciam.

Ouviu o grito com os nomes e virou-se advinhando o perigo. Letícia, a mais nova, sendo arrastada pela correnteza, e Clara ia no mesmo caminho. Buscou com os olhos um salva-vidas, mas não havia ninguém lá. Resolveu ir por conta própria e tentar salvar as criancinhas.

Quando ouviu o segundo grito, os pés, as pernas, os braços começavam a adormecer, como se não fosse mais acordar, como se houvesse engolido toda a água do mundo, e, as últimas coisas que viu do mundo foram as duas menininhas chorando e sendo retiradas do mar pelo par de salva-vidas.

E, lá longe, e mais longe, o amigo da barraquinha de côco com as mãos para cima, praguejando pelo ar.

(baseado em fatos reais)

(“O dia em que eu engoli o mundo”, Patricia Gonçalves Tenório, 20/01/2018, 20h02)

__________________________________________

Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004 e tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro (2008) por As joaninhas não mentem, e Primo Premio Assoluto (2017) por A menina do olho verde, ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio (Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores (RJ) pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, atualmente é doutoranda em Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

(1) PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos. In Poesia completa de Alberto Caeiro. Edição: Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 27.