Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos* | Bernadete Bruto**

Recife, 18 de julho de 2018

 

Além de diversão, os filmes podem ser fonte de excelentes reflexões sobre a vida, como no filme A Jovem Rainha (2017), uma ficção baseada em história real, a Rainha Cristina da Suécia, uma mulher muito além de seu tempo, incentivou o uso do conhecimento e gosto pelas as artes no seu país, e deste filme, separei parte do discurso de Cristina quando tornou-se rainha e cita o filósofo Descartes: “René Descartes diz que a curiosidade é um grande trunfo. Ele diz que nos predispõe a adquirir conhecimento científico. Ele diz: o melhor remédio para admiração excessiva é adquirir conhecimento de muitas coisas e praticar a apreciação daqueles que parecem ser mais raros e estranhos.”  Sim, a curiosidade e o conhecimento, excelentes trunfos em qualquer época, assim como a apreciação do novo e inusitado. Foi assim com o filme O garoto de Liverpool (2009), também uma ficção baseada na vida do astro John Lennon, o comportamento estranho do jovem inglês na escola fez com que o professor lhe chamasse em particular e sentenciasse: “só conseguirá emprego nas docas, não está indo a lugar nenhum aqui em Quay Back, lugar nenhum.” Engraçado verificar que a sua “profecia” foi por água abaixo: como aquele menino de Liverpool tornou-se um grande músico e mudou costumes. A resposta do menino Lennon no filme já dá essa dimensão: “Esse lugar nenhum está cheio de gênios, senhor? Então deve ser o meu lugar.” Que felicidade comprovar esse final feliz para nós que já presenciamos essa ascensão do menino na vida real, e, como pessoas, abrir nossa mente para enxergar no outro diferente, trazendo o novo e que podemos aprender.

Nesse mesmo foco a questão da diferença reaparece no filme Anomalisa (2017), interessante desenho no qual a protagonista enxerga todos com a mesma aparência e voz até encontrar uma moça, que lhe chama a atenção, talvez por sua diferença dos demais, inclusive na voz,  que ele escuta de forma diferente. No filme que analisa a questão das anomalias, a moça chamada Lisa, recebe o codinome de Anomalisa, que em japonês significa “Deusa do Céu”. E Anomalisa traz muito na sua fala. Tocou-me a observação sobre o Brasil; “o único país que fala português” (uma anomalia) e encontrei imensa sintonia com sua canção preferida, também uma das minhas prediletas, do tempo da juventude, Girls Just Wanna have fun: “Adoro Cyndi Lauper. Ela tem uma ótima voz e não liga para o que diz. Ela é ela mesma, e isso requer coragem.” Por essa informação trazida pela Lisa adorei o filme, que nos estimula a fortalecer nosso comportamento e sempre buscarmos força para sermos nós mesmas apesar de distanciar-se do dito como “normal”. Além da música que me fez retornar ao final dos anos setenta e cantar: Girls just wanna have fun!

Por fim, totalmente encantada como o filme A GANHA PÃO. Meditei sobre o quanto temos em termos de liberdade individual e o quanto ainda tem gente sofrendo nos seus direitos individuais. Pensei ainda, se a condição da mulher no mundo ocidental ainda é precária, como classificar a situação das mulheres em países como o Afeganistão? Triste e inclassificável..infelizmente! E no meio ao sofrimento da história, apresentada com maestria neste desenho, há uma história dentro de uma história, com a contação feita pela protagonista, a menina Parvana. A contação toma ares de fantástico do conto de fadas, um mito do imaginário popular daquele recanto, e, bem perto do final, se mistura  com a história principal, revelando o segredo guardado sobre o irmão de Parvana, cujo paredeiro ninguém mencionava no filme: “Meu nome é Sulayman. Minha mãe é escritora, meu pai professor. Minhas irmãs vivem sempre brigando. Achei um brinquedo na rua e ele explodiu. FIM’

O filme foi tão bem concebido que mesmo no final, fiquei ainda presa naquele povo, que lembra um pouco meus ancestrais, observando o quanto são parecidos, como se irmãos fossem…e desejando que Parvani e todas mulheres e homens do Afeganistão, ou de qualquer outro país, onde a realidade seja semelhante, pudessem alcançar um oásis, um paraíso, que no filme sugeria uma praia em Goa.

Este filme proporcionou muitas reflexões sobre nossa existência, por conta do sofrimento de uma nação. Muito embora, tenha sido profundamente tocada pela beleza da alma de um povo incólume, mostrada na descrição que fazem de si, nos presenteando no final do filme: “Somos uma terra cujo povo é o maior tesouro. Estamos nos limites de impérios em guerra. Somos uma terra dividida nas montanhas do indocuche queimada pelos olhos ardentes dos desertos do norte, escombros negros contra picos de gelo, somos Auriana, a terra dos nobres.”

Filmes nos divertem, mas também nos ensinam como contar histórias de forma diferente, nos instrui e são meios de denúncia de condições humanas, sociais e ambienteis. A filosofia da vida encontramos em vários lugares, na própria natureza, nos livros, nos meios de comunicação, também nas palavras, basta conservar os olhos, ouvidos e coração abertos, em qualquer lugar, até mesmo assistindo a um filme como A Ganha Pão: “Levante suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão.”

 

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Texto 1: Um buquê para a minha amada

De vermelho a saudade se agarra ao que sobra do mundo particular da juventude, ainda presente lá no fundo do coração. O tempo em que subia sem medo nas árvores e o céu estava perto passou. Presa no chão,  olhos cansados procuram mocinha de sonhos azul que recebia flores…a vista tão longe:…”Adeus menina, linda flor da madrugada!”

Texto 2: Cada uma tem sua Tróia particular

Aprisionada entre quatro linhas daquela história, que pode ser antiga, procura a menina uma saída. Sua mãe observa o enredo, naquele local de degredo, onde todas as mães vão parar na maturidade. Sentada no anfiteatro da vida e na torcida, aguarda o segundo tempo, o fim da guerra, tempos de realizações! Ela estuda o caminho enfrenta a luta, tem foco. Do outro lado, a mãe espera por um futuro como seu nome,  resplandecente!

Texto 3: Eram muitas vezes

A figura caiu no colo do livro inutilizado. Que aborrecimento! E agora? Qual era a história? Livro todo manchado de tinta preta. Nada se vê.  Lamentou. Olhou a imagem que restava. Uma moça vai em busca de algo, vislumbra uma descida ou vai subir na árvore? Quaisquer das ideias poderiam iniciar! Sorriu. Ficou feliz porque descobriu tantas possibilidades, numa só imagem muitas histórias! Assim, começou a escrever.

Texto 4: Nos tempos do quintal

Houve um tempo em que o mundo era pequeno, íntimo e lhe bastava. Um quadrado onde uma menina vestida de vermelho divagava, abraçada ao arvoredo. Tudo era possível para o local se tornar uma terra encantada, do nada! Na segurança do lar e liberdade do pensamento sonhava com fadas, castelos. Mal sabia que era a verdade muito mais bonita que seus sonhos. A doce e encantadora realidade daquele tempo.

Texto 5: Assim na terra como no céu

João subiu na vida por aquela árvore. Maria ficou embaixo, vendo-o cada vez mais distante. Olhando para o céu, segurava a árvore. Olhando para o alto, não vê a terra… Pobre Maria! Perdeu seu chão…Tudo por causa de João! Toma uma atitude menina. Ou sobe lá pra cima ou se mete pela floresta e vai fazer da vida festa aqui mesmo no chão. Quando notar nem saberá mais quem é João! João? Aquele do pé de feijão? Sei não!

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* Resenha apresentada e exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

*** Birdsong, 1893, Károly Ferenczy.

Eu amo os advérbios| Cilene Santos*

08/01/2013

Amo todas as palavras da Língua Portuguesa; mas tenho uma especial predileção pelos advérbios. Mesmo não sendo palavras substantivas, por sua vez, inconcretizáveis, têm a capacidade de alterar qualquer resultado. Inserindo-se na frase, impõem valores. Vejamos o enunciado: “O rapaz quase morreu”. Que alegria! Ler esta frase. Que alívio! O advérbio “quase” não deixou a tragédia acontecer.

Há casos em que ele se torna um verdadeiro delator: observando um comercial de uma determinada marca de café, detectamos que o nosso cafezinho não estava sendo bem elaborado, quando foi veiculada a propaganda: “Café tal, agora com torra perfeita”. Quer dizer que antes tomávamos um café mal torrado.

Um outro caso interessante acontece quando alguém faz o seguinte elogio: “Você está lindo(a) hoje”. Ao ouvir este discurso, fique triste, chore, esperneie! Ora, se você está lindo(a) hoje, significa que ontem ou nunca esteve bonito(a).

E ainda existe o caso em que o advérbio imprime esperança em quem está apaixonado. Quando alguém diz a alguém “Ainda não te amo!”, isto significa, então, que em algum dia, poderá surgir um grande amor. Neste caso, o advérbio assume um ar de cumplicidade.

É por esta e muitas outras razões que tenho um grande apreço por estas palavrinhas, capazes de me deixarem triste, alegre ou até furiosa, quando espero um sim e me aparece, intrometidamente, um não, que obriga a tomar decisões diferentes daquelas que eu havia planejado.

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* Cilene Santos é professora aposentada, grande poeta e participante dos Estudos em Escrita Criativa em Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Quem sou eu?* | Elba Lins**

Recife, 21/07/2018, 21h37

 

Noite em claro!

O frio não me deixa dormir. Na lareira, mirrado, um único feixe de gravetos secos, se mistura às cinzas e tenta me aquecer, substituindo a figura a meu lado – que já foi fogo e agora é menos que gelo. Amanhã preciso colher gravetos secos na floresta.

Agora, sentada à beira do caminho, penso no ontem.

 

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Cansaço!

Que importa o peso nas costas? Preciso parar, fechar os olhos, me entregar por instantes, aos braços de Morfeu. Fugir das lembranças da noite insone. Na pedra bruta me aconchego e sou mais feliz que na cama compartilhada.

Neste momento a paz chega a mim.

 

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Esquisito!

De repente me sinto em paz. Já nem lembro da noite insone, do peso nas costas, do amor desfeito. Sinto uma mão externa refazendo meus passos, dando novas cores à minha face e pensamentos leves à minha mente.

Isto agora é parte de mim.

 

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Dúvida!

Continuo sem saber quem sou. Se a camponesa abandonada com frio e sem sono, se a jovem tranquila de faces coradas ou esta presença estranha que parece extrapolar minha figura feminina.

De repente, já não sei mais quem sou ou o que sou.

 

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Pobre menina!

De lenço vermelho da mesma cor da boca úmida, braços cansados e perfeitos, semblante de paz. Tudo nela inspira paixão. Já não tenho certeza se ela existe. Minhas mãos inquietas procuram tocá-la, senti-la…

E cada pincelada vã, me aproxima dela.

 

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* Exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Elba Santa Cruz Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há dois anos participa dos Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Gonçalves Tenório. Lançou em 2017 seu primeiro livro de poemas, Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Contatos: elbalins@gmail.com

*** Woman Carrying Brushwood, 1873, Munkácsy Mihály.

 

À Palomar, de Ítalo Calvino* | João Paulo Nascimento de Lucena**

Camaragibe, domingo, 8 de julho de 2018.

As coisas são assim. Com o olhar fixo, voltado para dentro, penso: “é o vazio, meu Deus?”. De jeito maneira. Pois enxergo tantas coisas…  E alguns dos meus melhores insights vêm dos afazeres cotidianos, que se acumulam e, erroneamente, não dou prioridade, afundando-me na insistência de que o texto vai sair agora ou nunca! E geralmente… Espero a água sanitária agir. Enquanto isso, tomo banho de sol sem camisa sentado do outro lado da rua. É tão bom. Há quanto tempo não saio da caverna? Elas saem. Vêm aproveitar o sol do inverno dos trópicos, tão intermitente e por isso mesmo gostoso, entre uma chuva e outra. O nosso inverno é bipolar. Pretinha, a mais velha, com quatro Copas do Mundo nas costas, já não enxerga mais e seu olfato, aliado à memória, lhe guia. A mais nova vem atrás – é a recém chegada à família. Maia. Chegou nesse último mês de maio. Mas o nome veio duma breve enquete que fiz entre amigos no Whatsapp. Mãe, que a adotou, gostou e assim ficou. Maia passa a comer esses matos que se acumulam na casa frente à nossa. Sei que é para melhorar a digestão… Ela vomita. Eis o propósito. Como é inteligente! Mas quem a ensinou? A natureza é realmente fantástica! Eu que subestimei a pobre. Quando foi a última vez que comi mato? Pouco antes de Maia chegar, acho que na mesma semana, havia lido o livrinho daquela garota do Hare Krishna. Maia não me era estranha. Depois de batizada voltei ao glossário de nomes e termos sânscritos. Mãyã significa ilusão. Mãyãvãdis é nome que se dá aos filósofos proponentes de que, quando Deus faz Seu advento, é encoberto por mãyã. De que ilusão é Maia? Acho que agora o lodo já está mole. Tenho de aproveitar, precaver-me de acidentes. Com a vassoura esfrego. Aguo-o. Esfrego. Lavo… Começa a chover. Já deu. Até as meninas já entraram. Agora, Inverno, ajude-me a terminar.

 

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* Conto de férias do participante dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, João Paulo Nascimento de Lucena.

** João Paulo é mestrando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Contato: jpn.lucena@gmail.com

Lua de sangue* | Natália Setúbal**

Sondar os mistérios da face oculta

a inquieta humanidade

à espera da efêmera apoteose

 

Distraídos das coisas  mundanas

atentos içaremos nossas velas

no caminho das nuvens

 

E mais tarde,

quando o véu da noite

descer sobre a Terra

Ó lua carmim,

transmuta teu escarlate

– tamanha magia

e asparge  sobre a Terra

 

a cor da esperança

 

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* Poema publicado no Zero Hora (Porto Alegre, RS) em 26/07/2018.

** Natália Setúbal é participante dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre. Contato: nataliasetubal.adv@gmail.com

 

joelhos curvados* | Talita Bruto**

Recife, 18/07/2018, 22h55

 

os joelhos dobrados em posição de ataque, ombros arquejados, sobrancelhas selvagens.

no piscar, uma levantada de olho.

pés bambos, joelhos curvados, cerimonialistas. à espera.

mão em falso guardando o vazio do gesto.

*

o menino do lado.

vigia. de passadas truncadas.

…memora…os sons saltados das pedras no mar…

pequeno galope, pequena onda.

*

a praia do sal. única lembrança nítida.

de sua primeira década. quando já ido…alguém.

entre a decisão (distante) de jogar-se pedra e a escolha (estática) de apanhar-se grito.

a entrada da vida é o mesmo lugar do porto: a manhã.

*

amanhã, que será?

*

hoje?

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* Exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Talita Albuquerque Bruto da Costa é estudante de graduação de Letras Bacharelado com ênfase em estudos literários pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela tem principal interesse nas áreas que envolvem os estudos do hermetismo, da psicologia e do imaginário simbólico nas narrativas literárias. Contato: talitabruto@gmail.com

*** Boys throwing pebbles, 1890, Károly Ferenczy.

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2018 | Recife e Porto Alegre

Nossas férias foram de uma riqueza ímpar. Além de nos reabastecermos para trazer o melhor para os encontros do segundo semestre de 2018 dos Estudos em Escrita Criativa, nos reunimos, o grupo original com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto, e exercitamos o que apreendi na disciplina Textos breves e híbridos ministrada pelo Prof. Dr. Amilcar Bettega na única Pós-Graduação com Mestrado e Doutorado em Escrita Criativa do país na PUCRS: a partir da leitura de ficcionistas e teóricos tais como Robert Walser, Walter Benjamin, Noemi Jaffe, Júlio Cortazar, Enrique Vila-Matas e Lydia Davis, escrever 05 minitextos com até 05 linhas cada.

Os exercícios estão especialmente do lado de fora deste post, justamente para dar asas a essas primeiras alunas que já, há muito tempo, sabiam voar sozinhas, mas que tiveram a humildade – qualidade tão rara e que prezo tanto no ser humano – de aprenderem/ensinarem (assim como o verbo apprendre em francês) nos nossos encontros.

Tivemos também a imensa alegria em receber textos de participantes dos Estudos de Recife (Cilene Santos e João Paulo Nascimento de Lucena) e de Porto Alegre (Natália Setúbal).

E no dia 31/08/2018, às 14h30, estaremos no Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), em Uberlândia, com dois estudos de caso – Abril, sobre o mito, e Maio, sobre a viagem – dos nossos encontros, e o lançamento, às 19h, do primeiro volume do Sobre a escrita criativa. O segundo volume já está no forno com textos de autores tais como Alexandra Lopes da Cunha, Amilcar Bettega, Bernadete Bruto, Daniel Gruber, Elba Lins, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Lourival Holanda, e esta que vos escreve.

Os Estudos retornarão em Agosto de 2018 com todo o carinho e o melhor que posso oferecer àqueles que os aceitaram e me incentivaram em cada mínimo desafio. Não à toa, o tema será o Amor, e os escritores convidados, Ana Maria César, em Recife, no dia 11/08/2018, na Livraria Cultura do Shopping RioMar, e Annie Müller e Luís Roberto Amabile, em Porto Alegre, no dia 15/08/2018, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country.

Que venham os próximos encontros! Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Junho, 2018

Carrego 

As frases

Inacabadas 

Os sonhos

Por vir

Uma estrela

Cadente

Caindo

Em minha mão

Ainda quente

Ainda cheirando 

A jasmim

Até brotar

No centro

Uma palavra

De cor

Azul

(“Até meu céu nascer azul”, Patricia Gonçalves Tenório, 31/05/2018, 15h35)

 

O céu azul de final de semestre, início de outro no Índex de Junho, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Vinte e um | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Itália), Alfredo Tagliavia (Itália) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

Minicontos de Júlia Dantas (RS – Brasil) nos Estudos em Escrita Criativa – Porto Alegre.

E os links do mês:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c

– Gabriel Nascimento (RS –Brasil):  https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Julho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* June, 2018

 

I carry

The phrases

Unfinished

The dreams

For coming

A star

Cadent

Falling down

In my hand

Still hot

Still smelling

The jasmine

Until it comes out

In the center

A word

In color

Blue

(“Until my sky is blue”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/31/2018, 3:35 p.m.)

 

The blue sky of the end of semester, beginning of another in the Index of June, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Twenty-one | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Italy), Alfredo Tagliavia (Italy) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – June, 2018 | From Recife to Porto Alegre | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

Very-short-stories by Júlia Dantas (RS – Brasil) in Studies in Creative Writing – Porto Alegre.

And the links of the month:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c  

– Gabriel Nascimento (RS – Brasil): https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on July 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Olha para o céu, meu amor… Nessa noite de São João”. Música: Luiz Gonzaga  (PE – Brasil). Fotografia: George Barbosa  (PE – Brasil). “Look at the sky, my love … On that night of St. John.” Music: Luiz Gonzaga (PE Brasil). Photography: George Barbosa (PE – Brasil).

Vinte e um* | Patricia Gonçalves Tenório**

 

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Se apaixonam, desiludem, se iludem com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?

– É o dia.

– O dia?

– Do meu aniversário.

– Quantos anos?

– Vinte e um.

– Também tenho vinte e um.

– Por que então as bombas?

– Por que então o véu de púrpura?

Yasmine ali sentou. No chão. Na calçada do mercado. Onde Oham já devia ter disparado, já devia ter se entregado à vida eterna e às virgens prometidas.

Mas as lágrimas de Yasmine o atraíram para o chão. Na calçada do mercado. Tocou a mão de Yasmine. Ela não se esquivou. E assim permaneceram, o tempo da explosão, o tempo da fuga de casa de Yasmine, do paraíso de Oham.

Porque, se quiser, se vive tantas possibilidades, muitas vidas, muitas virgens num mesmo instante, num mesmo toque, num único beijo da virgem Yasmine e do homem-bomba Oham.

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Veintiuno

Elle preguntó qué era martes;

Ella, peligrosamente, no respondió.

 

Lo que no se sabe sobre los terroristas es que llevan una vida perfectamente normal. Se enamoran, se decepcionan, se ilusionan con las promesas de vida eterna y decenas de vírgenes flotantes.

Oham sabía de las vírgenes, cría en las vírgenes como en el propio cuerpo armado, cubierto con la túnica negra y el turbante blanco.

—¿El señor sabe cuándo es martes?

Le preguntó ella. Con tantos alrededor. Ella preguntó con ojos de pantera. ¿Será que sabía? ¿Será que le adivinó?

Yasmine era hija única, nieta única de marajá. Ella podría estar en casa, con las tantas amas, los muchos esclavos, a pensar en nada, a no pensar. Pero para dejar de vivir la vida, experimentar la vida en su sabor, en los aromas, en el calor del mercado, el coloreado de las especias, ¿que sabor tiene el azafrán para Yasmine?

– ¿Y que tiene el martes?

El muchacho le preguntó. El muchacho de ojos vivos, más vivos que los suyos, con más vida en los labios gruesos y los dientes de marfil, el turbante blanco amoldado al rostro, la túnica negra cubriendo el cuerpo alto, esbelto.

Él no dudó el peligro se hallaba allí. En aquellos dedos finos. En aquel velo de púrpura. Los ojos de pantera penetraban sus ojos, sondaban el alma por misterios, y allí, en el centro, en el núcleo de su espacio, Yasmine lo desveló, Yasmine le sintió la cintura, sintió las bombas, el disparador.

– ¿Y que tiene el martes?

– Es el día.

– ¿El día?

– De mi aniversario.

– ¿Cuántos años?

– Veintiuno.

– También tengo veintiuno.

– ¿Por qué entonces las bombas?

– ¿Por qué entonces el velo de púrpura?

Yasmine se sentó allí. En el suelo. En la calzada del mercado. Donde Oham ya debía haber disparado, ya debía haberse entregado a la vida eterna y a las vírgenes prometidas.

Pero las lágrimas de Yasmine lo atrajeron al suelo. En la calzada del mercado. Tocó la mano de Yasmine. Ella no se esquivó. Y permanecieron así, el tiempo de la explosión, el tiempo de la fuga de casa de Yasmine, del paraíso de Oham.

Porque, si se quiere, se viven tantas posibilidades, muchas vidas, muchas vírgenes en un mismo instante, en un mismo toque, en un único beso de la virgen Yasmine y del hombre-bomba Oham.

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* Extraído de Vinte e um / Veintiuno, Patricia Gonçalves Tenório. Tradução: Alexandra Viscrian, David Pérez García. Madrid: Mundi Book Ediciones, 2016.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

Il Convivio*, Alfredo Tagliavia** & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório***

Questo libro può essere letto, come se fosse un film di 90 minuti, come se fosse una favola ludico-adulta, come se fossi tu a entrare nella pelle di Manoela, Letícia, Pedro, Jonatas, La maestra Mariana, il sindaco José, per scoprire quale posto ti appartiene nel mondo: un luogo dagli occhi neri o un luogo dagli occhi verdi?

“… il primo fil rouge della favola lo rintraccio nella dicotomia uguale-diverso, categorie che ancor oggi sconfinano nella squalifica, quando non nella violenza. Nella città in cui tutti avevano gli occhi neri giunge infatti Manoela, la bambina dagli occhi verdi, colei che non parlava se non con gli occhi, la barbara, e Fra’ Felipe, come nella nota Controversia di Valladolid del 1550 tra Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de Las Casas, cerca “un’autorizzazione a credere che discendeva da questo mondo. Le contò le dita dei piedi e delle mani. Erano tutte là, uguali a quelle dei battezzati della domenina”. La drammatica e incredibile realtà sudamericana, e l’impossibilità di accogliere l’estranea (“Se avessero pensato di abbattere le mura dei cortili…”) rimanda prepotentemente all’attualità europea e ai continui appelli di papa Francesco relativi alla costruzione di ponti, non di muri. La favola dunque diventa, già dalle prime righe, realtà contingente: come relazionarsi con l’altro, con il diverso da noi? Minaccia oppure necessità?” (dall Prostfazione di Alfredo Tagliavia).

Patricia Tenório, laureata all’Università Federale de Pernambuco – UFPE, Master in Teoria della Letteratura, scrive poesie, romanzi e racconti dal 2004. Scrittrice e ricercatrice in scritura creativa, è madre di tre figli. Ha pubbicato dieci libri; As joaninhas não mentem, 2006, è stato insignito del premio Miglior Romanzo Straniero del Premio “Poesia, Prosa e Arti figurative” dell’Accademia Internazionale Il Convivio (Italia, 2008). Nel 2013 ha ricevuto il Premio Marly Mota dall’Unione Brasiliana degli Scritori (Rio de Janeiro) per l’intera sua opera.

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* Patricia Tenório, La bambina dagli occhi verdi. Una favola esistenziale, Ipoc, Grammata, 2016. In Il Convivio. Anno XIX, numero 1. Gennaio – Marzo 2018.

**Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978. Dottore di ricerca in Pedagogia, attualmente insegnante precario, ha svolto diversi viaggi di studio in Brasile. Per i tipi della EMI ha pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire. Vita, pensiero, attualità pedagogica dell’Educatore del mondo (2011). Per le edizioni IPOC ha tradotto il testo del filosofo brasiliano Marco Heleno Barreto Immaginazione simbolica. Riflessioni introduttive (2012). Di prossima uscita è il suo primo libro di narrativa Un giorno qualunque (edizioni Book Publish), una raccolta di racconti a sfondo pedagogico, ambientati fra Italia e Brasile. Contatto: alftag@alice.it

*** Patricia Gonçalves Tenório scrive prosa e poesia dal 2004. Ha pubblicato undici libri, Major – eterno è lo spirito (2005), Le coccinelle non mentono (2006), Grani (2007), La dona a metà (2009), Dialoghi e D’Agostinho (2010), Come se Icarus parlasse (2012), Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romania, 2013), Ventuno/Veintiuno (Mundi Book, Spagna, aprile, 2016), e La bambina di occhio verde (libri fisici e virtuali, Recife e Porto Alegre, maggio e giugno, 2016), tradotto in italiano da Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, pubblicato nel settembre, 2016 dalla casa editrice IPOC – Percorsi italiani di Cultura, di Milano. Ha difeso il 17 settembre, 2015 la tesi di master in Teoria Letteraria della linea di ricerca Intersemiosis presso l’Università Federale di Pernambuco – UFPE, “Il ritratto di Dorian Gray, di Oscar Wilde: un romanzo indiciale, agostiniano e prefigurale”, con il allegato Lo dimmenticante di storie (Appunti per una Teoria di Finzione), sotto la guida della Prof. Dr. Maria do Carmo de Siqueira Nino, pubblicato in ottobre, 2016 dalla casa editrice Scriptum Omni GmbH & Co. KG/ Nuove edizioni Accademiche, Saarbrücken, Germania. È entrata in 2.017.1 nel programma di Pos-Laurea in Lettere della Pontificia Università Cattolica di Rio Grande do Sul (PUCRS) in dottorato di ricerca in Scrittura Creativa. Contatti: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br