Poema* de Altair Martins**

44. O PLANETA COM ÓCULOS RAY-BAN
A notícia de que o vírus
pode alcançar os animais de casa
assustou as algas azuis
e fez ridículos os nossos territórios.

Talvez o planeta nos tenha mesmo demitido,
despejado. Somos vagabundos
e isso que vivemos são os efeitos
da dedetização e das igrejas.

Já não escondemos nosso banquinho de criança
nem nossos ossos que chamam os pais
sob o medo de que nos cubra
o folhiço que cai no pátio.

E é fato que o planeta não tem ano-novo
e no entanto exigimos um março de progresso
enquanto, no escuro, fomos atores de revista
que só excitavam os bolores.

Nossos marcos de porta,
nossos medicamentos e a excessiva fertilidade
com que escrituramos quadrados de terra
— nada disso merece um abano de cauda de baleia.

Também nossas moedas
acusam a dor e a febre,
e só beberão da chuva os que souberem abrir as mãos
em concha.

Com certeza o planeta não gosta de nossos corredores
e por isso as milícias do limo sempre avançam
sempre avançam, mesmo que pisem sobre o aço
ou sobre a camisa da confederação brasileira de futebol.

Talvez o planeta não tenha eleito nosso genocida.
Talvez não se contente com sobras,
nem com risadas de tartaruga,
nem com a bandeira de Israel.

O mérito e a mão invisível do mercado
têm esse mau cheiro depois da escama.
Talvez o planeta, neste momento,
esteja lavando as mãos.

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AUDIO-2021-03-24-15-22-21 – Altair 2

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* Poemas postados no Jornal Nova Folha, Guaíba, RS. Fotografia: Valmir Michelon. www.novafolha.com.br/altair-martins

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar(Porto Alegre: EdiPucrs, 2019) e o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) são suas últimas publicações. Ministrante, em setembro de 2019, da disciplina Oficina de Poesia na primeira turma de especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br