EECs 2021 | Os mundos de dentro | Manuel Bandeira

Continuamos nessa viagem maravilhosa para “Os mundos de dentro” de autores e autoras super inspirador@s para a nossa escrita… Dessa vez, investigamos o país imaginário do poeta pernambucano, nascido em Recife, Manuel Bandeira:

Primeira Aula do Módulo 2:

Na primeira aula do módulo, constatamos a urgência e os olhos de estrangeiro com os quais Bandeira retratou o Recife em sua obra; navegamos com Plínio Santos-Filho e Francisco Carneiro da Cunha em “Um dia no Recife” e “Um dia em Olinda”; verificamos que João Cabral de Melo Neto está para o engenheiro enquanto Bandeira está para o arquiteto dos versos; experimentamos a antítese de Bandeira: sofrimento e Carnaval; e comparamos a técnica de Bandeira com a de Edgar Allan Poe – refrão, tom, efeito e intenção.

Segunda Aula do Módulo 2:

Continuamos na análise de alguns poemas de Bandeira, em especial, os do livro Libertinagem, entre eles, “Evocação do Recife” e a poesia-ícone “Vou-me embora pra Pasárgada”, relacionando o país imaginário de Bandeira com o país anterior do poeta francês Yves Bonnefoy, além da indicação de filmes sobre Manuel Bandeira;

Terceira Aula do Módulo 2 (Live com Altair Martins):

E o encontro virtual com um dos maiores apaixonados pela obra de Manuel Bandeira, o escritor, poeta e professor de Escrita Criativa Altair Martins (RS | Brasil):

https://youtu.be/nh5Dj9YZaxo

O próximo módulo será sobre a casa, a vida e a obra do poeta maranhense, nascido na ilha de São Luís, Ferreira Gullar, e contaremos com a participação especial do escritor, poeta e professor Antonio Aílton. A primeira e a segunda aulas do módulo 3 irão ao ar, respectivamente, em 03 e 10/03/2021 e o encontro virtual será em 31/03/2021, a partir das 19h – acompanhem nas redes sociais @estudosemescritacriativa (Instagram e Facebook). Não percam!

Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 1 – Osman Lins:

Bernadete Bruto (Recife, PE | Brasil)

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Lista de pequenos gestos diários

Minhas palavras morreram.

 Só os gestos sobrevivem.

(Osman Lins)

Já existia uma rotina que desenvolvera naquele tempo que iniciava ao desligar o despertador.  Através daqueles pequenos gestos diários pude me reconciliar com a minha casa, antes entregue a outra pessoa que não pôde vir por muito tempo. Então fiquei com todo o serviço doméstico mais o do meu trabalho. Penso que, de qualquer modo, foi bom estar em casa em tempos tão inseguros. Os objetos de consumo mais imprescindíveis eram as garrafas de álcool gel, de álcool 70, álcool em spray e a de água sanitária. Hoje, faço uma lista das atividades rotineiras daquele período.

Desligar o despertador do celular

Escovar os dentes

Vestir uma roupa leve

Fazer alongamento

Preparar o café

Fazer anotações

Dar comida ao cachorro

Limpar área de serviço

Colocar água sanitária no tapete da entrada

Organizar almoço

Lavar pratos

Ligar TV para ouvir um programa em inglês

Faxina sala quartos e banheiro

Aguar plantas

Limpar varanda

Tomar banho de sol

Tomar banho

Ligar computador

Cozinhar o almoço

Atualizar listas de compras, reparos

Programar despertador para sesta

Lavar pratos

Retornar ao computador e aguardar e-mails, Whatsapp ou telefonemas

Fechar o computador

Fazer o jantar

Ligar a TV

Preparar um lanche

Desligar TV

Lavar pratos

Recolher lixo

Apagar as luzes da casa

Acender luz do quarto

Tomar banho

Vestir o pijama

Ligar ventilador do quarto

Deitar na cama

Abrir um livro

Fazer anotações

Fechar e guardar livro

Programar despertador

Apagar luz

Era uma variação de gestos diários, dependendo das circunstâncias: meticulosos, firmes, caprichados, nervosos, apressados, cansados, displicentes… Mas sempre, rotineiramente, gestos ritmados para no final descobrir que você ainda era sua própria fiscal. Ha, ha, ha, em todo lugar observava pequenos defeitos que requereria mais gestos e listas e mais listas do que fazer, o que comprar, do que consertar…

Mesmo assim, foram aqueles pequenos gestos diários que me conduziam ao encontro comigo. A maior parte dos barulhos era proveniente dos gestos. Gestos que realizava no silêncio. Não silêncio como nos mosteiros, pois havia uma TV ligada, ou um celular vibrando, um cachorro latindo, os barulhos de fora. Mas gestos cadenciados na atenção plena. Aqueles gestos cotidianos me mantiveram no chão e pude enfrentar a pandemia, o isolamento, as tarefas externas e as grandes perdas que desabaram sobre minhas costas, pesaram meus ombros, oprimiram meu coração durante esses tempos tão sombrios.

E mesmo assim a minha casa foi o meu paraíso. 

*

Cilene Santos (Caruaru, PE | Brasil)

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

O QUARTO

Era grande a casa; porém, não dividida a contento. Havia apenas dois quartos. O quarto do casal e o quarto das crianças, onde quatro camas compunham o mobiliário. O ambiente era aconchegante. Na parede, alguns quadros, de cores vivas, quebravam a seriedade da madeira. Uma cortina de voil abrandava a claridade do sol da manhã. Uma janela grande mostrava a paisagem da rua da frente: algumas casas, uma praça, onde as crianças brincavam ao final da tarde. Por ali, passavam o sorveteiro, o pipoqueiro e um senhor idoso vendia bolas de sopro. Da janela se via a igrejinha que, vez ou outra, quebrava o silêncio com o badalar nostálgico do sino. Naquele quarto havia também uma mesa, que servia de apoio nas tarefas escolares. Em todas as noites havia contação de histórias, para os menores. Eram quatro, ao todo. E o tempo foi passando lentamente, desfazendo a magia daquele quarto. Quando dei por mim, meus meninos não eram mais crianças. Haviam partido para o mundo. Cada um para o seu lado. Às vezes, nas noites, entro no quarto e sinto o cheiro do passado. Não tem mais a mesma aparência, mas a poesia daqueles momentos da infância ficou marcada nas paredes, no teto, no ar. Chego a escutar umas vozinhas reclamando: “Não, mamãe, não quero ir para a escola!” E eu, aturdida com o pensamento no passado, falo em voz alta: “Sim, meus filhos, precisam ir à escola. Hoje é dia de prova.”  Assustada comigo mesma, saio do quarto e entrego-me aos afazeres domésticos.

*

Dilma França (Caruaru, PE | Brasil)

Contato: dilma_franca@hotmail.com

O MEU JARDIM

03.06.2020

É diminuto…

Meu pequeno mundo

Meu pedacinho de céu

Minha constelação

Meu eu, meu tudo!…

Nele, costumo despir a alma,

O que me traz a calma,

Despojar-me de mim mesma,

Contemplar o interior

E ouvir a voz do coração!…

Numa maravilhosa sensação

De intimidade perfeita

Com o infinito, com o silêncio,

Com o Deus do amor,

Da esperança e da paz.

É glória… É louvor…

É tudo que me satisfaz: meu jardim!

Necessito dele

Porque me fascina

E me faz ver a beleza

De acreditar

Na luminosidade dos dias

E no colorido da Natureza.

Inspira-me a sonhar… E a poetizar…

Ensina-me que, mesmo na velhice

Retorcida pelo tempo,

Ainda é possível dar flor…

Nele, oxigeno a minha emoção,

Alimento a minha fé

E sinto a felicidade plena:

A libertação!

No meu jardim!

No meu jardim!…

*

Elba Lins (Recife, PE | Brasil)

Contato: elbalins@gmail.com

GESTOS QUE DEFINEM

Gestos – pequenos gestos, que dizem quem somos. Gestos que às vezes ficam para sempre gravados – para nos lembrar quem somos, para recordar quem fomos, para possibilitar que muito tempo depois possamos concluir se mudamos, ou se ainda somos os mesmos de outrora – capturados um dia pelas lentes amadoras de uma câmera.

A foto em preto e branco – antiga – é de uma época em que a família era completa e jovem. Época em que eu não ousava mostrar sentimentos. Minha irmã deixava transparecer toda sua amorosidade, seu carinho, seus gestos de aconchego – que eu quis inibir. O clique da máquina, entretanto, foi mais rápido que eu e deixou impressa a tentativa – inútil – de alterar o jeito se ser de minha irmã.

Sempre que olho a foto, lembro do meu movimento, do movimento que mostra alguém frio, ou que não ousava ser de outra forma…

No momento, não tenho a foto em mãos, mas quando pegá-la lembrarei novamente de como era meu jeito de ser e da sensação de reprovação pela atitude tão carinhosa e bonita de se mostrar inteira de minha irmã.

*

Fabíola Lucena (Porto | Portugal)

Contato: falucena@gmail.com

A segunda xícara

Os dias ficaram mais longos, mais lentos. Não importa se é hora de levantar e tomar banho. Não vou mais a correr apanhar o metrô. Agora eu converso com minha segunda xícara de café. A segunda porque agora temos tempo e ela me faz companhia. Ela sequer teve oportunidade algum dia de existir antes da pandemia. A casa ainda dorme e eu converso com ela. A conversa se desenrola enquanto olhamos as árvores frondosas da Quinta do Cisne que ficam em frente ao meu apartamento. Sinto vontade de caminhar por baixo delas, mas só posso admirá-las. Que bom que tenho um quadro vivo de muito verde! Mas sinto saudades da brisa que corre lá fora, só posso sentir do metro quadrado de varanda. A segunda xícara partilha comigo a vista verde no sol primaveril. Refletimos sobre os dias de isolamento, do medo, falamos muito da impotência que me resta junto com a tentativa de ter paciência. A segunda xícara me recorda os planos adiados, das férias em família canceladas com o vôo que nunca chegou e me vê chorar. E assim ela se vira derramando seu adoçado café em minha boca e diz:

– Então, você achava que dominava o tempo? Ou dominava teus atos? Não, querida, doce ilusão! Põe-te a traçar rumos novos dentro da tua cabeça. O que te preenche?

– Não sei (lágrimas travadas na porta dos olhos). Me recuso a chorar pela falta de domínio da minha própria vida. Não estava nos meus planos refazer novos planos. Desengavetar o que ficou à minha espera e eu nem sabia!

– Mas é o que te resta dentro desse concreto. Ou usa tua cabeça que hoje é teu único mundo onde é permitido caminhar, ou melhor, voar. Só assim consegues saltar essas paredes!

E assim foram dias e dias de muita conversa. A segunda xícara nunca me abandonou mesmo quando o mundo parecia pausado e os dias iguais. Foram nesses momentos pequenos e pingados que encontrei minhas novas versões, recheadas de inquietudes, crises, risos e lágrimas. Foi na segunda xícara que encontrei outros mundos meus, que nenhum vírus penetrou. Foi preciso mergulhar fundo, e isso eu sei bem fazer!

A segunda xícara me ensinou sobre o tempo. O tempo que se perdia em passadas largas e apressadas. Tempo do banho rápido, dos afazeres diários no automático, do café engolido, do tempo morrido.

A segunda xícara aguçou meus ouvidos ao canto dos pássaros, a avenida calada, a conversa do vento na varanda e aos burburinhos dos meus pensamentos! 

*

Ilana Kaufman (Porto Alegre, RS | Brasil)

Contato: ilakau7@gmail.com

O mês de março de 2020 parece ter terminado antes. O medo do desconhecido começava num dia que seria o último de tantos que não se repetiriam mais. As ruas, já repentinamente vazias, contrastavam com a pressa dos incertos momentos que se seguiriam. “… Uma ânsia jamais sentida tomou conta de mim…”. O riso irônico dos transeuntes deixava a inquietação tomar conta, quase esquecendo o motivo de ter saído de casa: comprar vitaminas. Na primeira farmácia adentrada, uma cliente tossia muito e pedia remédio para febre. “… Preciso sair. A pandemia está circulando pela população…” Não deu tempo para responder à balconista, quando a mesma bradou 10.  Os passos se tornaram acelerados e certeiros.   Ao chegar em casa, as mãos e os pés não tinham mais o vigor de outrora. “As multidões nunca me atraíram. No entanto, poder caminhar e sentir o ar tocando o rosto… Que saudades!”

*

Johany Medeiros (PE | Brasil)

Contato: johanymedeiros6@gmail.com

O calendário colado na parede com um durex barato, a faz lembrar que é junho. Só agora, antes de marcar mais um xis, percebe, que é dia de São João. O tempo, já parado há tempos, a faz viajar para uma época não tão distante. O peito aperta e palpita ao imaginar a fumaça e a boniteza das fogueiras que agita a criançada e os mais velhos; as pessoas fazendo fila para curtir a festa e a quadrilha animada, que sempre assiste ao lado do avô.

A respiração fica pesada, acaba sentando-se na cama bagunçada e colocando uma das mãos no coração acelerado. Mas o que está acontecendo? Por que parece que engoliu mil agulhas? Por que isso não para? Quer levantar-se, correr para o diário esquecido e listar todas as coisas que está sentindo nesse exato momento, como sempre faz quando uma crise bate à porta. Mas fecha os olhos. E ao fazê-lo, vê um par de olhos azuis encarando-a. Ele está feliz! Ele sempre está feliz quando presencia o salto colorido dos dançarinos de um lado para o outro.

O coração acalmou, as lágrimas escorreram e a vontade de escrever voltou a nascer. A saudade é mesmo um bicho estranho: não sabemos desenhá-la, mas podemos personificá-la em grandes olhos azuis.

*

Luciana Beirão de Almeida (Porto Alegre, RS | Brasil)

Contato: lubeirao@hotmail.com

Sol e chuva

17/01/2021

O sol atravessa a vidraça em meio à chuva, um raio de esperança iluminando a sala. O silêncio da casa vazia. Eu e os meus pensamentos, livros e estudos.  Aqui, escrevendo, me sinto acolhida pelo calor do sol, por sua luz, e vejo a minha sombra na parede. As gotas de chuva na janela me fazem lembrar que lá fora a vida acontece. Mas, por enquanto, neste instante, aproveito o encantamento do meu refúgio.

*

Sueli Agnelli (São Bernardo do Campo, SP | Brasil)

Contato: sbocciadi@gmail.com

Todos os dias eu via o ventilador de teto girando, me sentia assim, a cabeça girando com meus pensamentos acelerados, como um trem desgovernado. O cenário da internet era caótico, a tv nem se fala… A ansiedade resolveu ficar para o jantar. Até que eu resolvi fazer terapia, achava clichê demais conversar sobre o que eu sentia, mas a ansiedade me pediu para que tal ato fosse realizado. Lembro-me de ter adotado meu cachorrinho para a companhia dos dias cinzentos. Erguiam-se as placas em todos os lugares: “Seja criativo, produza”. Mas o que era difícil mesmo era parar, parecia que eu precisava correr mesmo eu clamando por uma pausa. O café ficou frio e melado como os meus dias. Até que meu amor chegou, aquele par de olhos castanhos, juntamente com meu cachorrinho, aquele focinho preto me trazendo abrigo em dias turbulentos. Eu só queria repousar minha cabeça no peito dele e falar sobre essa amiga falsa que chega sem avisar e bagunça toda minha vida. É, meu amor… essa tal da ansiedade faz esquecer o que temos de bom e perdemos o que temos para ganhar mais, que loucura, não é? Com um suspiro profundo, lembro-me de ver meu alívio de ansiedade aqui comigo. A casa era um silêncio tão obscurecido que dava pra ouvir a própria respiração, era cansativo se ouvir todos os dias. Meu refúgio para o caos era sentar na minha mesa e escrever qualquer bobagem, pode ser cartas que não serão endereçadas a alguém, poesias, ou qualquer coisa do tipo. Foi meu refúgio poder escrever e aliviar a tensão que meus dentes e meus ombros tinham durante todos os dias, escrever é meu bote salva-vidas, o cenário não é nada agradável, mas pelo menos a caneta dançando pelo papel faz tornar-se menos caótico possível.