Mulheres poéticas

Escrita erótica para mulheres poéticas[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2020

As poetisas

No prefácio de Delta de Vênus, da escritora francesa radicada em Nova York nos anos 1930 Anaïs Nins, descobrimos como construiu as suas histórias eróticas.

Ela e um grupo de peso – Henry James entre outros – foram contratados para escreverem narrativas eróticas para um colecionador de livros, que afirmava que eram para um de seus clientes. E mais: “o velho”, como o colecionador o chamava, queria somente as cenas de sexo.

Poderíamos ter engarrafado segredos melhores para lhe contar, mas ele teria sido surdo a tais segredos. Porém, um dia, quando ele estivesse saturado, eu lhe diria como ele quase nos fez perder o interesse pela paixão devido à obsessão com os gestos esvaziados das emoções e como o xingamos, porque ele quase nos levou a fazer voto de castidade, pois o que desejava que excluíssemos era o nosso próprio afrodisíaco – a poesia.[3]

É na contramão desse desejo do “velho” (ou quem sabe do próprio colecionador) que o grupo das Mulheres poéticas nasce. Idealizado pela engenheira-poeta Elba Lins, foram convidadas mais três escritoras-poetas para uma façanha, digamos, poderosa: Bernadete Bruto, Raldianny Pereira, e esta que vos escreve. Alguns dias depois, recebemos com imensa alegria as (também) escritoras-poetas Monique Becher, Patricia Alves e Taciana Valença.

A ideia inicial era lermos poemas sugeridos pelo escritor e professor gaúcho de Escrita Criativa Altair Martins quando ministrou a disciplina Oficina de Poesia na especialização lato sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS em setembro de 2019.

Altair classifica os poemas em sensuais (que apenas sugerem), eróticos (quando a coisa acontece) e pornográficos (quando o que acontece é escrachado). Elba sugeriu que selecionássemos poemas próprios ou de outros(as) poetas, classificássemos e levássemos para a reunião que iniciaria uns poucos minutos após escrever este texto.

Como tive pouco tempo para analisar todos os poemas sugeridos por Altair, resolvi escrever este breve texto e trazer trechos de algumas poetisas/poesias – selecionadas por Altair e por mim.

Comecemos por Hilda Hist.

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca

Austera. Toma-me AGORA, ANTES

Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes

Da morte, amor, da minha morte, toma-me

Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute

*

Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,

Um sol de diamante alimentando o ventre,

O leite da tua carne, a minha

Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo

Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida

A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

[…][4]

Podemos considerar o poema de Hilda Hilst como beirando o erótico e o sensual. Ela não revela tudo, mas quase, mais do que sugestão. Estaria, portanto, em um lugar híbrido, entre as duas categorias.

Essa carne de Hilda – e o Verbo se fez carne e habitou entre nós – também habita o imaginário de uma das maiores poetisas vivas brasileiras: a mineira Adélia Prado.

Em entrevista para os Cadernos de Literatura Brasileira, Adélia nos fala da fenomenologia da escrita poética.

[…] Poesia não é algo que eu crio com as palavras; sento e falo: “Agora com estas palavras vou criar isso ou aquilo”. As palavras me servem na medida em que dão carne a uma experiência anterior. Eu posso até cutucar um pouquinho em alguma palavra e ela me despertar a coisa, mas essa coisa que a poesia desperta é que é o grande mistério. Para mim, é o corpo de Cristo; ela é encarnação da divindade, é um experimento do divino. E o máximo desse experimento é um Deus que tem carne, que no caso é Jesus. É o máximo de poesia possível.[5]

E mais adiante nos Cadernos, Adélia nos brinda com um poema inédito que podemos classificar no mesmo híbrido erótico-sensual:

Oh, quem me fez, socorra-me,

a carne do meu coração

é a pele esticada de um tambor

onde ecoam sofrimentos

que parecem tentações,

dor travestida de dor ainda maior

para que eu desista

e duvide da crença de que tenho um pai.

Vem tudo em forma de carne

grandes mantas de carne palpitante,

recobrem ossos, mágoas, frustrações, desejos

sobre os quais tenho culpa e devo purgar-me

até que eu mesma seja apenas ossos.

[…][6]

Antes de finalizar este breve texto, trago um poema meu que penso compactuar com esse mesmo não lugar de Hilda, de Adélia, entre o erótico e o sensual. Talvez seja essa a carne da poesia que Adélia nos alerta, por habitar todo poema, por ser a encarnação do Verbo de sentido que permeia as entranhas de cada uma de nossas mãos que escrevem poesia.

Com

A mais bela rosa

Risco

O teu corpo nu

Beijo

Cada uma das células

Latejantes

Incongruentes

*

Entrego

Em taça dourada

O néctar do desejo

Antigo

Ancestral

Em que tu em mim farias

Gruta úmida e rara

Para apagar dos pecados

A solidão solícita

*

Do meu ser

Tens o inteiro

Cada margem

Cada escuta

E podes

Se apropriar do que digo[7]

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[1] Texto escrito para o primeiro encontro das Mulheres poéticas em 20 de novembro de 2020.

[2] Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[3] NINS, Anaïs. Delta de Vênus: histórias eróticas. Tradução: Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM, 2005, p. 8.

[4] “Júbilo memória noviciado da paixão” (1974), Hilda Hilst – seleção Altair Martins.

[5] PRADO, Adélia. Entrevista em Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: IMS, junho de 2000, p. 24 – seleção Patricia Tenório.

[6] PRADO, Adélia. Línguas. In Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: IMS, junho de 2000, p. 62 – seleção Patricia Tenório.

[7] TENÓRIO, Patricia Gonçalves. O dom e o fruto. In D’Agostinho. In 7 por 11. Recife: Raio de Sol, 2019, p. 233 – seleção Patricia Tenório.

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Escrita infantil para mulheres adultas[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Dezembro, 2020

As poesias

O grupo das poetisas continua se encontrando. Continua me provocando leitura e criação. Elba Lins, conduzindo “as meninas”, sugere a leitura da seleção de poesias infantis do professor Altair Martins.

Começo de maneira diferente. Lembro do especial da Rede Globo Vinícius para criança,[3] que assisti aos onze anos de idade. Mas poeta é criança para sempre. Então fui atrás do Poetinha – que, por essas coincidências da arte, eu estava estudando – e me deparo com A arca de Noé.

Sete em cores, de repente

O arco-íris se desata

Na água límpida e contente

Do ribeirinho da mata.

*

O sol, ao véu transparente

Da chuva de ouro e de prata

Resplandece resplendente

No céu, no chão, na cascata.

*

E abre-se a porta da Arca

De par em par: surgem francas

A alegria e as barbas brancas

Do prudente patriarca.[4]

Vinícius nos apresenta de maneira infantil, mas inteligente – com o cuidado para não subestimar a capacidade de apreensão da poesia pelas crianças – todo um universo que a arca de Noé nos remete: a recriação do mundo após o dilúvio. Interessante utilizarmos essa metáfora na escrita poética, em especial na infantil, porque acredito que não existe nada mais original, tudo já foi criado, mas não com o nosso olhar, nossa subjetividade, nossa bagagem de leitura e de vida.

Leão! Leão! Leão!

Rugindo como o trovão

Deu um pulo, e era uma vez

Um cabritinho montês.

*

Leão! Leão! Leão!

És o rei da criação![5]

Não podemos deixar de comparar com o poema “The Tyger”, do poeta e artista inglês William Blake, de quem Vinícius revela a inspiração.

Tyger Tyger, burning bright!

In the forests of the night;

What imortal hand or eye,

Could frame thy fearful symmetry?

*

[Tyger Tyger, queimando brilhante!

Nas florestas da noite;

Que mão ou olho imortal,

Poderia enquadrar tua simetria terrível?][6]

Notem que são poemas para idades diferentes, escritos por poetas de línguas diferentes, mas que possuem na essência o mesmo gérmen da poesia, mostrando-nos que a arte não tem idade, e o mais importante é entrarmos em contato com quem nos lê.

Era uma casa

Muito engraçada

Não tinha teto

Não tinha nada

Ninguém podia

Entrar nela não

Porque na casa

Não tinha chão

Ninguém podia

Dormir na rede

Porque na casa

Não tinha parede

Ninguém podia

Fazer pipi

Porque penico

Não tinha ali

Mas era feita

Com muito esmero

Na Rua dos Bobos

Número Zero.[7]

E, ao nos debruçarmos sobre a seleção de poemas infantis feita por Altair Martins, nos deparamos com essa mesma simplicidade inteligente que encontramos em Vinícius e Blake: Walmir Ayala nos apresenta Cecília Meireles.

Você que vai ler este livro, não sei que idade terá. Não posso prever. Seja qual for, você terá uma surpresa, porque este é um livro mágico. Gostaria que você imaginasse a menina Cecília, sem pai nem mãe, apenas com sua avó Jacinta Garcia Benevides, debruçada sobre um tapete, descobrindo o mundo. Que tapete seria esse? Certamente parecido com esses que aparecem nas histórias orientais, com pássaros e flores, e muitos caminhos retorcidos onde ela imaginava o labirinto do sonho. Da Solidão de menina, e da atenção sobre as coisas que passam, ou pelas quais passamos, se nutriu a poeta Cecília Meireles, que depois foi mãe, avó e mestra. Todas estas experiências estão neste livro, que é como aquele tapete povoado de mistérios. Cecília entendia as crianças. Transitou com leveza entre os netos que foram tão simples e curiosos como vocês. Foi colhendo uma coisa ali, outra acolá, um cachimbo dourado de cabelo, uma birra, até um pensamento triste, e transformou tudo em matéria de vida. Mas esta Cecília tinha um amor muito especial pela palavra. E resolveu brincar, fazer ciranda com os sons, entrelaçar os fatos com rimas ingênuas, musicar o pensamento.[8]

A música de Cecília (assim como a de Vinícius) nos embala, e nos ensina a escrever… 

O mosquito pernilongo trança as

pernas, faz um M, depois, treme,

treme, treme, faz um O bastante

oblongo, faz um S.

*

O mosquito sobe e desce. Com

artes que ninguém vê, faz um Q,

faz um U, e faz um I.

*

Este mosquito

esquisito

cruza as patas, faz um T.

*

E aí,

se arredonda e faz outro O, mais

bonito.

*

Oh!

Já não é analfabeto, esse

inseto,

pois sabe escrever seu nome.

*

Mas depois vai procurar

alguém que possa picar, pois

escrever cansa,

não é, criança?

*

E ele está com muita fome[9]

… a dançar…

Esta menina tão

pequenina

quer ser bailarina.

*

Não conhece nem dó nem ré mas

sabe ficar na ponta do pé.

*

Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo para cá e para lá.

*

Não conhece nem lá nem si, mas

fecha os olhos e sorri.

*

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar e não

fica tonta bem sai do lugar.

*

Põe no cabelo uma estrela e um véu e diz

que caiu do céu.

*

Esta menina tão

pequenina

quer ser bailarina.

*

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.[10]

… a fazer escolhas quando um dia formos adultas, pequenas meninas que ainda somos…

Ou se tem chuva e não se tem sol

ou se tem sol e não se tem chuva!

*

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

*

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

*

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo em dois lugares!

*

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou

compro o doce e gasto o dinheiro.

*

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo … e

vivo escolhendo o dia inteiro!

*

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

*

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.[11]

… até tomarmos coragem e voltarmos a ser crianças, no apagar das luzes e das forças do dia, e escrever infanto-poesia.

Minha mãe

Mandou dizer

Que eu escrevesse

Isso daqui

*

Mas quando

Eu fui escrever

Achei as palavras

Tão feinhas

Os versos

Pixototinhos

*

Que resolvi

Ler gente

Grande

Um Vinícius

Um Quintana

Um outro

Chamado Gullar

*

Mas

De quem

Eu gostei

Mesmo

Foi daquela

De nome

Cecília

*

Que me

Botou

No colo

Contou

História

E me

Fez

Um dia

Sonhar[12]


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[1] Texto escrito para o terceiro encontro das Mulheres poéticas em 13 de dezembro de 2020.      

[2] Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa     

[3] O especial Vinícius para criança foi exibido na Rede Globo em 10/10/1980, no horário das 21h. Com direção de Ewaldo Ruy e direção-geral de Augusto César Vanucci, teve a participação especial de Aretha Marcos, Alceu Valença, Chico Buarque, Fábio Júnior, Milton Nascimento, MPB4 e muitos mais.

[4] MORAES, Vinícius de. A arca de Noé. In Vinícius de Moraes: obra reunida. Organização: Eucanaã Ferraz. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, (1970 in) 2017, p. 443.

[5] MORAES, Vinícius de. O leão. In Op. cit., (1970 in) 2017, p. 450.

[6] BLAKE, William. William Blake. The British Museum. London: The Random House, 2005, p. 32 – Tradução livre nossa.

[7] MORAES, Vinícius de. A casa. In Op. cit., (1970 in) 2017, p. 450.

[8] Prefácio de Walmir Ayala para Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[9] O mosquito escreve. In Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[10] A bailarina. In Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[11] Ou isto ou aquilo. In Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[12] “Quando eu quis virar poeta”, Patricia Gonçalves Tenório. Escrito às 21h47 de 12/12/2020.