Coleção Quarentena | Depoimentos

Em 22 de dezembro de 2020, lançaremos a Coleção Quarentena aqui no blog. É uma trilogia de ficção, poemas e não ficção escrita por Patricia Gonçalves Tenório durante os primeiros seis meses da pandemia de Covid-19 e que foi imprescindível para a autora expurgar os medos mais profundos, mas também enxergar a beleza que sempre brota nos períodos sombrios da humanidade.

Patricia convidou três amigas-irmãs de Poesia para darem os seus depoimentos a partir da leitura dos livros. Com vocês, Bernadete Bruto, Elba Lins & Raldianny Pereira!

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Exílio ou Diário depois do fim do mundo

Patricia Tenório descortina cada detalhe da experiência particular, perante o momento histórico, ao produzir Exílio ou Diário depois do fim do mundo. Por meio do relato diário, os dias são computados em ordem numérica e os acontecimentos exibidos por uma escrita cuidadosa e poética. Assim, confidencia-nos momentos de medo, incertezas, alegrias, tristezas, esperança, poesia e aprendizagem, na tentativa de abarcar os sentimentos que emergem no isolamento imposto. Ao transformar em livro o diário, entregando ao público a experiência pessoal, não só tem um gesto de coragem, mas, também, de amor à vida.

Recife, 13 de outubro de 2020

Bernadete Bruto

O Diário de Patricia não é apenas um espelho onde nos vemos a nós próprios e ao mundo inteiro neste período de pandemia. É uma lupa que amplia as nossas dificuldades, nossos problemas e que abre nossos olhos para as várias realidades – seja a nossa, a do outro ou a do planeta. O Diário nos leva a muitas reflexões sobre a vida, os relacionamentos, a fé, as amizades, os interesses individuais. É uma fotografia ampliada do que nós todos vivenciamos – “cada um na sua cela”.  O Exílio nos leva também por uma viagem mágica pelo mundo da literatura, das teorias sobre a escrita, dos filmes.  Sua leitura vai se tornando um prazer e confirmando que ela cria mundos – mesmo que estejamos presos em um único lugar.

Elba Lins

2020 nos deu uma rasteira. E, no isolamento social, desterro, Exílio em que, tal como no golpe de capoeira, vimos nossos pés perderem o chão e a Terra virar de cabeça para baixo depois do fim do mundo, Patricia traz para seu convívio mais íntimo seus amores e trava com eles diálogo diário e profundo. Assim nos permite partilhar seus sentimentos, mais que pensamentos, com seus parceiros da vida inteira, os livros, e neles, seus autores e autoras, amigos fiéis. Além disso, quiçá defrontando-se mais que nunca com a fragilidade e finitude da vida humana, revisita e conversa com a própria obra como que a perguntar: que tesouro é esse da vida que me ultrapassa? Será descoberto? Mais, será desvendado? Servirá para alguém? Faria o mundo melhor?

Recife, 15 de outubro de 2020

Raldianny Pereira

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Poemas de cárcere

Patricia rabisca lírico diário                   

No silencioso papel em branco                      

Cintilantes esperanças                       

Despontam em poemas matutinos       

Como belos meninos: a temperança            

Perante a escuridão do momento                          

No cárcere do isolamento                 

Uma poética da resistência                      

Recife, 13 de outubro de 2020

Bernadete Bruto

Aprisionada entre paredes físicas pelo medo de um inimigo invisível, Patricia resiste e através da escrita encontra a chave que abre as portas da prisão – “O vírus/ Imobilizou o mundo/ Inteiro/ Mas não imobilizou/ A minha mão”. Assim, vai entrando num ritmo próprio e vendo o mundo com novo olhar, que a leva do medo à esperança; do exílio ao encontro final – “O amor/ Será um laço/ Atado pela distância/ Que nos separa (…) E o teu olhar/ Ah, o teu olhar/ Já me conhecendo inteira/ Depois do fim do mundo”. Ou que ainda fala de uma nova rotina que nos invade a todos, o que nos leva à compreensão do outro – “Estão/ Em minhas mãos/ Os calos nodosos/ As cicatrizes/ De acidentes domésticos/ Quando reaprendo/ A ser feliz”.

Elba Lins

Enquanto Patricia conta os dias de aprisionamento, poemas continuam brotando, a baronesa crescendo, o diário chega às 154 páginas e o isolamento ainda as ultrapassa em muito. A grande esperança pós-pandemia: as relações mudarão e agiremos segundo “e se fosse comigo?”. Depois do conforto da solidão da escrita na solidão imposta pela pandemia, o pânico com a iminente reabertura do mundo. O que será de nozes 2. O que será que será à flor da Terra. O dia nasceu com Poemas de cárcere, “Que um dia / Terei / Descanso / O silêncio / Invadirá / Os meus cantos / Mais profundos / E serei feliz”.

Recife, 16 de outubro de 2020

Raldianny Pereira

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Setembro chega em forma de canção, envolvendo-nos em entrecortada narrativa atemporal na qual distinguimos a própria essência. Embora ficcional, a descrição é demasiadamente humana, causando uma inevitável identificação durante a leitura.  Não tem como não se deixar conduzir pelo ritmo da história. A voz narrativa infantojuvenil nos faz reconhecer angústias e anseios perante a vida, tão comum a tantos. É uma novela delicada, impregnada de afetos, que findamos a leitura com o coração em esperançoso acalanto a cantar: “Quando entrar setembro…”.

Recife, 14 de outubro de 2020

Bernadete Bruto

Inspirada ora em histórias reais ora em situações imaginárias, Patricia constrói uma narrativa de tempos de pandemia – que poderia estar acontecendo agora, com você, com seus filhos, com seus pais ou seus vizinhos. A partir de possibilidades vislumbradas, ela tece uma teia de encontros, desencontros, descobertas, perdas, paixões e despedidas. Surpreendemo-nos e nos assustamos, pois todas essas coisas podem ocorrer em dias normais, mas são amplificadas em tempos de solidão, envolvendo a todos num turbilhão sem controle.

Elba Lins

Setembro traz o tema da desintegração familiar que a pandemia provocou na ficção e, não raro, na não ficção. Além disso, Patricia evidencia a realidade da mulher usualmente colocada no centro das grandes responsabilidades domésticas na quase inabalável estrutura das relações familiares que atravessa séculos, notadamente na cultura patriarcal do Brasil. A novela fala sobre o abandono de menores, mas também sobre o que “no fim das contas, somos: todos seres carentes de afeto, de atenção, e o isolamento exacerba tudo isso”.

Recife, 21 de outubro de 2020

Raldianny Pereira